Jorge Hori

Articulista

Mariana, realidade e versão, as verdades que a grande mídia não mostra

A realidade não é mostrada como ela é. Os meios de comunicação sempre a mostram segundo uma versão  plausível. Versão mais aceita, versão que a maioria quer acreditar seja a verdadeira. 
A ruptura de uma barragem com bilhões de m3 de água, misturada com terra e rejeitos da mineração de ferro, destruiu inteiramente um pequeno povoado, deixando mortos e desaparecidos. 
A torrente de água seguiu seu curso natural de destruição, assoreando os corpos d'água aos quais se juntou e derrubando terras às suas margens, formando uma camada lamaçenta que agora chega ao mar. 
A versão que está nas manchetes é "lama de Mariana chega ao mar". 
Muito pouco da lama de Mariana conseguiu viajar tanto. A sua água sim. A lama de Mariana foi ficando pelo caminho, assoreando os rios. A maior parte da lama que chega ao mar é da erosão das margens, ao longo do percurso da enxurrada de água. Erosão facilitada pelo desmatamento feito nas bordas. Acabaram com as matas ciliares.  
Essa água barrenta não "matou o Rio Doce", embora tenha causado grande destruição. Peixes menos resistentes morreram, mas os mais resistentes não emergiram. Isso será notícia, ainda que restrita, mais adiante, como milagre da natureza. Nem uma coisa, nem outra. Fenômenos naturais. Agora notícias é a suposta morte do Rio Doce. 
Em termos comparativos, o Rio Doce está na UTI (ou CTI), mas vai sobreviver. E ainda vai causar muitos estragos, por ação da natureza. 
As chuvas de verão vão remover parte da lama ora depositada e que chegará ao mar. Mais diluida, mas provavelmente em quantidades maiores do que agora. 
Mas sem a carga emotiva que cerca o desastre atual. 
A realidade é que não foi a lama de Mariana que chegou ao mar. Foi a lama de todo o Vale do Rio Doce, devastado pelo desmatamento. 
Outra versão alarmista é com relação aos peixes. Uma grande parte da fauna aquática é de peixes exóticos, ou sejam, não naturais do rio, mas trazidos e cultivados segundo programas de repovoamento do rio, promovido pela Vale e outras empresas. Um programa contestado pelos seus efeitos na fauna natural. O que não foi dito é se a maioria dos peixes que apareceram mortos é exótica ou natural. 
Com os ambientalistas tomando conta do noticiário, a questão social da população de Mariana vem sendo esquecida. 
Ela está sem trabalho, sem renda e sem perspectivas.
Dificilmente a mineração da SAMARCO será retomada a curto prazo. 
O que vai garantir a sobrevivência dos que trabalhavam ou dependiam da Samarco?
Não adianta pensar em reconstruir o bairro de Bento Rodrigues, o mais afetado pelo lamaçal. Era um acampamento de funcionários da Samarco, aproveitando um povoado antigo. Não há porque voltar a morar lá, se não houver trabalho na mina local. 
Os ambientalistas, o Ministério Público, a Justiça, o Governo e outros estão sedentos em punir a empresa com pesadas multas. 
O importante não são multas, mas indenizações e as primeiras não devem ser para o ambiente natural, mas para as pessoas. 
A destinação dos recursos deverá ser prioritariamente orientada para criar programa de sustentação econômica de Mariana e adjacências. Para que ela não se transforme em cidade fantasma, comprometendo inclusive o seu patrimônio histórico.
O natural é que os mineradores migrem para outros locais, próximos ou não, onde serão mantidas as atividades minerárias, deslocados pela própria Samarco ou Vale. Os comerciantes e prestadores de serviços, com a perda da sua clientela, também tenderão a buscar outras localidades. 
O esvaziamento e empobrecimento de Mariana são inevitáveis. Mas os "justiceiros" pouco estão se importando com eles. A menos dos solidários doadores de roupas e agora água. 
O que eles precisam é de trabalho e renda. 
Já a remediação ambiental deverá ser feita com cuidado e sem afoiteza. O grande  risco é que muito do que for feito já, de forma apressada se perca em dezembro e janeiro com as chuvas sobre o vale do Rio Doce. 
É preciso planejar, com tempo para o médio e longo prazos.    
Jorge Hori
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