Coringa: Saiba porque o filme despertou a ira da esquerda

Coringa é um ótimo filme, não há outro modo de começar. Sua apresentação é feita sem pirotecnias. A câmera basicamente segue a espiral descendente em que o protagonista se encontra sem apelar a artifícios visuais.

Dito assim, parece monótono, mas não é. Mesmo que o final já seja conhecido, o processo é suficiente para prender a nossa atenção.

A interpretação de Joaquin Phoenix já entra para a história como uma das melhores para o personagem. Sem dever nada a Jack Nicholson e Heath Ledger. Talvez até um pouco mais profunda e complexa, pois Phoenix precisou externar a tranformação que Arthur Fleck passa para se tornar o Coringa.

Tudo está no ponto. Desde a risada descontrolada de Arthur que muda sutilmente diante de cada situação e conforme ele progride em sua decadência, até a variação na representação do sofrimento do personagem, que torna impossível para o espectador comum diagnosticar exatamente qual doença mental o aflige. Em resumo, um filme que supera as expectativas, praticamente garante o Oscar a Joaquin Phoenix e, de quebra, nos faz esquecer da desastrosa encarnação do Coringa protagonizada por Jared Leto.

Então por que a esquerda está atacando tanto esta produção? Simples, o filme simplesmente se recusa a ceder aos anseios destes. Se recusa a adotar o lugar-comum e entregar aos justiceiros sociais o que eles exigem. Que é subserviência completa à agenda ideológica progressista.

Num mundo onde a esquerda luta dia e noite para dividir e categorizar os cidadãos com base numa escala de vitimismo, o Coringa representado por Joaquin Phoenix se localiza precisamente no ponto mais inexpressivo (e menos importante) dessa escala . Na pirâmide hierárquica do vitimismo, ele é o ser mais baixo: homem, branco e hétero. Para os progressistas, todos os males do mundo derivam deste tipo de pessoa, que deve ser sempre atacada e lembrada de seus “privilégios”, não humanizada.

É natural então que, o esquerdista se irrite quando as aflições, medos e transtornos de um personagem com essas características, sejam mostrados ao público em toda sua crueldade. O progressista simplesmente não vê sentido em mostrar que alguém assim pode sofrer. O homem branco e hétero é o maior vilão dos justiceiros sociais. Expor seus problemas e sua decadência mental, social e espiritual, é torná-lo humano. E isso pra eles é inaceitável.

O diretor toma muito cuidado para sempre mostrar que, apesar de todo o sofrimento de Arthur, suas ações criminosas são maldosas. O filme deixa claro que o ser humano está se desfazendo, dando lugar a um monstro. Apresenta o declínio de Arthur, sem justificar moralmente seus crimes. O que derruba o chilique oficial progressista de que a produção incentivaria homens problemáticos a cometer crimes. Velha falácia dos que querem subjugar a cultura.

Mas o que mais irritou os esquerdistas, com certeza foi o balde de água fria intelectual que o diretor Todd Phillips jogou em suas cabeças. -(SPOILER) A Gotham do filme é claramente baseada na Nova Iorque dominada pelo crime dos anos 80. Em certo momento (após suas ações criminosas), o Coringa começa a ser visto como um símbolo de resistência contra os poderosos e os ricos. Tudo perfeito para que o diretor prestasse uma homenagem à eterna ideia progressista de luta de classes e ódio ao sucesso, fazendo a alegria da brigada vitimista da esquerda.

Mas, brilhantemente, o filme foge desse lugar-comum. O próprio Coringa diz que seus atos não tem nenhum teor político. São apenas a manifestação de seus problemas pessoais combinados com a apatia da sociedade para com ele.

Os vitimistas teriam perdoado a atenção dada ao sofrimento de um homem branco e hétero, se esta fosse uma premissa para prestar uma homenagem à agenda esquerdista de “justiça social”. Não foi o caso. E isso, para os fiscais da cultura, é imperdoável.

P.S.: Para que fique claro. Não sou crítico de cinema nem de quadrinhos. Minha análise é tão somente motivada pelo teor político das reações dos justiceiros sociais após as primeiras exibições do filme, ocorridas há algumas semanas.Nelas, o filme era acusado de glorificar "comportamentos neofascistas" e de servir de justificativa para "jovens branco problemáticos" cometerem crimes.

Essas críticas foram bastante intensas e descabidas, o que inclusive levou o diretor a criticar o politicamente correto, a extrema-esquerda e a proibir jornalistas nas exibições seguintes. E levou o ator Joaquin Phoenix a abandonar uma entrevista. Minha análise é baseada nessa necessidade da esquerda de moldar a cultura à sua imagem, utilizando os justiceiros sociais.

Não fui eu quem trouxe a política (ou a guerra esquerda-direita para o filme) estou na verdade mostrando como a esquerda está tentando fazer justamente isso. O filme não tem mensagem política e a esquerda gostaria que tivesse uma, e claro, a sua própria.

https://www.washingtonpost.com/nation/2019/09/26/todd-phillips-joker-outrage-culture-gun-violence-cr... (Diretor ataca o criticismo da extrema-esquerda contra seu filme).

Frederico Rodrigues

Analista Político e Membro da Direita Goiás.

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