O gigante acordou, mas a classe política continua dormindo em berço esplêndido

Para que se entenda o Brasil de hoje e se pense o Brasil de amanhã, é preciso analisar o Brasil de ontem. E o que acabou de acontecer no cenário político, a partir das eleições de 2018, é uma amostra valiosa para este exercício.

Aos trancos e barrancos, o gigante acordou. Mas a classe política preferiu ficar dormindo.

Aos trancos e barrancos, o gigante acordou. E passou quatro anos nas ruas; de forma intermitente, mas com demonstrações inequívocas de total desprezo pela classe política e pelos poderosos. Estes, por sua vez, preferiram continuar dormindo em berço esplêndido, ao som das caixas registradoras e à meia-luz dos recônditos noturnos em que tramavam o avanço de suas quadrilhas. O resultado das urnas não poderia ser outro.

De um lado, uma aliança envolvendo alguns dos maiores e mais influentes partidos, capaz de mobilizar uma gigantesca base de apoio em todos os municípios brasileiros e de garantir um tempo de TV quase maior do que o de todos os outros candidatos juntos. Influência histórica no maior colégio eleitoral do país. Apoio de todo o mercado financeiro nacional. Os mais conceituados marqueteiros, estrategistas de primeira linha, agências premiadas.

O resultado dessa inigualável confluência de forças em torno de Geraldo Alckmin não poderia ser outro: uma estrondosa, acachapante e vergonhosa derrota. Derrota do poder e de seus donos, simbolizados na pessoa do candidato tucano. Tanto poderio não garantiu sequer 5% dos votos. No Brasil atual, restou que ostentar poder político é perder disputa eleitoral.

De outro lado, uma campanha presidencial simples, mais barata do que a de muito deputado estadual, tocada via redes sociais, desde uma maca de hospital ou de dentro de casa em boa parte do período. Transmissões toscas, com gambiarras, sem roteiro, sem técnica, sem pretensão. Um tempo de TV que mal permitia falar o nome completo do candidato. Do empresariado, apenas o desprezo. Dos partidos políticos, idem.

Dizendo não o que o povo quer ouvir, mas gostaria de falar, o resultado não poderia ser outro: uma vitória histórica. Agindo em consonância com a revoltada e impaciente população, Bolsonaro não apenas obteve uma conquista improvável, da qual todo o contexto político duvidou e debochou por anos, mas também logrou eleger centenas de outros políticos que surfaram na sua onda, constituindo-se no maior fenômeno eleitoral de nossa democracia.

Ou a classe política entende que o gigante, quando acordado, não tem muita paciência, ou pode ir acionando a agência de empregos mais próxima.

Mateus Colombo Mendes

Jornalista. Bacharel em Letras. 

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