Quem matou Nathana?

O jornal diz que Nathana, de 23 anos, morava só (em casa própria), tinha um cachorro e trabalhava numa corretora de seguros. Seu vínculo de família era a madrinha: não teve irmãos e os pais faleceram há tempos.

Na madrugada de 18 de novembro, a jovem caminhava no bairro Cidade Baixa com duas amigas, quando um bandido apontou um revólver e exigiu os celulares das moças, que tentaram fugir.

Nesse ponto, a reportagem é imprecisa.

Parece que Nathana voltou para ajudar uma das amigas, que ficara para trás. E foi morta com um tiro na cabeça.

Assim está a cidade de Porto Alegre. É a soberania do crime. Já não há bairro nem praça, rua não há em que se possa viver em liberdade. Só a mão do crime faz o que quer, onde quer e como quer.

Como se chegou a isso? Óbvio, não há efeito sem causa! Também óbvio, a violência é um fenômeno multifatorial. Agora, um dos fatores causais do drama porto-alegrense é o silêncio omisso de uns quantos combinado com um ruidoso discurso de legitimação do crime, cuja síntese vai aqui.

"Sou a favor do assalto", diz a gaúcha Marcia Tiburi. E justifica: "Tem uma lógica no assalto. Eu não tenho uma coisa que eu preciso, fui contaminada pelo capitalismo... (...) Tem muitas coisas que são muito absurdas, que se você vai olhar a lógica interna do processo (...)". E Acrescenta sua ideia conclusiva: "Sabe que isso seria justo dentro de um contexto tão injusto?"

Se o postulado de Tiburi justifica todo e qualquer assalto, como, de fato, o faz, então absolve o assassino de Nathana. Aliás, seguindo a sua lógica, a conclusão é a de que Nathana não é vítima; quem sabe, culpada.

Nathana não trabalhava numa corretora de seguros? E tem coisa mais capitalista que uma corretora de seguros?

Devota do marxismo e ideóloga do PT, Marcia Tiburi acha que todo e qualquer capitalista - do pequeno empreendedor ao banqueiro - merece o pior dos castigos, ao passo que assaltantes, como o que matou Nathana, merecem absolvição por serem "vítimas do sistema".

Mas não é só um discurso, porque, por trás, há todo um ideário, que se articula com metástases nas mais diversas instituições: educação, cultura, imprensa, sindicatos e até instituições religiosas.

É o ideário de um esquerdismo confessional, organizado, com estratégia e nenhum escrúpulo para "construir hegemonia" (poder total), que, nas últimas três décadas, teve participação ativa na degradação da cidade.

Ora no governo, ora na oposição, buscando sempre e por todos os meios implantar uma ditadura socialista, os artífices dessa ideologia trabalharam incansavelmente na destruição dos valores da juventude e no trancamento das ações de combate ao crime, causando uma generalizada sensação de impunidade e a amplificação das condutas transgressoras.

Daí, por exemplo, o tráfico e o consumo de entorpecentes (duas faces da mesma moeda) cresceram e parecem fora de controle. Entende-se hoje que a maioria dos celulares roubados (coisa corriqueira) destina-se ao custeio do consumo de crack.

Quer dizer, chafurdam na mesma lama de imoralidade o traficante que chefia a facção, o zumbi que consome crack, o ricaço que desce à planície para comprar drogas e o ativista ideológico que, com sua "religião" sem Deus, prega o relativismo moral.

Não há, pois, como atribuir apenas a uma ideologia, por mais amoral e autoritária que seja, toda a responsabilidade pela degradação social.

Com efeito, sem a covarde omissão dos que dizem não avalizar essa mentalidade, não estaríamos em tão dramática situação.

A propósito, a quem vier com aquele argumento pré-fabricado, "isso é teoria da conspiração", pede-se que tenha a fineza de ler a macabra doutrina de Antonio Gramsci, pois verá, se tiver honestidade, que o aqui descrito é a aplicação de seus postulados diabólicos.

Quem matou Nathana? Não foi só o desvario de um bandido sem compaixão, mas a maldade ativa de uns favorecida pela perniciosa covardia de outros. Quem ceifou a vida de uma jovem de 23 anos foi a Porto Alegre que nós deixamos criar-se. E que mata outros tantos todos os dias.

Renato Sant'Ana

Advogado e psicólogo. E-mail do autor: sentinela.rs@uol.com.br

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