Erros crassos cometeram aqueles que votaram para que o COAF fosse retirado das mãos de Moro

Marcus Licinius Crassus ou Marco Licínio Crasso, membro do primeiro triunvirato romano ao lado de Pompeu e Júlio César, tornou-se historicamente conhecido, muito mais pelos seus erros, do que pelos seus acertos. Um deles, o maior de todos, cometido em de 53 a.C., na batalha de Carras, jamais será esquecido, na medida em que lhe custou a vida.

Marco Licínio Crasso tinha uma idéia fixa: conquistar os Partos, um povo persa cujo império ocupava, na época, grande parte do Oriente Médio, como Irã, Iraque, Armênia e outras regiões.

À frente de 7 legiões, o que contabiliza 50 mil soldados, Marco Licínio Crasso confiou demais na superioridade numérica de suas tropas e subestimou os Partos. Assim, abandonou as táticas militares romanas e tentou atacar, simplesmente, na ânsia de chegar logo ao inimigo, cortando caminho por um vale estreito, de pouca visibilidade. Eis que as saídas do vale, então, foram ocupadas pelos Partos e o exército romano foi dizimado. Tragicamente 50 mil romanos morreram, incluindo Marco Licínio Crasso.

Após tamanho erro estratégico, para simbolizar algo grosseiro ou medida drástica que custará a vida, cunhou-se a expressão histórica "erro crasso", em referência a Marco Licínio.

Mudando o que há de ser mudado de 59 a.C., para 2019 d.C., a cena política brasileira, infelizmente, revela e nos permite constatar com precisão, que muitos políticos e personalidades que dizem apoiar Bolsonaro e seu governo, a bem da verdade, "estão fazendo homenagens a Marco Licínio".

E muitas pessoas que apoiam Bolsonaro e seu governo estão se equivocando ao se deixar levar pelas explicações de quem usa as tribunas para sustentar algo, mas na prática, de forma incoerente, faz outra, não circunscrevendo na realidade, nem mesmo os próprios gestos que alardeou que iria fazer, em época de campanha.

Quem diz apoiar Bolsonaro e seu governo, mas na questão da votação do COAF votou para impedir a realocação deste para o Ministério da Justiça (em que Sérgio Moro é Ministro), o que implica em sua manutenção no Ministério da Economia (em que Paulo Guedes é Ministro) cometeu não apenas um, mas vários erros crassos.

Dentre as explicações criadas por quem votou nesse sentido, mesmo "sedizendo" apoiador de Bolsonaro ou de seu governo, um dos "argumentos" é dizer que tanto Sérgio Moro, quanto Paulo Guedes são qualificados para ter o COAF no Ministério que comandam.

Não se pode misturar as coisas e distorcer o foco de uma questão tão importante como esta. Isso é um sofisma, ou seja, a proposição de um argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa.

É fato inquestionável que tanto Sérgio Moro, quanto Paulo Guedes são qualificadíssimos.

Todavia, não é a capacitação de ambos que a questão da votação do COAF entretém.

Todos que acompanham a política, com lupa, sabem o que realmente estava nas linhas e nas entrelinhas da votação

Nas linhas constava que foi o próprio governo que pediu para que o COAF fosse para o Ministério da Justiça, o qual tem Sérgio Moro como Ministro. Ao passo que nas entrelinhas constava os anseios da esquerda e do "centrão", ou pelo insucesso da votação, ou por querer colher o produto da prática do fisiologismo, seja na ótica da esquerda, seja na ótica do "centrão", tensionando pela manutenção do COAF no Ministério da Economia.

Não bastasse Sérgio Moro ser um ícone de Lava-Jato, é fato que promoveu uma articulação imensa, com exposição descomunal, exatamente porque sabe que o COAF pode ser mais efetivo no Ministério da Justiça. Isso sem contar com imenso trânsito e respeito que Sérgio Moro possui de todo quadro de funcionários desse órgão.

Verdade seja dita, Paulo Guedes, saliento, neste particular, ainda não dispõe da mesma experiência que Sérgio Moro.

Até Paulo Guedes tomar pé do que pode fazer com COAF no Ministério da Economia e com a agenda invencível que tem como Ministro, já se passaram 4 anos e o governo já chegou ao fim.

A ida do COAF para o Ministério da Justiça significaria a possibilidade de se aumentar o espectro das atividades realizadas à época da Lava-Jato, agora sob a batuta de Sérgio Moro, com maior efetividade. Mais, fortaleceria Sérgio Moro, uma vez que este tem sido alvo, da esquerda e do "centrão", que insistem em tentar boicotar o pacote anticorrupção, destaco, de autoria do próprio Ministro.

Volto a dizer, não foi um erro, foram vários erros crassos votar pela permanência do COAF no Ministério da Economia.

Quem o fez, primeiramente, contribuiu imensamente, para desgastar, sem qualquer necessidade, no 5° mês de governo, a credibilidade do Ministro Sérgio Moro, perante a própria base governista e, para a felicidade da PaTota, perante a esquerda e o "centrão".

Após, este desgaste irá refletir, não tenham dívidas, diretamente, na votação do pacote anticorrupção, novamente, sob os aplausos da esquerda e do "centrão", os quais saíram visivelmente fortalecidos na votação da questão do COAF.

Há, inegavelmente, outros erros crassos, de parte que quem votou no sentido de manter o COAF no Ministério da Economia que serão sentidos diariamente. A iniciar pela leitura negativa e óbvia que o eleitor fará, de que ou votou com a esquerda ou que por esta foi cooptado, porque se decidiu fazer parte do "centrão", o qual atende a esquerda ou quem está no poder, historicamente, de forma subserviente e abjeta, utilizando o fisiologismo como uma de suas moedas de troca. Por último, é inconfundível que o eleitorado fará a leitura que quem votou nesse sentido foi desleal com Bolsonaro e seu governo, bem como desleal com os anseios e expectativas patrióticas da base eleitoral que o elegeu.

Desta forma, pertence ao óbvio ululante o fato que tanto a esquerda, quanto o "centrão", estão aplaudindo em pé este resultado da votação do COAF, porque sabem que as investigações que poderiam ser realizadas sob o comando efetivo de Sérgio Moro, ou não ocorrerão, ou irão demorar muito para ocorrer.

Quem é investigado, indiciado ou réu adora a demora como ninguém, haja vista que o passar do tempo sempre favorece a prescrição de ilegalidades que se quer apurar, impedindo a aplicação de sanções ou penalidades.

Na mesma cesta de erros crassos dos que votaram pela manutenção do COAF no Ministério da Econômica há de se incluir todos os partidos e movimentos, bem como políticos e personalidades que não demonstraram apoio expresso à manifestação de amanhã, dia 26 de maio de 2019, a qual foi convocada pelo próprio Presidente Jair Messias Bolsonaro.

Ninguém aguenta mais a "posição" dos isentões que têm apreço por "ficar em cima do muro" aguardando a vinda de um Brasil melhor, mas "dando como exemplo" a apatia, ou a omissão, ou a indiferença.

Nada é tão ensurdecedor do que a voz da covardia, a qual atende pelo nome da conivência.

Erros crassos não se cometem, nem se esquecem jamais.

Pedro Lagomarcino

Advogado em Porto Alegre (RS)

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