Universidade estatal: propriedade privada da esquerda para a ‘reeducação” socialista

Em recente (13/06) nota do Conselho Coordenador do Ensino, da Pesquisa e da Extensão da Universidade Federal de Pelotas/UFPEL lemos:

“Considerando o compromisso social, cultural e econômico da UFPel com a comunidade de Pelotas e da Região Sul e a importância dos investimentos em educação para o desenvolvimento do país (...) Defendemos o ensino público, gratuito e de qualidade e que são estes valores que o fazem socialmente referenciado como o grande suporte das mudanças sociais (...) indicamos que as atividades acadêmicas da UFPel no dia 14 de junho sejam desenvolvidas na rua, em defesa das Instituições de Ensino Superior e da Universidade pública, gratuita e de qualidade e a favor da garantia dos direitos já conquistados pelos trabalhadores e estudantes”

Ou seja: nessa nota oficial alguns dos principais mantras da esquerda estão ali para promover a “reeducação” de nossos estudantes: “compromisso social”, “mais investimentos em educação”, “ensino público e gratuito”, etc. Não apenas isso, há a “indicação” de que as atividades do dia 14/06 sejam realizadas “na rua”. São todas frases de efeito emotivo, mas assignificativas, vazias, cujo propósito é o de ter apenas um impacto retórico, especialmente o de mostrar nossa “elite” universitária, os “intelectuais ungidos”, como seres intelectual e moralmente superiores. Não apenas moralmente superiores (dado estarem preocupados com o “compromisso social” e um acesso universal ao ensino “superior”), mas intelectualmente superiores. Afinal, se eles, “intelectuais ungidos”, dizem, por exemplo, que o ensino superior é “gratuito”, então os dados (que mostram o quão caro custa esse ensino para os pagadores de impostos) devem ser irreais, certo? O orçamento de 800 milhões da UFPEL, por exemplo, seria, então, apenas uma “realidade virtual”, sem custo algum para os pagadores de impostos, não é mesmo? Talvez esse dinheiro seja simplesmente cultivado em seus Campi

Não obstante, o que realmente temos, aqui, é a manifestação de um típico discurso proselitista com motivações e propósitos políticos, como fica claro na imagem cujo link segue abaixo (nela o reitor da UFPEL se reúne com políticos – especialmente do PSOL – e demais representantes de partidos de esquerda para ouvir suas pautas, o que nos leva a uma pergunta inevitável: estarão tais partidos e seus representantes causando alguma influência sobre a gestão da UFPEL, tal como ocorre com outras universidades? A resposta parece evidente, não?; especialmente quando vemos manifestações oficiais que curiosamente “coincidem” com as bandeiras de tais partidos.

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DOS DANOS E DOS CUSTOS DAS IDEIAS DE NOSSOS “INTELECTUAIS UNGIDOS”

Diferentemente dos ‘campos de reeducação’ que a China vem usando para reeducar os muçulmanos uigures que vivem na região autônoma de Xinjiang (noroeste da China), ou, mesmo, da “reeducação pelo trabalho” utilizada também na China (de 1957 a 2013), bem como dos demais campos de reeducação utilizados em outros sistemas comunistas (Coreia do Norte, Vietnam, Romênia, etc), nas democracias ocidentais o sistema educacional como um todo se transformou em um imenso ‘campo de reeducação’ socialista. Mas de uma “reeducação pela doutrinação”. Portanto, mais sutil e, por muito tempo (afinal, hoje ela vem sendo reiteradamente denunciada, como, por exemplo, pelo controverso projeto ‘Escola sem Partido’), subliminar (não à toa ela já ocorria durante o regime militar). Não obstante, apesar de estar atualmente sob suspeita e escrutínio, ela tem sido, ainda, assustadoramente mais eficiente do que as estratégias dos sistemas acima referidos: Ela tem logrado fazer com que diversos jovens estudantes rejeitem as causas de sua própria prosperidade e bem estar.

Dessa forma, em democracias constitucionais como a brasileira essa reeducação toma como ponto de partida um propósito aparentemente “bom”, qual seja, o desígnio transformador. Como nos diz o patrono de nosso fracasso educacional: “a transformação da educação não pode antecipar-se à transformação da sociedade, mas esta transformação necessita da educação”. Mas, antes de qualquer consideração, nos perguntemos: Qual a razão de a ideia de “transformação” ser tão atraente?

Creio que podemos responder a essa pergunta da seguinte maneira, a partir de uma constatação indisputável: Não vivemos em Utopia! Vivemos no mundo real, com seus problemas, muitos dos quais insolúveis. Por exemplo, a pobreza. Mas a pobreza é uma categoria relativa. Mesmo em sociedades ricas há pessoas vivendo em condições hoje definidas como de pobreza. Mas o ponto que cabe enfatizar é que essas pessoas estão, hoje, em melhores condições materiais (e, mesmo, “espirituais”) do que nobres que viviam em séculos passados: atualmente mesmo os pobres (principalmente em democracias constitucionais liberais) têm acesso a vacinas, à medicina em geral, a alimentos variados (e saudáveis), a tratamento dentário, a diversos confortos da vida moderna (celulares, carros, televisores, dentre muitíssimos outros), etc. Certamente seu acesso a esses bens é mais restrito do que eles o são para os ricos de hoje. Mas o ponto é que, ainda que pobres pelos padrões atuais (e, claro, comparativamente aos ricos de hoje), elas estão em melhores condições do que ricos do passado. Por exemplo, poucas são as pessoas que ainda hoje mantêm um penico com fezes e urina sob a cama; hoje poucas são as pessoas que raramente tomam banho e que, quando o fazem, se servem da mesma água usada pelos demais; ter dentes estragados não é mais o padrão; não mais usamos folhas de plantas ao invés de papel higiênico; mulheres não precisam usar musgos como absorventes; se hoje alguns reclamam da medicina, lembrem que no passado a “sangria” era altamente praticada: a parte do corpo enferma era cortada para sangrar por um tempo. Com efeito, esses poucos exemplos apontam para condições que eram comuns em séculos passados, as quais são, hoje, incomuns (mesmo entre os pobres). São casos que já não constituem a regra, especialmente em sociedades liberais (observem que tais casos retornam mormente em países que adotam o socialismo – a planificação econômica -, como na Venezuela recentemente, a qual imergiu na barbárie a partir da adoção de princípios socialistas e da rejeição dos valores e instituições que asseguraram o progresso do ocidente, como propriedade privada, liberdade e economia de mercado).

Mas, em suma, sempre haverá pobreza no mundo. No entanto, devemos reconhecer sua relatividade. Não apenas isso, devemos reconhecer que há culturas, valores, instituições, etc, melhores: são justamente as que nos retiraram daquelas condições miseráveis que vigiam no passado.

Mas a questão é que, dada a inevitabilidade da pobreza (e do sofrimento em geral), as ideias “transformadoras” (“progressistas”) ganham força, pois elas apontam justamente para a pobreza, para o sofrimento, para as desigualdades, etc, e propõem que “transformemos” essa realidade pobre, sofrida e desigual. Propõem a eliminação da pobreza, o fim das diferenças de classe, etc. Ou seja: oferecem algo irreal e irrealizável. Eis seu encanto. Mas seu atrativo é justamente a razão de sua impossibilidade e fracasso. Elas nos prometem Utopia: “lugar que não existe”. E quando as pessoas querem o impossível, elas aceitam as mentiras. Em verdade, quem quer o impossível apenas se contenta com mentiras: não aceita a verdade.

Em virtude disso certas ideias se arraigaram parasitariamente em nosso sistema educacional como um todo, tendo sido engendradas especialmente em nossas Universidades, mais especificamente nas ‘humanidades’ (se espraiando pelos outros Campi e, especialmente, pela administração universitária, que as tenta impor às demais áreas). Por essa razão, por décadas nossas Universidades têm sido campos de reeducação (para a aceitação de ideias antiocidentais, antiliberais, etc). E isso mesmo em países fortemente liberais como os USA, o que é revelado por uma pesquisa de Mitchell Langbert (“Homogeneous: The Political Affiliations of Elite Liberal Arts College Faculty”) publicada em Abril/2018, na qual ele revela que a maioria (em alguns casos a totalidade) dos professores nas ‘humanidades’ das principais Universidades dos USA são Democratas (de esquerda, pois), simpáticos a ideias socialistas. Aliás, em 39% dos departamentos de ‘humanidades’ das Universidades pesquisadas simplesmente não havia Republicano algum em seus quadros docentes (tais departamentos eram, segundo o autor da pesquisa, “Republican free”). Nos outros 61% o número de Republicanos estava pouco acima de zero, de tal forma que “78.2% dos departamentos acadêmicos (...) tinham ou zero ou tão poucos que não fazia diferença alguma”. Os efeitos dessa hegemonia são mensuráveis na formação dos estudantes. A economista Amy Liu (Brookings Institution) entrevistou estudantes de 148 Universidades estadunidenses e descobriu que a chance de formandos se declararem de esquerda é 32% maior do que a dos calouros. Ou seja, bastam alguns anos em um campo de reeducação socialista para que um estudante mediano se “converta” a ideias socialistas e comece a rejeitar as causas de sua riqueza e prosperidade (e a razão mesma de ele estar em uma Universidade). Não apenas isso, em pouco tempo ele estará defendendo as notórias pautas da esquerda, como aborto, ambientalismo, intervenção na economia, fim da liberdade religiosa, “multiculturalismo”, relativismo, niilismo, absoluta permissividade sexual, ações afirmativas (cotas, por exemplo), taxação sobre heranças e riquezas, banheiros transgêneros, acesso irrestrito (e “gratuito”) à Universidade, etc. Sem falar no autovandalismo perpetrado especialmente por alunos nas ‘humanidades’, que muitas vezes se assemelham mais a figurantes de algum filme da franquia Mad Max (ou de séries como Z Nation) do que a sujeitos civilizados, os quais transformam nossos Campi em cenários deprimentes, degradantes e desumanos.

Outro exemplo: No Brasil, pesquisa realizada nas bibliotecas das Universidades USP, UFRJ, UNICAMP, UNESP, UFMG, revelou o total desequilíbrio entre livros ‘liberais’/‘conservadores’ e livros de esquerda. A proporção, no quadro geral, é de quase 5 livros de esquerda para 1 de direita (liberais e conservadores). Há casos estarrecedores. Por exemplo, “nas bibliotecas da UNICAMP (...) há 1684 obras de Marx, Lênin, Gramsci, Sartre e Paulo Freire, e só 123 de Adam Smith, Edmund Burke, Ludwig Von Mises, Roger Scruton e Thomas Sowell”.

Essas pesquisas mostram, com dados, o que já sabíamos por experiência: Desde as ‘humanidades’ nossas Universidades se transformaram em campos de reeducação socialista. A homogeneidade nas aulas, nos cursos, nas palestras, nos eventos, nas dissertações e teses, etc, concebidas nas ‘humanidades’ e alastradas para todo o corpus universitarium, se retroalimenta: criamos em nossas Universidades um círculo vicioso do qual é, hoje, difícil sair. Nesse momento, por exemplo, em virtude do contingenciamento nos gastos com as universidades estatais, estamos assistindo a uma reação truculenta da esquerda nas Universidades, e isso a partir de seus gestores, dos sindicatos, dos diretórios acadêmicos, professores, etc. Antes mesmo do início da futura administração eles já se pronunciavam, aliás, como “resistência”. Na verdade, durante o pleito já haviam se declarado a favor dos partidos de esquerda que então disputavam a eleição, instrumentalizando as Universidades em defesa de uma agenda esquerdista contra um candidato que notoriamente se opunha a esse programa. Ou seja: os mesmos que defendem a Universidade “pública” agem como se fossem seus donos.

Na verdade, uma rápida visita aos seus sites, jornais, etc, revelará manifestamente que a Universidade é uma espécie de domínio autossustentável: Ela tem “dono”. E são seus “donos”, dissimulada e contraditoriamente, aqueles que cinicamente defendem seu caráter “público”. Mas além de ter “dono” ela é autossustentável na medida em que não precisa de algo que lhe seja externo (a não ser, é claro, do dinheiro dos pagadores de impostos). A Universidade engendra sua própria realidade, uma realidade paralela. Isso explica a razão de nela termos a defesa de ideias indefensáveis e totalmente desvinculadas dos fatos e, mesmo, do bom senso e das demandas da sociedade civil. Há, na Universidade, não apenas evasão de alunos: Há uma evasão da realidade.

Com efeito, a reeducação passa, então, pelo neófito iniciado na Universidade aprender todo o credo esquerdista e seus “dogmas” e “mandamentos”. Sua reeducação envolve a rejeição dos pilares civilizacionais, como as já referidas ideias de propriedade privada e economia de mercado. E não deixa de ser irônico os ver falar (ao criticarem o avanço das ideias liberais e conservadoras) do “avanço do obscurantismo” quando, em verdade, eles são justamente aqueles que desejam nos reconduzir à barbárie mediante o colapso dos pilares da civilização ocidental. Basta observarmos que, sempre que implementadas, suas ideias são causa de miséria e dos mais diversos flagelos sociais.

E ainda assim eles seguem reeducando os estudantes nas Universidades, defendendo, por exemplo, uma planificação e intervenção na economia, um sistema de cotas, uma separação radical entre Universidade e mercado, uma Universidade aberta a todos (independentemente das qualificações cognitivas do sujeito), o “multiculturalismo” (nobilitando, por exemplo, povos primitivos), o vitimismo, bem como demonizando a economia de mercado (que eles denominam, evocando uma figura fantasma, de “neoliberalismo”), a propriedade privada, o empreendedorismo, etc. Ou seja: a reeducação socialista significa, sim, uma “transformação”. Mas aqui transformação exprime não prosperidade, mas degradação.

Por fim, se o plano desse processo de reeducação socialista envolvesse ideias não apenas estúpidas, mas divertidas e pueris, seu dano seria provavelmente menor, como ocorre com teorias tolas tais as da terra plana, da terra oca, bem como com as teses conspiratórias sobre os “Illuminati” e tantas outras tolices (às vezes usadas inclusive para se referir a uma suposta conspiração liberal nas Universidades, por exemplo). Essas são apenas espetáculo circense. As ideias que nossos estudantes aprendem em sua reeducação socialista em nossas Universidades, em contrapartida, não são apenas estúpidas e circenses: São nefastas e têm consequências desastrosas.

(Texto de Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito).

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