O novo “Seja você mesmo”

Quem acredita em espontaneidade nas redes sociais levante o dedo!

Sério, feche os olhos e pense no Instagram, por exemplo.

Digo Instagram porque é uma plataforma onde o apelo visual é maior. Textos não se destacam tanto quanto imagens. Imagens nos dizem às vezes mais que 1000 palavras.

Pensou no Instagram?

Então agora me conte se você consegue lembrar de posts específicos ou pessoas que postam fotos espontâneas, autênticas, sem ensaios ou segundas e terceiras intenções. Lembrou de alguém?

Eu posso apostar que, se lembrou, não foi fácil ou não são muitas as pessoas.

Sabe por que? Por que não há tal coisa nas redes sociais. Não é a regra.

Redes sociais foram feitas para que construamos personagens. Personagens cultos, personagens divertidos, alternativos, personagens sensuais, com pernão, com textão, com peitão, personagens engajados, politicamente corretos, felizes e bem resolvidos. Personagens sonho-de-consumo, daqueles que provocam a tal invejinha branca(ninguém admitiria trocar a cor dessa inveja!).

Uma foto na praia nunca é uma foto sem intenções secundárias.

Fotos de viagens nunca são fotos despretensiosas.

Fotos de comida querem contar mais do que uma fome ou gula (Aliás nunca entendi muito a real intenção de fotos de pratos de comida...).

Uma foto de um livro sobre pernas ou de um bichinho de estimação no colo nunca é pra mostrar somente o livro ou o cãozinho. Provavelmente tem uma perna torneada, bronzeada ou um decote lindo por trás do aparente foco principal.

Se estou criticando? Não, estou assumindo algo que fingimos que não existe.

Se temos a chance de desenhar quem somos para o público e nos vender do jeito que gostaríamos de ser, por que não? Não chega a ser falso (apesar de, para os íntimos, soar falso às vezes), é simplesmente uma versão construída, pensada, uma imagem planejada.

1- Então aquele papo de “Seja Você mesma” (Be yourself pra ser mais universal) é possível em tempos de internet e redes sociais?

Sobre isso tenho uma revelação bombástica: SIM, é possível sim.

Nós, usuários das redes, conseguimos vender essa autenticidade de sermos nós mesmos, ainda que até isso tenha sido artificialmente e meticulosamente estudado antes de ser postado.

2- Existe uma autenticidade absoluta nas postagens de Redes Sociais? Não.

3- É pra gente desistir de acreditar no que lemos e vemos por lá? Não.

Pode acreditar no que seus olhos vêem e lêem, desde que saiba que está acreditando no enredo dos personagens que ali estão.

4- Todo o relacionamento anda maravilhoso menos o seu? Não, acredite-me. Estão todos iguais ao seu, a diferença é que você compra o relacionamento perfeito e apaixonado que muitos vendem online. Faz parte da tal construção de felicidade espontânea e autêntica. Relacionamento presencial, longe da câmera do celular está igualzinho ao seu.

5- É feio agir assim nas redes? Não chega a ser feio, até porque é algo já institucionalizado. Selfies em boomerang ou com efeito make-up, copos de vinho, ângulos mais belos, carros e viagens, frases de amor e entrega - tudo isso já é aceito como parte da vida de todos nós.

Feio é negar que seja assim.

Isso sim.

6- Um dia vamos cansar de fazer diferentes gêneros para amigos e desconhecidos? Sim. Acho até que já estamos cansando.

7- Nosso grande problema é: se cansarmos e pararmos de vestir nossos personagens de atitudes, figurinos e maquiagens, o que diremos para quem já nos acompanha e acredita em seus registros glamurosos? Putz, não sei. Eis um dos grandes dilemas do novo século: voltar atrás.

“Sejamos o que sempre quisemos ser mas não conseguíamos antes das redes sociais”.

Sem julgamentos.

Pronto.

Bia Willcox

Blogueira

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