“Eu, Universidade pública, drogada e prostituída”

Recentemente, em evento sobre privatizações no BNDES, o Ministro Paulo Guedes dizia que “as estatais são como filhos que fugiram e hoje são drogados”. Embora ele não estivesse se referindo às Universidades públicas, parece-me que sua analogia se encaixa perfeitamente em uma análise do que ocorreu com elas ao longo das últimas décadas, mormente durante as administrações do PT. Na verdade eu iria, no que concerne a elas, além: Não apenas drogadas, elas foram prostituídas.

Assim, em um artigo aqui no ‘Jornal da Cidade Online’ eu citava diversos eventos, dissertações, teses, etc, que apontavam para a drogadição e para prostituição especialmente de nossas Universidades públicas, exemplos que, lamentavelmente, não são nem isolados nem exceções, mas que hoje fazem parte de nosso cotidiano (inclusive em Universidades privadas).

Na verdade, abundam casos como os por mim referidos naquele artigo (visitem um repositório de dissertações e teses, por exemplo, ou os sites de nossas Universidades e sua agenda de eventos). Dessa forma, há poucos dias ganhou alguma repercussão mais um exemplo que poderia ser acrescentado ao meu artigo suprarreferido. Trata-se de uma dissertação de mestrado em geografia da Universidade Federal de Rio Grande (FURG) intitulada “A produção das masculinidades e socio-espacialidades de homens que buscam parceiros do mesmo sexo no aplicativo Tender em Rio Grande, RS”, custeada com dinheiro público seja pelo fato de ter sido desenvolvida em uma Universidade Federal, seja por seu autor ter recebido bolsa da CAPES/MEC. Ou seja, foi generosamente subsidiada pelos pagadores de impostos.

Não apenas isso, poderíamos também acrescentar mais um evento ao artigo citado, pois tem sido divulgada, nas últimas semanas, uma ‘Mostra internacional de pesquisa em cultura e sociedade’, a qual será realizada na UNIPAMPA (Jaguarão/RS), e que terá, em seus grupos de “trabalho” (sim: perverteram até mesmo a ideia de ‘trabalho’), temas como “Epistemologias descoloniais, feministas e populares”, passando por “Teorias foucaultianas e filosofia da diferença” (sim, não poderia faltar o perturbado Godfather de toda essa barbárie), “Educação para relações étnico-raciais com ênfase na educação e cultura quilombola” (sim, pois para os ungidos é mais importante saber sobre a cultura quilombola do que sobre os pilares de nossa civilização), etc.

Ou seja, trata-se de mais um evento estultificante realizado em uma Universidade Federal e custeado pelos pagadores de impostos. E qual o propósito de tal evento? Ora, promover os típicos mantras da esquerda: crítica ao “neoliberalismo”, ao patriarcado, ao homem branco, à heteronormatividade, ao conservadorismo, ao Ocidente de uma forma geral, etc. Não me surpreenderia se essa “mostra” começasse com o hino da Internacional Socialista e com gritos de “Lula livre”.

Mas o interessante é observar que essas dissertações, teses, eventos, etc, se escondem frequente e covardemente sob títulos aparentemente complexos, pomposos, os quais são, não obstante, totalmente vazios, sem significado (eles visam atingir a emoção, não a razão, causando alguma confusão no sujeito dotado de bom senso).

Em verdade, os exemplos que tenho citado expressam um pseudointelectualismo cujo propósito é apenas parecer algo inteligente, “superior”, para, assim, justificar seu custo para os pagadores de impostos. Mas ao final são apenas ocasiões para que alguns se divirtam de forma obscena com o dinheiro público. E esse pseudointelectualismo jaz sob uma arrogância acadêmica que torna a Universidade uma realidade virtual, uma “bolha” distante do mundo real e das pessoas reais (e, mesmo, da Ciência). Em sua defesa pública do trabalho citado (sobre a tal “produção das masculinidades e socio-espacialidades”) a orientadora afirma que a dissertação está “qualificada academicamente”, pois foi uma “pesquisa realizada com os rigores e rituais da produção científica”, ou seja, trata-se de uma “pesquisa com todas as condições acadêmicas de ser apresentada como uma dissertação de mestrado em geografia”, que “tem todas as condições de ser apresentada conforme os ritos acadêmicos”. Ela ainda menciona que a dissertação trata das “relações sócio-espaciais de poder”, bem como de “categorias de análise como gênero e sexualidades”. Ou seja, não podiam faltar os típicos mantras das “relações de poder” e de “gênero e sexualidades”, tão caros à mentalidade esquerdista vigente em nossas Universidades.

Mas eu realmente acredito que essa dissertação tenha sido realizada de acordo com os “rituais da produção acadêmica” (em sua área, é claro, pois áreas como as STEM - Science, technology, engineering, mathematics - ainda resistem bravamente à ideologização vigente em nossas Universidades. Desconheço alguma dissertação na engenharia, por exemplo, sobre algo bizarro tipo “Estudo teórico e experimental da junção de concretos de diferentes resistências na socio-espacialidade da fluidez sexual). Não há dúvidas de que seu autor seguiu as regras, pois do contrário não teria sido subsidiado. Sequer teria ingressado em um programa de pós-graduação se não estivesse jogando de acordo com as regras.

Não obstante, penso que o problema é justamente esse: a existência de regras irrazoáveis que permitam o uso de recursos públicos para a diversão privada em pesquisas irrelevantes e burlescas cujo propósito é promover certas ideologias, e não o conhecimento (seu fomento e avanço).

Mas a questão é: que justifica tais regras (desses “ritos” tão estranhos a uma metodologia realmente científica)?

Ora, elas são justificadas com base na ‘opinião’ (eventualmente em ‘sentimentos’, ‘psicopatologias’, ‘ideologias’, etc.) daqueles que se assenhorearam das Universidades. Sua suposta autoridade (e “superioridade” em relação ao senso comum) os legitima a dizerem se um tema importa ou não (em geral tendo como critério os mantras tradicionais da esquerda, hoje dominante na Academia). Notem que, sempre que instados a justificar suas “pesquisas”, seus autores ou defensores evocam, ao invés de razões, a “autonomia universitária” (entendida por eles como cada um fazer o que lhe apraz), a “avaliação pelos pares”, bem como a pretensa (e injustificada) “cientificidade” de seu trabalho, algo que, segundo tais ungidos, não seria compreendido pelo “senso comum” (pagador de impostos que subsidia tais barbáries). A orientadora do trabalho chega a afirmar que há uma “diferença essencial entre a Ciência e senso comum”, deixando clara sua crença na suposta “cientificidade” da pesquisa por ela orientada e seu desdém pelo “senso comum” (uma categoria epistemologicamente complexa e importante, aliás, como deixa claro Stephen Boulter em seu seminal estudo – “The Rediscovery of Common Sense Philosophy”).

Mas por que desqualificar arrogantemente o senso comum? Ora, porque qualquer sujeito sensato (dotado de ‘bom senso’, de um ‘senso comum’ – de uma ‘razoabilidade’) percebe que há algo de errado com as pesquisas e eventos que citei. Somente alguém entorpecido pelo ambiente letárgico de nossas prostituídas Universidades adere ao discurso dos ungidos. O senso comum se apercebe que há algo errado, que a Universidade deveria ser o espaço para o ensino “superior”. Não apenas isso, que a Universidade, dado estar direcionada originariamente à verdade, ao conhecimento, deveria ser um meio para avanços científicos, sociais, econômicos, humanos, etc.

No entanto, tal não é o que ocorre sobretudo em algumas áreas (nomeadamente nas ‘humanidades’), pois nossas Universidades foram prostituídas, vilipendiadas para que alguns satisfizessem suas perversões, o que explica a razão de formarmos, no ensino “superior”, apenas 22% de estudantes proficientemente alfabetizados (capazes de ler, compreender, calcular, etc, de forma excelente), bem como de produzirmos um altíssimo número de artigos ditos “científicos” e termos um baixíssimo impacto internacional (pois o critério de cientificidade é a vontade dos ungidos). Os dados são inquestionáveis e mostram que mudanças radicais são necessárias e urgentes em nossas Universidades, que elas precisam ser reabilitadas.

Enquanto elas estiverem sob o efeito de entorpecentes e continuarem sendo prostituídas para a satisfação de algumas mentes torpes, as quais hoje ocupam inclusive suas administrações, elas não serão um caminho para a prosperidade, mas para a miséria: miséria intelectual, moral, econômica, social, etc.

(Texto de Carlos Adriano Ferraz, graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito.)

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