Entrevista: Ricardo da Costa, do MEC: “Estamos limpando o terreno. Logo começaremos a arar a terra. A semeadura é que será mais lenta”

O professor Ricardo da Costa é atualmente assessor do MEC. Em entrevista concedida a Raquel Brugnera ele descreve a politização extremada da educação nas últimas duas décadas, o aparelhamento intensivo das entidades estudantis e instituições de ensino e o que poderá ser feito para mudar a atual realidade.

Leia a entrevista:

Jornal da Cidade Online - Ricardo da Costa, qual sua profissão/formação e de que forma o senhor chegou ao MEC?

Ricardo da Costa - Bacharel e Licenciado em História (UNESA, 1993), Mestre e Doutor em História Social (UFF, 1997 e 2000). Após o doutorado, fiz três cursos de pós-doutorado em História Medieval e Filosofia Medieval (Universitat Internacional de Catalunya, UIC, Barcelona, 2003 e 2005) e em Literatura Medieval (Universitat d'Alacant, UA, 2017).

Fui convidado no início de janeiro de 2019 pelo então ministro Ricardo Vélez Rodriguez, inicialmente para ser coordenador-geral do ENADE. Enquanto o processo de cessão tramitava, o gabinete mudou de ideia e me convidou para ser assessor especial do ministro. Após a queda de Vélez, com a chegada do ministro Abraham Weintraub, passei a ser “assessor do MEC”.

JCO - Sabemos que a educação é uma das pastas mais importantes deste governo. Questões ideológicas estão intimamente ligadas à pasta. Como tem sido o enfrentamento e a resistência de professores e alunos?

RC - Após duas décadas de administração de centro-esquerda e esquerda (PSDB e PT), houve uma politização extremada da Educação. Passaram a enfatizar outras questões em detrimento do conteúdo das disciplinas. Houve um aparelhamento intensivo de centros estudantis e sindicatos de professores, com influências e hegemonias de partidos de extrema-esquerda (desde o Pcdo B ao PSOL, além, é claro, do PT). Nossa missão é retornar à Educação. Por isso, é natural que haja resistências variadas. Da UNE – financiada década e meia pelo PT – especialmente. Não espero grandes avanços. Levará outras décadas para conscientizar o Brasil que a melhor Educação não é a politizada, pelo contrário.

JCO - Na sua opinião, por qual motivo muitos jovens ainda insistem nessa espécie de saudosismo ao antigo jeito de administrar que empregava muita gente e mantinha a qualidade da educação muito abaixo dos demais países? Eles não deveriam querer revolucionar, ao invés de aceitarem o que estava acontecendo nas universidades?

RC - Como disse, por causa dessa doutrinação de esquerda – explícita e incisiva a partir da administração Lula – os jovens não tiveram outro parâmetro além da Escola Construtivista paulofreiriana, e a difamação, constante e regular, sem qualquer abertura para o debate de ideias, da Escola Tradicional. Conteudista. Por isso nossos níveis tão baixos se comparados aos de outros países. A globalização da informação está escancarando essa tragédia. O mundo se conectou. A Esquerda não pode mais doutrinar sem contestação, sem fatos. Pouco a pouco, a realidade mostrará que é preciso mudar. De minha parte, recordo Nelson Rodrigues: “As jovens, só resta envelhecer”.

JCO - O senhor tem acompanhado o movimento Docentes pela Liberdade? Qual a sua opinião sobre a chegada de uma ala mais à direita nas Universidades Federais?

RC - Assim como a Escola sem Partido, fui um dos primeiros a participar do Docentes pela Liberdade, movimento iniciado pelo Dr. Marcelo Hermes Lima da UnB, que logo me convidou a integrá-lo. Quanto ao eufemismo “mais à direita”, assumo: Direita. É preciso. Sem uma Direita definida, aberta, clara, como é possível dizer que existe democracia? Só com partidos de esquerda? Isso é totalitarismo. Urge formarmos grupos de acadêmicos de direita. Para disputar eleições para reitor. Para debater ideias opostas ao establishment, da esquerda, que é hegemônico há décadas.

JCO - Já vi em algumas notícias que seu nome foi sugerido para uma reitoria, procede esta informação? O senhor será um dos primeiros reitores conservadores do país?

RC - Há dois dias, recebi uma ligação de uma repórter de “A Gazeta”, do Espírito Santo. Disse ela que havia esse rumor em Vitória. Perguntou-me a respeito. Respondi que desconhecia. Não fiz carreira política na universidade, mas acadêmica. Mas abri as portas de minha residência para receber os colegas, assediados, temerosos, para incitá-los a formar uma chapa. Estamos conversando. Para marcar posição. Ganhar é impossível. A UFES é uma universidade de esquerda. Antimeritocrática por excelência. O PT no poder, o PcdoB nas estruturas (inclusive estudantis). Há décadas. Aliás, é por esse motivo que ela se mantém nos escalões intermediários do ranking de universidades federais de nosso país. Assim penso.

JCO - Vocês estão sob ataques diários, acompanhamos notícias de ataques pessoais contra o ministro da educação, mas percebo que tanto ele, quanto você, usam o bom humor como escudo; de que forma vocês pretendem administrar essa revolta de jovens contra as reformas que estão sendo feitas? Há uma esperança de que a revolta diminua na medida que os bons resultados aconteçam?

RC - Como administrar revolta de jovens? Com Educação. Revolta é, por natureza intrínseca, anti-educativa. Estudante que quer se revoltar deve estudar. Sua revolta legítima se encontra na Biblioteca. Nos livros, nunca no asfalto.

JCO - Para finalizar, há alguma percepção pessoal sobre o que foi a educação até o ano passado e o que será, diante das mudanças que já foram implementadas e outras que ainda virão?

RC - Tudo em Educação é lento. É um processo. De médio, longo prazo. Não se reconstrói Roma em quatro anos. Até o ano passado só presenciei decadência. Analfabetismo crescente, apatia, desinteresse, amargura, ênfase em contestações, nunca em construções. Minha percepção é que houve um cataclisma: a inesperada vitória de um governo de Direita. Inesperada para a “bolha acadêmica”, mais preocupada em lacração, em bajular movimentos sociais (inclusive financeiramente). Quem lacra, não lucra. Nada ganhamos. Mas mudanças reais? Somente em duas décadas, pelo menos. Mas estamos limpando o terreno. Logo começaremos a arar a terra. A semeadura é que será mais lenta.

da Redação

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