Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Uma educação distante

Sou do tempo em que o antigo primário (as primeiras séries do ensino fundamental) tinha à frente uma professorinha formada no curso normal, quase sempre oferecido nos grandes centros. Estas normalistas tinham uma sólida formação e ensinavam as bases da cidadania, da língua portuguesa, as primeiras contas da aritmética, a história e a geografia. Poucos alunos superavam essa etapa, as noções fundamentais do primário, e seguiam os estudos do ginásio preparando-se para os raros cursos superiores. Não pela (in)competência da professorinha, mas pela realidade social que se viveu algumas décadas atrás. As meninas, por exemplo, não eram incentivadas a continuar seus estudos superiores e um número significativo de crianças parava no antigo 4° ano.

Quando chegava a uma cidade do interior, a professorinha era uma verdadeira sensação, pois ela se diferenciava da sociedade local pela sua formação, além de deter um emprego público remunerado e estável, coisa rara naquela época. Tornava-se alvo dos rapazes que disputavam a tapa a sua atenção e, quem sabe, até um futuro casamento. Isto por que, a professorinha do interior tinha prestígio e era um bom partido. E eram poucas...

Hoje, essa situação é apenas uma fotografia pálida e desbotada, distante no tempo. O carro da história andou e a cada instante modernidades e tecnologias foram sendo incorporadas ao sistema educacional como um todo. Nos últimos 20 anos assistiu-se à massificação de cursos superiores para a formação de professores e, com isso, sem dúvida, ampliou-se a democratização do ensino.  Entretanto, a professorinha perdeu o seu status, seu prestígio e o seu poder nas cidades interioranas. Os salários tornaram-se aviltantes e a profissão, ainda que muito necessária num país em desenvolvimento, ficou degradada a ponto de jovens mais ou menos bem-nascidos não desejarem, nem de longe, tornarem-se professores de primeiras letras.

Por sua vez, os cursos superiores de formação de professores nem sempre primaram pela qualidade, caindo o nível da formação do profissional da educação. São cursos considerados “baratos” e atraem, sobretudo, estudantes que não podem pagar altas mensalidades ou que não tem disponibilidade de tempo integral, pois precisam sustentar-se trabalhando enquanto estudam.

Essa realidade criou um círculo vicioso onde o professor tem falhas de formação e é desestimulado por baixos salários que afetam a sua qualidade de vida. A responsabilidade, nessa situação, recai sobre o Estado que apresenta um discurso maravilhoso sobre Educação para Todos, mas não executa uma política pública de valorização real e concreta desses profissionais.

Agora, um modismo mais ou menos recente, e alardeado por autoridades governamentais, introduziu computadores nas salas de aula como panaceia para as mazelas do ensino fundamental (que agrega os antigos primário e ginásio). Entretanto, é preciso ter em mente que o computador é apenas uma ferramenta auxiliar e não o objetivo final da educação. Mesmo com toda a disponibilidade de alta tecnologia e modernização da escola, nada ainda supera a presença de um bom professor na sala de aula. Este, remunerado adequadamente, bem formado, atualizado e com boas condições de trabalho, é o protagonista no processo de ensino-aprendizagem e por isso necessita ser mais valorizado.

Outra modernidade, agora para a formação dos professores do ensino fundamental, são os chamados cursos superiores de educação à distância, uma forma mais interessante do ponto de vista econômico para a universidade que a oferece (especialmente as particulares) e também para a sua clientela. As instituições públicas de ensino superior também têm interesse em mostrar estatísticas positivas do seu desempenho, em especial um grande número de formandos para justificar o acréscimo de recursos do MEC. Só indicadores estatísticos, diga-se de passagem.

Mas, será que esta nova forma de ensinar prepara melhor os novos professores? Este é, de fato, um assunto ainda não bem esclarecido e que merece uma profunda reflexão. Nesse ponto sou meio conservador e acredito que a melhor forma de aprendizagem, com estímulo à reflexão e solidez de conteúdo, ainda está no ensino presencial, ou seja, com o professor de frente com o aluno e não através de um telão e de um computador. Como exemplo, retomo um censo escolar de 2002 praticamente 98% dos formandos em Pedagogia, Normal superior e Educação Infantil eram egressos do ensino presencial. Mas esta situação inverteu-se, aliás, um dado preocupante. No censo escolar 2009 detectou-se que 55% dos formandos eram, vejam só, dos cursos à distância. Isto significa claramente que o ensino à distância veio para ficar e aumenta consideravelmente a quantidade de professores formados. Mas, e daí?

Em educação, essas inovações devem ser tomadas como meios e não fins.  Quando é que vamos levá-la realmente a sério?

Valmir Batista Corrêa

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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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