Um dia de progressista... ou o ânus do meu progresso

Hoje eu acordei com vontade de progresso. É… Acordei assim, moderno, inteligente, descolado, engajado, e quando percebi já estava todo prosa querendo abrir as portas dos presídios, liberar caixa 2 de corrupção, fazer acordos com políticos e com a bandidagem, repassar dinheiro público para grupos populares e artistas que, assim como eu, também querem o progresso coletivo.

Acordei com vontade de nacionalizar as empresas opressoras imperialistas e devolvê-las ao povo trabalhador, fazer um McDonald’s popular em cada esquina, discursar contra o Guaidó em Caracas, fechar a fronteira para os traidores não saírem! Vontade doida de chutar o rabo amarelo do Trump e abraçar o cadáver santo do velho Fidel, impulso quase incontrolável de chamar quem me contesta de fascista ordinário, assassinar sua reputação, e depois vestir meu terno rosa para afirmar em rede nacional que o marxismo cultural é só teoria da conspiração, e o comunismo não existe mais.

Acordei bem disposto, culto, iluminado, cheio de amigos influentes, gritando aos quatro cantos com meu iPhone que precisamos mesmo desarmar a polícia e censurar as redes sociais, além de extirpar a classe média da face da Terra e culpar os empresários burgueses pelo caos.

Acordei louco para ver o progresso acontecer de vez na grande Pindorama indígena que os portugueses malvados tentaram destruir, ver cada raça original separada em pequenos blocos, gritando e declarando guerra umas às outras pela honra de seus ancestrais… Eu quero ver sangue e divisão nacional, meus caros, lógico, eu quero é progresso!

Hoje eu acordei doido para assistir ao apocalipse do mundo antigo, em tela 4K, comendo pipoca doce transgênica ao lado de Tabata, Soros e Alexandria, enquanto Israel desaparece do mapa livrando o mundo do terrorismo judeu!

Quero ver crianças aprendendo sexo, sim, desde sempre, desde o berço, até que sejam aceitas com normalidade na infância todas as formas de amor livre praticadas por um homem adulto.

Quero andar pelado no museu da vida ao lado da família tradicional brasileira, afrontar os crentes na marcha da miséria humana, ignorar a biologia e a ciência, lamber com inenarrável tesão os sonhos sintéticos fabricados por meus amados heróis.

Acordei assim… querendo mijar na cabeça de um amigo meu na frente de milhares de pessoas, depois enfiar dois dedos revolucionários na minha bunda, e ser amado pelos jornais ao afirmar que o que fiz foi apenas uma performance artística contra o governo e a opressão cristã imperialista ocidental.

Eu quero ver reconhecido o ânus guloso do meu progresso!! Quero que o valente juiz Gilmar prenda o “Bozonazi” o quanto antes e salve os pobres da opressão conservadora, quero que o Hamas exploda cada eleitor fascista, genocida e burro que ousou colocar a MINHA democracia em risco por causa de uma mísera mamadeira de piroca evangélica!

Quero ligar a TV e me esbaldar com os especialistas do progresso dizendo as verdades criadas que eu quero ouvir, as únicas verdades que eu aceito, aquelas que eu preciso para seguir existindo convicto em um mundo imaginário.

Hoje eu acordei assim, querendo o tal progresso revolucionário, lutando para construir um bloco de pensamento único, controlado e obediente aos novos objetivos que criamos. Querendo que você seja exatamente como nós, ou fique isolado do coletivo democrático e morra de fome e sede em profundo silêncio.

Ainda bem que amanhã é outro dia, meus amigos. Quem sabe eu ainda queira o progresso, sendo apenas um liberal como sempre fui, sem jamais me comportar como um psicopata inútil em sua fantasia de progressista.

(Ao som de Inútil, do Ultraje a Rigor)

Allan Pitz

Escritor

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