A palavra de um procurador da Lava Jato: "Maia e as lágrimas de crocodilo"

Dizem que o crocodilo chora ao abocanhar sua vítima num bote certeiro. Lágrimas lhe escorrem enquanto a esmigalha, tritura e a engole satisfeito.

Ao ver Rodrigo Maia chorando ao fazer a defesa do Centrão e, especialmente, de sua presidência na Câmara dos Deputados, logo após a aprovação do texto-base da reforma da Previdência, me deixou a mesma impressão.

Estava ali não alguém emocionado por ter feito algo bom para o País, mas um político exultante com o recado dado às elites do País: nós, da velha política, somos quem realmente têm poder para aprovar o que vocês precisam, desde que por um módico preço.

O recado foi certeiro, vejam que suas palavras não se dirigiram àqueles que vão pagar a conta da reforma, os trabalhadores, mas exclusivamente para a elite econômica e seus interesses, com a esperança de que esta lhes apoie na luta contra a mudança dessa forma de fazer política, ou seja, contra o que a Lava Jato representa.

Reforçando esse recado, certamente entre as mesmas falsas lágrimas, esse mesmo Centrão, que Maia finge ser uma instituição séria e inatacável, já mandou uma fatura prévia ao governo Bolsonaro na exigência de liberação de verbas para votar a reforma.

Liberar emendas previstas no orçamento para aprovar projetos não é tão imoral – ou criminoso – quanto distribuir cargos para que políticos e partidos possam roubar, como aconteceu nos governos anteriores, mas já mostra que Maia e o Centrão só pensam realmente na sua sobrevivência política, que também passa por fartos recursos públicos para suas pretensões eleitorais, e nunca no interesse geral do País.

Isso fica ainda mais evidente ao se perceber que logo após decidirem contra a aposentadoria especial de professores – e se há uma categoria que merece essa proteção é a dos professores – Maia e o Centrão passaram abertamente a defender um fundão eleitoral de 3,7 bilhões de reais para as próximas eleições.

O que fazem, portanto, é o que sempre fizeram, tirar da população parte de seus direitos para repassar parcela dos recursos públicos economizados para suas campanhas eleitorais caríssimas, seu estilo de vida pródigo e seus interesses privados e inconfessáveis.

Não se está aqui a dizer que a reforma da Previdência não é necessária, muito pelo contrário. A mudança no perfil demográfico e no mercado de trabalho impõe uma revisão dessas regras.

O que se quer enfatizar é que a condução dessa reforma pela Câmara dos Deputados esconde discussões necessárias e sérias, seriedade que sempre afugenta políticos.

Um exemplo disso é a falsa promessa que o Estado faz aos segurados. Não há qualquer estabilidade de longo prazo nas regras previdenciárias aprovadas nos últimos 20 anos, causando a cada reforma a sensação aos trabalhadores de que seus direitos, que na reforma anterior eram dados como certos, foram tungados pelo governo.

E essa reforma não é diferente, pois o mecanismo de correção automático da idade mínima foi retirado pelos deputados, o que tornará necessária outra reforma previdenciária daqui a 10 anos.

Mas essa retirada é útil para essa classe política, que derrama lágrimas de felicidade já antevendo novas chantagens contra o governo por ocasião dessa futura nova reforma.

Se há um ponto que Maia está certo e o de que nenhum investidor sério investirá em um país sem instituições e um regime democrático verdadeiro.

Somente esqueceu de dizer que nenhuma democracia é séria e estável quando comandada por uma classe política parasitária, completamente dissociada do interesse público. E foi exatamente essa classe política exaltada por Maia em seu discurso.

Pobre Brasil!

(Texto de Carlos Fernando dos Santos Lima. Procurador do Ministério Público Federal aposentado. ex-decano da Operação Lava Jato)

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