A ministra Damares e quando a ideologia rouba a alma de seus detratores

A reportagem da IstoÉ é de 2008 e voltou a ser divulgada nos últimos dias (leia aqui).

Retrata a "tradição cultural" de algumas tribos indígenas de assassinar crianças indesejadas (por serem deficientes, por serem gêmeas, por serem filhas de mães solteiras), a maneira como se faz isso (enterradas vivas, afogadas, enforcadas ou a golpes de facão) e a atuação de uma organização religiosa de Brasília, que resgata, acolhe e encaminha essas crianças.

Sim, é a organização da qual faz parte a missionária protestante e atual ministra Damares Alves.

Damares - talvez por ser religiosa, talvez por ser uma pessoa simples - é um dos principais alvos cotidianos de parte da imprensa, que de tudo faz e fará para desqualificar ações do atual governo, seguida de forma robótica pelos peões da internet, muitos deles destilando generosas doses de arrogância quando se referem especificamente à ministra, sempre prontos para debochar, satirizar, ridicularizar.

A ministra Damares Alves e sua filha adotiva de origem indígena.

Com algum esforço, até se pode entender que o debate político no Brasil se tornou uma guerra insana de narrativas rasas e que há um número enorme de pessoas totalmente inconformadas, se agarrando feito náufragos a qualquer possibilidade de achincalhar o "inimigo"; mas, esquecendo por um instante o cargo transitório que essa senhora ocupa.

Como é possível desmerecer um trabalho missionário que se dedica a salvar crianças da morte para dar-lhes uma perspectiva de vida e um futuro?

Relativizar um crime bárbaro sob o argumento de que se trata de algo inerente à "cultura" daqueles povos, é o mesmo que endossar outros atos brutais: como mutilações genitais, estupros corretivos e criminalização de relações homossexuais, sob ameaça de penas de açoitamento, cadeia ou morte - todas práticas ainda hoje difundidas em regiões do mundo, como parte de "culturas" locais.

E há algo que me causa tristeza profunda. Algumas das pessoas que percebo estarem sempre prontas para desqualificar a missionária Damares, conheci por estarem envolvidas em um outro tipo de ação de voluntariado à qual também sou ligado: a de resgatar e tratar animais em situação de abandono. Gente capaz de arrumar brigas e de se arriscar para salvar cães e gatos vítimas de maus tratos; gente que dedica grande parte do tempo e dos recursos ao acolhimento, tratamento, preparo e encaminhamento desses animais. Gente que desempenha essa tarefa sem nada pedir em troca, muitas vezes até em silêncio, com determinação e amor.

E essas mesmas pessoas caçoam da mulher que salva indiozinhos.

É o PARTIDO.

É sempre o PARTIDO.

A obediência cega aos ditames do PARTIDO suplanta até mesmo a BONDADE que têm em seus corações, rouba-lhes o senso crítico, a capacidade de julgamento e faz delas metralhadoras de clichês automatizados.

Não falo do partido visível, material, da agremiação política, com sede, com CNPJ, com seus representantes, seus discursos, seus candidatos:

mas sim do PARTIDO interno.

O PARTIDO onipresente, que está em todos os lugares sem que se perceba; é ele, Gramsci, aquele grande safado.

O PARTIDO roubou-lhes a alma.

(Texto de Fábio Pegrucci).

da Redação

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