Rebeldia, resistência e fofocas

Durante a ditadura militar uma música ficou famosa e tornou-se um ícone da resistência política brasileira. Refiro-me à bela e emocionante canção “Prá não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré. Preterida em um Festival Popular de Canção, foi mais importante e aclamada que a música vencedora do concurso. Era um libelo contra o militarismo numa época em que a ditadura se encontrava no auge. Os brasileiros, em especial os jovens estudantes e intelectuais, usaram-na como um hino de combate pacifista à ditadura e o seu infeliz compositor foi perseguido e exilado. 
Hoje, aquela geração que viveu os “tempos de chumbo” ainda canta, mesmo baixinho, a velha canção de conotação política. Em um documentário divulgado pela televisão, alguns anos atrás, Vandré encarregou-se de desfazer o mito dessas gerações. Longe da imaginação revolucionária, Vandré foi apenas um jovem cantor e compositor, que não queria fazer política e que estava no lugar certo, mas na hora errada. Mesmo assim “Pra não dizer que não falei de flores” continua sendo, apesar da recusa do seu autor, o hino que embalou os meus sonhos revolucionários.
Li, não faz muito tempo, o instigante e desafiador livro de Marcos Estevão dos Santos Moura, intitulado “A caserna em versos e rimas e um pouco de prosa”. Médico da reserva remunerada do exército, Moura corajosamente colocou em suas poesias as agruras do dia a dia na caserna, onde muitos como ele sofreram perseguições pela insensibilidade hierárquica de seus superiores. É um livro que deve ser lido e refletido. Bons tempos os nosso de hoje, quando apesar de tudo que se pode escrever sobre um assunto tão delicado, sem sofrer retaliações.
O mesmo parece não ter acontecido em outro hemisfério, numa pátria que dizem que luta pela liberdade (será?), com o jovem analista de inteligência do exército norte-americano, Bradley Manning. Simplesmente, não sei sob qual motivação, este militar copiou centenas de milhares de documentos secretos armazenados nas redes do Pentágono. Contém segredos da diplomacia, relatos militares da ação norte-americana no Afeganistão e no Iraque, além de um explosivo vídeo de um helicóptero metralhando civis. Não deu outra. Foi em cana e não sei o seu destino, podendo pegar segundo leis militares até prisão perpétua. 
Com o mundo globalizado, onde qualquer um tem acesso à internet, esta bomba explodiu no colo do governo norte-americano, pois toda a documentação foi disponibilizada no site da organização não governamental WikiLeaks. Foram divulgados mais de 250 mil telegramas diplomáticos secretos, enviados por embaixadas americanas ao redor do mundo. Por incrível que pareça, esta rede de informações dos diplomatas parece muito mais uma central de fofocas, na base do “ouvi dizer”. Como pode uma das maiores potências mundiais ter uma diplomacia tão medíocre e moldada por espionagem em países amigos? Tal lambança criou crises diplomáticas e, no mínimo, um constrangimento para o governo Obama.
Até o Brasil entrou nesse embrulho com os diplomatas americanos que, sem pudor, registraram conversas particulares com autoridades brasileiras e emitiram impressões de atitudes governamentais. Tudo isso também foi divulgado no WikiLeaks. O primeiro a ficar na alça de mira na época foi o espalhafatoso o então ministro da defesa do governo Lula, Nelson Jobim, que fez confidências ao embaixador norte-americano. Ontem como hoje, Jobim falava demais.  Agora sabe-se que Jobim falou, talvez para contar vantagem, até sobre um possível tumor na cabeça do presidente Evo Morales, entre outras infelizes confidências.
Penso que vivemos a globalização da fofoca, com tantas ferramentas disponíveis como o facebook, só para citar um exemplo. Não há hoje forma mais rápida e eficiente de espalhar notícias suspeitas e fabricadas, os factóides, que visam atingir pessoas e instituições de forma irresponsável, com fins inconfessáveis. O risco maior nisso tudo é o uso político de falsas informações, cujo caso clássico na política internacional foram as supostas armas escondidas do Sadan Hussein.
Todo mundo sabe como isso pode acabar.
Valmir Batista Corrêa


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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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