Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Corumbá e sua riqueza mineral: só por Deus

Tenho acompanhado com muita tristeza a tragédia ocorrida no coração do estado de Minas Gerais com o rompimento das barragens de contenção de rejeitos resultantes da lavagem de minérios. O mar de lama, que trouxe miséria, morte de seus habitantes e animais, deverá chegar ao litoral brasileiro. O prejuízo é incalculável e a morte de uma natureza maravilhosa é irreversível. Os jornais dizem que a empresa poluidora repassará para o governo 1 bilhão de reais como compensação imediata, que penso ser uma ínfima parte do prejuízo provocado na natureza e no patrimônio público e privado dos moradores.  Tudo isso serve de alerta.
Corumbá, a eterna Cidade Branca, sofre os mesmos riscos com as manchas de poluição provocadas pela lavagem de minério extraídos sem dó da sua morraria. Quais são as medidas para proteger a população local e o Pantanal do perigo de vazamento dos tanques de rejeitos? 
Na década de oitenta do século passado, como vereador fiz denúncias sobre vazamentos que poluíam os belos córregos que circundavam a rica morraria. Além de minérios de ferro e manganês, não posso deixar de alertar a existência na morraria, do lado da região do Jacadigo, de uma fabulosa mina de calcita ótica, alvo da ganância de empresários, explorada sem quaisquer benefícios a Corumbá. Ressalto que existem apenas duas minas deste minério no mundo. Na época, como vereador fiz denúncias sobre esta exploração e recebi ameaças de um general, vindo à cidade especialmente para tratar o assunto em minha casa.
Essa história de exploração irresponsável e predatória é bem antiga. Quando os pioneiros encontraram um local, em fins do século XVIII, na margem direita do rio Paraguai,  sítio estratégico e, segundo documentos antigos, “aprazível”, logo perceberam que o seu solo não era viável para a agricultura. Tanto que desceram o rio rumo a uma região próxima e favorável à implantação de uma lavoura de subsistência. Era o começo da histórica Corumbá. 
Esses pioneiros não tinham a real dimensão da riqueza em que estava assentada a futura povoação. Viram, de início, o extenso solo calcário que até hoje é explorado e que parece não acabar nunca. Um exemplo é a existência de uma fábrica de cimentos que há décadas vem explorando o rico solo corumbaense.  Porém, esta exploração começou muito antes. Em 1782, saiu do porto de Corumbá uma primeira partida de pedras de calcário, subindo o rio Paraguai, chegando até o rio Jaurú e dali demandando o rio Guaporé. Eram pedras necessárias à construção do Forte Príncipe da Beira. Parece loucura dos súditos portugueses da época colonial, mas foi assim que se construiu boa parte dos edifícios da capitania de Mato Grosso. 
Bem mais tarde, no período pós Revolução Industrial, políticas imperialistas representadas por empresários estrangeiros passaram a focar as riquezas minerais de Corumbá. Primeiro foi a criação da “Compagnie  des Produits Cibils”, empresa de capital belga que teve como maior acionista o uruguaio Jaime Cibils Buxareo. Nesse momento, entretanto, estavam os empresários belgas mais interessados na fazenda Descalvados, ao norte de Corumbá, para a criação de gado bovino e exportação de seus produtos. Em 1906 foi criada a “Compagnie de l’Urucum”, também de capital belga, comprando concessões para a exploração de minérios na região corumbaense. Mas, uma série de obstáculos desestimulou essa experiência, restando a Corumbá grandes fendas abertas e abandonadas no seu belo maciço do Urucum. Mas a exploração de minérios de ferro e manganês continuou, como um destino cruel, sem benefícios para a cidade. Alegava-se sempre que as empresas abriam muitas vagas de trabalho, mas aos corumbaenses só restavam mesmo as funções desqualificados, com salários de miséria e péssimas condições de trabalho. Cargos de alta responsabilidade para os locais e transferência de tecnologia, nem pensar. 
Em 1953, no governo Fernando Corrêa da Costa, foi assinado um contrato de arrendamento dos direitos de lavra, exploração e venda de minério das jazidas de ferro e manganês de Corumbá com o grupo Sobramil, que deveria durar até 1990, novamente sem reais benefícios para a cidade e para o estado. Em 1974, em atitude corajosa, o governador José Fragelli tornou nulo esse decreto leonino. No ano seguinte, o mesmo Fragelli criou a Metamat – Cia. Matogrossense de Mineração que ficou com a maioria das ações, com objetivos de promover a exploração dessas jazidas de ferro e manganês do Morro do Urucum, provocando a abertura de extensas galerias que continuavam a sangrar o interior do belo maciço. 
Na década de 90, as minas do Urucum também não escaparam da onda de privatizações pregadas pela política neoliberal. Hoje, várias concessionárias, ao sabor do vento, continuam a explorar o rico minério corumbaense, muitas já falidas, sem contar a atuação da Companhia Vale (antiga Vale do Rio Doce) que, em detrimento dos interesses brasileiros, também controla a maioria das riquezas minerais do país. Ninguém nunca mencionou uma questão que hoje é tão clamorosa: se essa larga produção de minérios de Corumbá respeita o meio ambiente ou investe em segurança no controle de seus dejetos.....Só por Deus.
Em Corumbá, no entanto, a história continua a mesma, assim como ainda é o mesmo o apetite guloso de empresas com capitais nacionais e estrangeiros nas minas de ferro e manganês da região. A ONG Wikileaks, aquela mesma que vazou correspondências sigilosas das embaixadas norte-americanas colocando a nu a mediocridade e as ambições absurdas da diplomacia ianque, mostrou a importância estratégica das minas do Urucum. Para os EUA, esta riqueza é, e continua sendo considerada de grande importância para a sobrevivência de seu parque industrial. Assim, o risco de Corumbá continuar a “ver navios” não é improvável. E além disso, poderá ser num mar de lama.
Que Deus tenha piedade da cidade branca...
Valmir Batista Corrêa

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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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