O ovo da serpente

Dias atrás tive o prazer de assistir a uma brilhante palestra do professor Roberto Amaral, um velho socialista e refundador do Partido Socialista Brasileiro, num evento da Frente Brasil Popular MS. Foi uma aula, para todos nós, sobre a história recente do país. Em dado momento, usou uma figura de retórica já conhecida, “o ovo da serpente”. Quem teve a oportunidade de ver o filme de Ingmar Bergman, que registrou magistralmente a ascensão do nazismo na Alemanha, sabe ao que me refiro. A diferença entre um ovo da galinha e um de cobra está em que no primeiro, a casca é dura e opaca e não se vê o que está dentro, estragado ou não. No caso da cobra, seu o ovo é revestido por uma fina membrana e é possível ver o que está dentro: a certeza do surgimento de uma nova serpente. 
Em linguagem figurativa, pode se antever os riscos de um ovo de serpente, quando um país mergulha numa crise de valores e no descrédito e enfraquecimento das instituições democráticas.   As serpentes se deixam revelar mesmo antes de eclodirem os seus ovos, da mesma forma que se evidenciam os interesses e intenções daqueles que visam o poder pelo poder sem freios ou limites.
Penso nisso porque vejo com preocupação emergir com força o conservadorismo e o ideário da direita em todos os quadrantes do mundo. Toda pessoa com um mínimo de informação e bom senso antevê a aproximação de um tsunami antidemocrático como panaceia para resolver todo tipo de crise. E com isso, segue o cortejo de intolerância, de segregação e de diversas formas de violência frontalmente contrárias aos direitos humanos.
Este é o caso desta sofrida América Latina, em especial, do nosso país tropical, supostamente abençoado por Deus. O avanço do conservadorismo e da direita próximo de nós é incontestável. Mesmo professando meus ideais de esquerda (até porque na minha história política gramei duas prisões na época da ditadura e fui o primeiro vereador do PT no estado e na minha querida Corumbá), não posso deixar de lamentar que o que está ocorrendo com aqueles que até agora apresentaram-se como políticos identificados com o socialismo democrático, mas com práticas inconfessáveis. Os desmandos e as falcatruas desses falsos representantes do povo, fartamente noticiadas, dão a impressão de que só há lobos em pele de carneiro, ou seja, políticos corruptos e individualistas, cínicos preocupados exclusivamente com o poder e o próprio enriquecimento.
 Abro um parêntesis para esclarecer uma questão que tem me preocupado muito, relacionada ao que se entende por socialismo. O pensamento conservador, propositalmente ou por ignorância de muitos, tende a demonizar todo tipo de regime democrático e formas de governar atendendo as classes mais pobres e enfraquecidas pela falta de educação, saúde e oportunidades de ascensão social. Socialismo e comunismo não são a mesma coisa e algumas tentativas de implantá-los fracassaram, é fato. Mas, pergunto: quantas vezes a democracia liberal fracassou retumbantemente na história? Quantos regimes apoiados na liberdade, igualdade e fraternidade transformaram-se em ditaduras sangrentas? Como apareceu o nazismo e o fascismo na Europa?
Sempre entendi que a democracia é irmã gêmea da liberdade de pensamento e da imprensa. Uma não sobrevive sem a outra, o que é comprovado pela história de qualquer país. A própria história brasileira está repleta de exemplos nesse sentido, desde os tempos da censura aos livros do período colonial, passando pelo controle da imprensa na monarquia e nos avanços e recuos da censura nos tempos republicanos. Os “donos do poder” sempre viram como risco aos seus interesses a imprensa livre e daí o recorrente uso da censura. Os coronéis da República Velha, os interventores da ditadura de Getúlio Vargas, os militares e seus aliados empresariais na recente ditadura dos generais utilizaram, cada um ao seu tempo, o controle da imprensa para reprimir e calar seus opositores.
Entretanto, são os jornais e as opiniões publicadas que nos ajudam a formar a nossa posição diante da política e do mundo inteiro. Por isso a censura é tão perniciosa. Ela impede as pessoas comuns de pensar por si próprios e embasar as suas atitudes e votos.
Na ditadura militar, a imprensa sofreu a ação de insignificantes e medíocres censores, muitas vezes logrados pela inteligência jornalística. Lembro de O Estado de S. Paulo que, para ludibriar a censura e mostrar aos seus eleitores que o jornal estava sob uma cerrada mordaça, publicava nos espaços censurados estrofes de Os Lusíadas ou receitas de comidas incompletas. E olhem que o Estadão sempre foi muito conservador e de direita, porém teve um papel importante na defesa da liberdade de imprensa.
Tempos gloriosos da resistência de escritores, poetas, músicos e compositores. Provavelmente, esse foi um dos momentos mais criativos da cultura brasileira, que necessitou de todo o gênio e inventividade dos seus artistas para exercer o sagrado direito à critica.  Censurava-se com truculência qualquer divulgação de ideias oposicionistas, mas não conseguia combater pensamentos e ideais de liberdade. Era evidente que a censura como ato de brutal controle escancarava o autoritarismo, radicalizando a política e permitindo assim o seu enfrentamento.
Antes dos governos petistas, 499 jornais, revistas, TVs, rádios, portais e sites de internet recebiam e sobreviviam com verbas publicitárias federais. Já no governo do PT o número de beneficiados pelas verbas públicas foi assustadoramente ampliado para 8.094 e esta cifra continua a aumentar. A justificativa até que é razoável, e até certo ponto defensável, ou seja, a democratização da distribuição das verbas publicitárias. Mas o resultado é que é problemático. Qual desta imprensa, em qualquer nível ou tamanho, estaria disposta a fazer críticas aos poderosos, ou no mínimo falar mal do governo e correr o perigo de perder a sua “galinha de ovos de ouro”? Qual dessa imprensa foi capaz de mostrar (ou de esconder) a serpente antes do ovo eclodir?
De qualquer forma, o que a imprensa é obrigada a informar é a evidência dos fatos, além de suas versões. E neste momento seus cadernos de política mais parecem páginas policiais. “Tá tudo dominado” e os governos em todos os níveis, municipal, estadual e federal, estão contaminados pelo crime de corrupção. 
Entretanto, crime se combate com a lei e a justiça e não com a supressão do estado democrático de direito.
Valmir Batista Corrêa


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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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