Mente e frauda a história quem conta que Jesus sofreu e cedeu à tentação de ser gay

Sem que Jesus Cristo tenha sido gay, nada existe de belo, artístico, emocionante, talentoso, rico, feliz, criativo e comovente numa peça de teatro, numa novela ou num filme que retrata um Jesus Cristo homossexual. Este é o enredo do "Especial de Natal Porta dos Fundos: a Primeira Tentação de Cristo" e que gerou reação criminosa, que foi o ataque a bomba e coquetéis explosivos à sede da produtora no Rio de Janeiro.

Mas, em menor grau, brutalidade, selvageria e consequências comparáveis ao que sofreu o jornal parisiense Charlie Hebdo.

Por ter publicado a caricatura do profeta Maomé, a redação do Charlie foi atacada a tiros em 7 de Janeiro de 2015. Saldo do massacre: 12 mortos e 5 feridos gravemente. O mundo inteiro reagiu contra. E com justa razão.

Todas as vezes que se mexe com símbolos, valores, culturas, tradições e divindades de qualquer religião, as consequências são inevitáveis e imprevisíveis. E sempre são irracionais e criminosas.

No caso desta produção brasileira, nela não se configura um crime. Seus autores e produtores não são criminosos. Crime (ou crimes) cometeram os que idealizaram e executaram o ataque à sede da produtora. Retratar Jesus como gay não é crime. Depõe contra a História, porém, não chega a ser crime capitulado pelo Código Penal (artigo 208). Mas é enredo mentiroso. Nega e renega a História. Fragiliza quem se manteve forte e imbatível. Quem venceu todas as tentações.

O próprio título da peça ("A Primeira Tentação...") não encontra mínimo lastro ou suspeita de veracidade nos relatos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Nem em achado(s) arqueológico(s) algum, eventualmente descoberto(s) depois, ao longo de mais de dois mil anos.

Vamos a Mateus, um dos quatro evangelistas. Após ser batizado por João Batista, Jesus foi para o deserto onde ficou em oração e jejum. Foi quando sofreu 3 (três) tentações.

A primeira foi por causa da fome. "Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. Então o diabo disse a Jesus: "Se Tu és o Filho de Deus, manda que esta pedra se torne pão". E Jesus respondeu: "A escritura diz: "Nem só de pão vive o homem" (Mateus 4: 3,4).
A segunda: do alto de uma montanha Jesus passava a ver o horizonte e imaginar toda a extensão de terra que forma os mais diversos reinos; “Eu te darei todo poder e riqueza destes reinos, porque tudo isto foi entregue a mim, e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se ajoelhares diante de mim, tudo isto será teu”. E Jesus respondeu ao demônio: "Você adorará o Senhor seu Deus e somente a Ele servirá" (Mateus 4:6,8).
A terceira: Jesus estava em Jerusalém, na parte mais alta do Templo e voltou o demônio: "Se Tu és o Filho de Deus, joga-Te daqui para baixo, porque a Escritura diz: "Deus ordenará a teus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado. Eles Te levarão nas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra". E Jesus respondeu: "Não tente o Senhor teu Deus" (Mateus, 4: 9,12).

Como se vê e se constata, Jesus jamais sofreu a tentação de um relacionamento amoroso-carnal com outro homem. Nem com mulher.

Nas biografias, não se pode acrescentar, nem muito menos inventar nada, nada, que não tenha se passado na vida do biografado.

Tudo precisa ser verdadeiro e comprovado. E apresentar hoje, tirado do nada e mais de 2 mil anos depois, um Jesus gay é deturpar a vida do Filho de Deus aqui na Terra. É para escandalizar e produzir efeito meramente publicitário e ganho financeiro, sem medir a ira daqueles que não sabem se conter e partem para as ações criminosas.

Com o que é sagrado, para qualquer credo, em qualquer parte do mundo, não se brinca, não se toca, não se altera, nem se deturpa. Respeita-se.

Jorge Béja

Advogado no Rio de Janeiro e especialista em Responsabilidade Civil, Pública e Privada (UFRJ e Universidade de Paris, Sorbonne). Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB)

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