Olavo de Carvalho: astrólogo ou filósofo? (Veja o Vídeo)

Sempre que falo de Olavo de Carvalho, surge gente para dizer que ele é astrólogo, que acredita em terra plana, que é charlatão porque não tem diploma universitário. Afinal, o que tem de verdade ou de importante nisso? Algumas respostas são interessantes!

ASTROLOGIA - Primeiro, é importante avaliar se é pertinente chamar o sujeito de astrólogo por ele ter atuado dessa forma há 40 anos. Seria justo chamar as pessoas hoje pelo que elas foram há 40 anos? Não me parece.

Segundo, é interessante entender o porquê ele estudava astrologia, que até onde pude saber tem a ver não com a crença nos astros, mas com o interesse em compreender as ordens simbólicas que influenciam o pensamento humano, que por limitações metodológicas e até preconceito não fazem parte de investigações científicas.

Essa é uma discussão rica, pois o ser humano passou milênios dando sentido à vida a partir de uma visão religiosa, que em certo momento passou a ser confrontada por descobertas científicas que mostravam que a Terra era redonda e que não era o centro do universo; que o ser humano era um monte de átomos num planetinha perdido na infinitude do universo; entre outras.

O ponto chave é a desonestidade desse confronto, uma vez que a ciência estuda apenas recortes da realidade, de modo que não é errado dizer que o ser humano é um amontoado de átomos, mas é errado dizer que ele é só isso ou que isso prova que não somos dotados de alma ou que não fomos criados a imagem e semelhança de Deus. Nem mesmo a teoria da evolução prova que o mundo não é uma criação de vida.

A verdade é que a ciência nunca se propôs a provar ou refutar a existência de Deus. A ciência não tem essa condição. Ela ainda não explica nem mesmo o que é a mente, mesmo após avanço das neurociências. Mas grupos que disputam poder com a Igreja usam certas descobertas para confrontar o discurso religioso e reduzir a influência dela sobre as pessoas.

O resultado é que a noção de sentido da vida, desde então, vem sendo minada de forma nem sempre honesta, abrindo as portas para o relativismo moral, que é o tapete vermelho das engenharias sociais que tentam reinventar o ser humano, produzidas por quem pretende fazer o papel de Deus na história.

Estudar a forma como o cérebro percebe a realidade e confere sentido a ela passa por compreender qual é o peso da percepção simbólica e da compreensão racional. É aí que os estudos sobre astrologia podem colaborar e produzir insights para alimentar a discussão filosófica. É daí que surge o papo de Terra Plana, que alguns idiotas adoram papagaiar.

TERRA PLANA - Sabemos, a parir de uma informação de ordem racional, que a Terra é redonda, mas o fato é que não a percebemos sensivelmente dessa forma. Como somos muito pequenos em relação a ela, nosso cérebro se orienta a partir de referências planas. A ciência aceita isso, tanto que na física mecânica os estudos iniciais partem de planos, e na geografia estudamos planícies e planaltos, não redondícies e redondaltos. A curvatura só faz diferença em maiores escalas. Então, discutir sobre como o cérebro percebe o mundo é muito diferente de acreditar que em Terra Plana. Parem de ser uns papagaios de merda.

FILÓSOFO - Para começar, não existe faculdade para formar filósofos. Faculdades formam bacharéis e licenciados, uma espécie de técnicos habilitados para trabalhar com filosofia. São peões intelectuais, se comparados a filósofos de grande estatura. Basta ver que há dezenas de cursos de filosofia no Brasil e não saiu deles quase nenhuma produção filosófica relevante até hoje. Quem, no Brasil, já produziu algo perto do que fez Mario Ferreira dos Santos? Muitos diplomadinhos orgulhosinhos nem sequer ouviram falar dele.

A obra de Olavo, além de vasta em suas dezenas de livros e centenas de aulas, teve efeito prático. Sua filosofia política produzida nos anos 90 teve papel fundamental na quebra da vitoriosa estratégia dos grupos esquerdistas que dominaram a mídia e as universidades nas últimas décadas, abrindo espaço para ressurgimento do pensamento conservador, que estava morto Brasil desde os anos 60 e 70, quando seus últimos representares se foram.

Ninguém é obrigado a reconhecer Olavo como filósofo, nem ele clama por isso, mas o fato é que ele é reconhecido dessa forma por figuras gabaritadas como Miguel Reale, por exemplo, no Brasil, e Alexander Dugin, na Rússia, com quem travou um debate memorável que deu origem a um livro.

O que muita gente tem dificuldade para entender é que a obra do Olavo não é linear. Ela tem características circulares, retornando aos mesmos temas para aprimorá-los. Normal, ele está vivo. Provavelmente, só depois de morto é que seus alunos começarão a extrair as sínteses que poderão ser chamadas de filosofia de Olavo de Carvalho.

Como ele ainda é vivo (e espero que permaneça com saúde por muito tempo), não dá para saber qual estatura ele alcançará na História, mas creio que, no futuro, daqui 50, 100, 200 anos, quem quiser compreender o que aconteceu no Brasil nos tempos atuais será beneficiado se puder ler a obra dele, que faz uma interpretação de Brasil digna de repousar ao lado dos grandes. Afinal, grandes interpretes do Brasil são grandes mesmo quando discordamos da visão de mundo deles.

Ainda assim, há quem só reconheça como filósofos pessoas diplomadas como Marcia Tiburi, por exemplo. Será que ela será lida daqui a 100 anos? Será que, no futuro, alguém na dúvida entre dar ou não dar o brioco vai lê-la para filosofar sobre a laicidade anal? Dificilmente.

Então, queridos, diploma pode ser legal e importante em certas situações, mas na prática é um papel grosso que não serve para nada. O que importa é que você sabe, e para saber nem sempre é preciso estar vinculado ao ensino formal tutelado pelo Estado.

Na verdade, em muitos casos o ensino formal mais atrapalha do que ajuda, pois virou um negócio, tanto para o mercado quanto para o Estado que decide o que as pessoas devem ou não aprender. Estão aí os milhares de diplomados jogados no mercado todos os anos e que não sabem fazer uma soma ou subtração de cabeça, não sabem a diferença entre afirmação e argumento, entre debate e embate, entre fato e opinião, entre ciência e cientificismo. Resta a esses cérebros de ervilha concordarem com "especialistas" para se sentirem certos, já que não possuem capacidade de raciocinar e chegar a conclusões por meios próprios.

Beijos para quem teve paciência de ler até o fim. Quem discordar, ao menos tente fazer isso sem se tornar a prova do que eu disse no parágrafo acima.

Herbert Passos Neto

Jornalista. Analista e ativista político.

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