Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Pode haver luz no final do túnel

Revendo meu arquivo de recortes de jornais deparei-me com uma notícia que reli com muito interesse. Era uma experiência pedagógica aplicada na rede escolar municipal de Altinópolis, uma cidadezinha de 15,6 mil habitantes localizada no interior do estado de São Paulo. Foi uma experiência inovadora e arrojada que, com certeza, espero ter rendido muitos bons frutos. Uma prática pedagógica que não partiu de cima para baixo, ou seja, da própria secretaria municipal de educação, mas, vejam só, por uma iniciativa exclusiva dos professores.
A concepção era muito simples: os professores passaram a visitar as casas dos 1.200 alunos do ensino infantil e fundamental. Os pessimistas logo diriam que a experiência poderia dar resultado por ser um número pequeno de alunos. Poderia ser, mas, bem planejada, a atuação seria praticada na abrangência de cada escola, numa extensa região como Campo Grande (MS), por exemplo. Basta querer e assumir com competência e profissionalismo uma proposta tão bonita como esta. 
E o que se objetivava com este trabalho? Em primeiro lugar, aproximar a nem sempre fácil relação entre professores e pais dos alunos. De imediato, a comunidade (professores, pais e alunos) passou a ter um compromisso com o uso, a proteção e a preservação da escola, que se tornou na verdade um centro comunitário. Em segundo lugar, a possibilidade do professor conhecer o ambiente e a realidade familiar e, com isso, passou a ter uma estreita relação de pais e mestres falando a mesma linguagem. Ao detectar as carências da comunidade, a escola pode assim imprimir um projeto pedagógico melhorando significativamente o nível de ensino e tornando-se um atrativo à permanência dos alunos em suas dependências.
Ainda no caso de Altinópolis, esses professores deram ao Brasil um exemplo de cidadania e comprometimento com a realidade social, não tendo remuneração a mais pelo serviço prestado. Por outro lado, a prefeitura local também participou do projeto, com os professores sendo levados às casas dos alunos em veículos oficiais. Nesta situação, colocou-se em xeque a questão de que o professor não se inova por ser mal remunerado e pouco considerado na sociedade. Não tenho dúvida de que a remuneração é muito importante para a valorização do professor, mas não é somente isso que o motiva. Existe, na verdade, um conjunto de fatores que somados e um deles é a recuperação do antigo prestígio que o professor desfrutava em sua comunidade.  
No desenrolar do projeto, a efetivação das visitas foi feita de surpresa, sempre após as 18 horas para coincidir com a presença dos pais em casa, com a coleta de dados através de diversas perguntas sobre questões familiares, financeiras e as impressões dos alunos em relação à escola. Os dados levantados fizeram parte das discussões docentes como contribuições para melhores condições de relacionamento do trinômio professores-alunos-pais.
Como o velho filósofo Chacrinha dizia sobre a TV, “nada se cria, tudo se copia”, penso que em educação também deve ser copiado aquilo que é bom e merece ser aplicado. Nesse sentido, a experiência pedagógica de Altinópolis poderia muito bem ser aplicada nos municípios sul-mato-grossenses.
Diante de uma proposta tão simples e já comprovada, pergunta-se: porque ainda não se reproduziu por todo o sistema escolar esse compromisso sociedade-escola? No nosso estado seria relativamente fácil implantar esse projeto escola-comunidade, pois a sua rede pública não é tão grande quando a de outros estados do país. O que de fato está faltando para que se concretize?
Um dos fatores mais importantes é vontade política e isso não depende apenas do professor. Com a palavra, os políticos e administradores sul-mato-grossenses: o que eles têm a dizer?
Valmir Batista Corrêa

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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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