Uma nova política no Brasil, feita por conservadores e liberais

Em fevereiro, um congresso bastante modificado tomará posse.

Para se ter uma ideia a renovação do Senado foi de 85%, no entanto, somente 30% desse total é de senadores estreantes no cargo. Por sua vez, a taxa de renovação da Câmara dos Deputados foi de 51,1%, desde 1998 não havia uma renovação tão expressiva na Casa. Contudo, a taxa de deputados estreantes foi de 47,3%.

O Partido Social Liberal (PSL), foi o que mais conquistou cadeiras, totalizando 44 vagas.

Portanto, se configurando como o partido com a segunda maior bancada, com 52 representantes.

Esses indicadores evidenciam que estamos passando por um processo de reestruturação da credibilidade da política brasileira e este momento incide em mostrar para a população que é preciso adquirir confiança na política, porque é nela que se encontram os meios pacíficos para a realização de grandes transformações.

Nessas eleições a população mostrou que pretende ser mais ativa em sua participação e isto é um indicativo aos políticos de que eles não estarão sozinhos para cometer as mazelas que o país se acostumou a ver nos noticiários

Contudo, alguns poucos deputados que estão chegando aproveitaram-se do anseio popular por uma mudança e vestiram a pele de cordeiro, mas na verdade são lobos, predadores do voto dos eleitores desolados pela velha política.

Esses que se apresentam como conservadores ou liberais, mas na verdade não passam de novas raposas preocupados exclusivamente com os seus interesses, serão julgados no próximo pleito eleitoral. Sabemos que o político mal-intencionado age como um camaleão se adequando ao ambiente para angariar votos. E foi contra isso que população votou.

Como sabemos, política não se transforma de uma única vez, são pequenas alterações que aos poucos permitem que o estado de coisas se modifique, mas para que isso ocorra é necessário que os grupos que formam esta direita emancipada sejam combatentes e, em certa medida, unidos.

O que pode atrapalhar a consolidação de uma direita robusta no Brasil é o ego. Antes do governo tomar posse já presenciávamos pequenos conflitos entre apoiadores do governo e membros do governo, é precisa união entre conservadores e liberais em prol de uma agenda que consiga atender às demandas nacionais.

Atender a agenda econômica é essencial, mas não se pode dizer que a pauta conservadora não tem importância no atual momento.

Conservadores e liberais sempre irão divergir a respeito das questões morais. Por outro lado, ambos acreditam que a diminuição do Estado é algo essencial para o bem-estar da sociedade.

Este ponto de afinidade deve ser explorando, tendo em vista que um dos maiores desejos de grande parte da população brasileira é arcar com um Estado mais enxuto e eficiente nas suas atividades.

Para os liberais, as questões econômicas devem sempre ser posicionadas no primeiro plano, consequentemente as liberdades individuais devem ser plenas, deste modo para um liberal, questões como aborto e uso de drogas são de responsabilidade intrínseca a pessoa, não cabendo ao Estado dizer o que aquele indivíduo deve ou não fazer. Por sua vez, os conservadores buscam conservar os valores históricos da moral judaico-cristã. Não se trata de seguir uma determinada religião, mas sim, compreender que a sociedade necessita da manutenção de alguns preceitos que exercem papel fundamental para a manutenção do equilíbrio natural da vida humana, o que W. Wordsworth (1832) chamou de “instituições e leis consagradas pelo tempo”.

Estas diferenças entre liberais e conservadores são balizadas pela liberdade, tendo em mente que ambos são defensores da liberdade.

Porém, a maneira de enxergar a liberdade é diferente entre um conservador e um liberal, isto porque para os conservadores a sua liberdade não pode afetar um outro indivíduo.

J. S. Mill (1859) chamava esta questão de “princípio do dano”.

Vejamos o seguinte exemplo: uma pessoa tem o direito de usar a sua liberdade para consumir drogas? Tem. Mas o uso dessa liberdade pode trazer danos a outras pessoas. Portanto, para Mill o indivíduo tem o total direito de fazer uso da sua liberdade, contudo se esta liberdade causar dano aos demais membros da sociedade, a mesma passa a ter o direito de impor restrições.

Liberais e conservadores devem manter suas convicções e defendê-las, o embate de ideias é saudável. O que não se pode permitir é que estes ataquem o governo. O enfraquecimento do governo significa ganho de força para a oposição e tanto os liberais quanto os conservadores já estão conscientes de quem está do outro lado aguardando o fracasso do governo.

Acredito que se eles voltarem ao poder em 2022 ou até mesmo antes, caso o governo seja enfraquecido, dificilmente sairão do poder.

Não se pode dar discurso à oposição. Criar intriguinhas dentro do governo é dar munição ao opositor e caso os liberais desejem um liberal no governo em 2022 é preciso que o governo atual dê certo, do contrário não teremos nem liberais nem conservadores.

Calebe Coelho

Professor de sociologia e gestor de políticas públicas. 

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