Sobre a memória ser preciosa... E como surgiu o império de algumas seguradoras do Brasil

Há exatos 30 anos, o cidadão brasileiro chocava-se com o efeito devastador da inflação do Governo José Sarney no valor dos seguros, causando imensa apreensão entre os segurados e gerando fortunas incalculáveis para alguns poucos às custas de dinheiro público.

Vamos recordar?

Quem tivesse, por exemplo, adquirido seguro para seu Volkswagen Voyage 1988, teria estipulado em Cz$ 8.000.000,00 (oito milhões de Cruzados) o valor de seu veículo, que seriam convertidos em NCz$ 8.000,00 (oito mil Cruzados Novos) no início do ano seguinte.

Entretanto, em 1989 o valor de mercado desse carro saltou para Cz$ 15.000.000,00 (quinze milhões de Cruzados), transformados em NCz$ 15.000,00 (quinze mil Cruzados Novos).

Em geral, para economizar, o consumidor raramente fazia um seguro veicular atrelado ao valor de mercado, apesar das recomendações. Isso exigia reajuste constante das mensalidades e quase ninguém aderia, preferindo o valor fixo.

As seguradoras, por sua vez, buscavam o então estatal Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) — privatizado em 2013 — e empenhava aquela apólice atrelada ao valor fixo em um resseguro indexado por valor de mercado.

Na transição entre os anos 1980 e 1990 houve a explosão de roubos de carros nas cidades brasileiras, principalmente nas capitais.

Resultado:

O cidadão que teve seu Voyage roubado, receberia o valor do seguro fixo, ou seja, NCz$ 8.000,00 (oito mil Cruzados Novos). Mas, a seguradora havia abocanhado NCz$ 15.000,00 (quinze mil Cruzados Novos) pelo resseguro no IRB indexado à variação do valor de mercado e então custeados por recursos do Tesouro Nacional (leia-se: os eternos cofres públicos dos pagadores de impostos).

Assim como havia essa matemática sórdida nos seguros de veículos, também havia para todos os demais bens móveis e imóveis passíveis de serem segurados em privado e ressegurados na "res pública".

Foi assim que surgiu o império de algumas seguradoras no Brasil e alguns dos multimilionários mais vistosos da época.

Ou vocês acham que foi Lula quem inventou a pólvora e Joesley quem produziu fogo pela primeira vez?

#MemóriaÉTudo

Helder Caldeira

Escritor, Colunista Político, Palestrante e Conferencista
*Autor dos livros “Águas Turvas” e “A 1ª Presidenta”, entre outras obras.

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