Comunismo, totalitarismo e dogmatismo

Talvez como sinal dos tempos, a discussão sobre o caráter das esquerdas tem ocupado as listas de discussão da UFSC. Docentes de reconhecido DNA socialista, que antes mantinham um conveniente ‘low profile”, agora emergem nas listas tentando mostrar que o bicho-papão do comunismo não é tão medonho quanto pessoas como eu andavam pintando.

Por que tal surto? Não tenho resposta certa. Mas desconfio que seja parte da campanha para colocar o APUFSC-SINDICAL, Sindicato dos Docentes das Universidades Federais em Santa Catarina - hoje independente e livre - nos braços daquele sindicado federal de horrores o ANDES-SN, Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, cujo último congresso foi tão bem comentado pelo Professor Carlos Adriano Ferraz em artigo publicado neste Jornal da Cidade Online. (Ao final deste texto, dou o link para aquele artigo do Prof. Ferraz).

Naquele artigo pode-se ouvir que o hino tocado na abertura não foi o Nacional Brasileiro, mas a Internacional Socialista. Entre outro horrores, ouviu-se o discurso do Prof. Mauro Luís Iasi (UFRJ), comunista de carteirinha do PCB, pregando o paredão para os conservadores e liberais. E, sem surpresas, sendo muito aplaudido! Realmente, um espetáculo de horror protagonizado por um bando de esquerdopatas que desonram e envergonham as universidades públicas.

Como pretendo abordar, em breve, esta intenção já proclamada de se colocar o sindicado estadual (no momento livre, independente) dos docentes das universidades federais em Santa Catarina nas amarras do sindicato jurássico federal ANDES-SN ou, alternativamente, da CUT (ou seja do PT), paro aqui, por enquanto. Apenas quis fundamentar minhas suspeitas de que tal ressurgimento do debate sobre comunismo e adjacências tem a ver com a campanha de anexação apontada. Visam, os debatedores, aparentemente, dar uma feição humana e racional ao comunismo, tarefa impossível.

Apresento abaixo, à guisa de exemplos, dois argumentos em favor do comunismo, e a forma como os refutei.

1. De um debatedor, ouvimos: “E partido comunista não significa totalitarismo.”

Minha resposta:

Partido comunista significa, sim, totalitarismo.

A palavra "comunismo", tem origem em ‘communis’, Latim. E ‘communis’ significa “comum” e remete a uma doutrina social em que todas as pessoas tem o mesmo direito sobre tudo. Ter todos o mesmo direito sobre tudo, significa que todos têm direito a nada. E isto implica em que as propriedades privadas não podem existir.

Esta é a essência do comunismo. E para que tudo seja “comum” é preciso que nada seja de alguém e por aí o regime comunista, necessariamente, se torna totalitário. É que não é da natureza humana – e isto é demonstrado desde os Sumérios, dez mil anos a.C.- ceder espontaneamente o que foi conseguido, por si e pelos seus antepassados, em termos de propriedade. O communis, então, só se consegue pela violência, praticada por um governo criado pela força e movido a força, o que configura totalitarismo. A História tem confirmado, sem exceção, esta premissa.

Negar isto, fato histórico e generalizado, com o exemplo da Emília Romanha (uma região da Itália, governada pelo Partido Comunista Italiano, onde não existe totalitarismo) é descer a um nível de simplificação que atinge as raias da ingenuidade.

Primeiro, a Emília Romanha não é um Estado soberano: é apenas uma região de um país democrático, inserida no território de um país democrático, sujeita às regras da democracia italiana, às quais deve obediência.

Lá não poderá haver communis porque a Constituição italiana não permite.

Se não pode haver communis, não haverá totalitarismo comunista.

Então, não há, não pode haver comunismo na Emília Romanha. A Constituição italiana não permite. Afirmar o contrário é pura falácia.

Pode aquela região até ser administrada por um partido nominalmente comunista, mas que não pode impor lá o comunismo, isto é o communis, porque está abaixo e submissa a uma Constituição de um Estado Democrático.

Lá as pessoas têm bens, podem abrir negócios sem pagar pedágio a uma ‘nomenklatura’, o capital não é sequestrado em nome dos trabalhadores e (importante!) o único hino nacional que lá se toca e canta é o da Itália democrática e capitalista.

2. De outro debatedor - aliás ex-presidente daquele sindicato de horrores mencionado acima (o ANDES-SN) – li que Carl Marx não é dogmático.

Eis o que respondi:

Entre Marx e Roberto Campos, fico com este último, absolutamente bem mais inteligente, criativo e culto.

Agora, dizer que Marx não é dogmático é tão verdadeiro quanto uma nota de três reais. E o seu “determinismo histórico” que PROFETIZOU o fim do capitalismo? Determinismo, histórico ou não, é ‘ipso facto’ dogma. Ao aceitar-se a existência de determinismo está-se, ‘ipso facto’ (haja Latim, para lidar com comunistas!), negando a existência de incertezas (aleatoriedades) no processo histórico. Está-se, em linguagem mais científica, supondo correlação temporal absoluta, no processo histórico, o que é uma imensa, descomunal, galáctica estupidez. E é isto o que Marx é e sempre foi: um medíocre guindado a PROFETA político pelas esquerdas mundo afora, principalmente as de universidades.

Bem mais correto (e saboroso!) foi Roberto Campos, quando afirmou: “Fui um bom profeta. Pelo menos, melhor que Marx. Ele previra o colapso do capitalismo; eu previ o contrário, o fracasso do socialismo”.

Roberto Campos ‘previra’ não dogmaticamente, mas probabilisticamente, já que uma das razões de se estudar Processos Estocásticos é fazer predições probabilísticas, isto desde a Mecânica Quântica até estruturas de engenharia aeroespacial de alto desempenho, passando pela Economia.

Já Marx nunca foi estocástico, mas determinístico. (Provavelmente ele nunca soube a diferença entre uma coisa e outra). Vai daí que as previsões de Marx sempre foram imbecis, porque dogmáticas, porque determinísticas. Os resultados estão aí para serem vistos e contados - ao menos por quem não estiver contaminado pela IC (Imunização Cognitiva): A União Soviética ruiu, o Muro de Berlin virou pó, o Leste Europeu se democratizou e, em alguns daqueles países, a lembrança medonha do comunismo levou a se proibir, nas constituições, partidos comunistas.

Naqueles países a constituição proíbe até a propaganda do Comunismo, doutrina posta lado a lado à do Nazismo. A China é, hoje, apenas uma ditadura capitalista. Sim, sobraram restolhos: a Coréia do Norte, Cuba e, até agora, a República Bolivariana de Maduro que, de tão podre, logo cairá.

Já que citei o brilhante Roberto Campos, não resisto e volto a ele, com mais quatro de suas deliciosas citações, sempre tão atuais:

a. “O PT é um partido de trabalhadores que não trabalham, estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam”.
b. “Nossas esquerdas não gostam dos pobres. Gostam mesmo é dos funcionários públicos. São estes que, gozando de estabilidade, fazem greves, votam no Lula, pagam contribuição para a CUT. Os pobres não fazem nada disso. São uns chatos”.
c. “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar ─ bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. São os filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola”.
d. “Segundo Marx, para acabar com os males do mundo, bastava distribuir. Foi fatal. Os socialistas nunca mais entenderam a escassez”.

Por último, eis o link para o artigo do Prof. Ferraz:

José J. de Espíndola

Engenheiro Mecânico pela UFRGS. Mestre em Ciências em Engenharia pela PUC-Rio. Doutor (Ph.D.) pelo Institute of Sound and Vibration Research (ISVR) da Universidade de Southampton, Inglaterra. Doutor Honoris Causa da UFPR. Membro Emérito do Comitê de Dinâmica da ABCM. Detentor do Prêmio Engenharia Mecânica Brasileira da ABCM. Detentor da Medalha de Reconhecimento da UFSC por Ação Pioneira na Construção da Pós-graduação. Detentor da Medalha João David Ferreira Lima, concedida pela Câmara Municipal de Florianópolis. Criador da área de Vibrações e Acústica do Programa de Pós-Graduação em engenharia Mecânica. Idealizador e criador do LVA, Laboratório de Vibrações e Acústica da UFSC. Professor Titular da UFSC, Departamento de Engenharia Mecânica, aposentado.

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