O Transporte coletivo em Campo Grande. O ponto de vista do usuário

Os fatos:


Certo conflito toma conta deste cidadão que vos escreve e relata, diante da necessidade do expediente a que nesta série de artigos me vejo obrigado a exercer. Ironicamente, neste exato momento Lou Reed executa A Walk On The Wild Side...

Não, não é a função ou o serviço em si que me angustia. É o teor da denúncia, é o caráter muitas vezes caricato das condutas e posturas expostas aqui de organizações públicas e privadas que se propõem a prestar um serviço à comunidade.

Observo abuso nas relações entre prestadores de serviços e seus usuários. Aqueles que se propõem a trabalhar seu lucro servindo à sociedade “perderam a linha”, e a vergonha, de tabela. Abuso esse que sem sombra de dúvida é fruto do monopólio que caracteriza alguns setores estratégicos de serviços controlados pelo Governo.

Quando se trata desses temas que envolvem elementos como Governo, a coisa pública, e o cidadão, é típico que se deturpe a discussão enveredando a conversa para aspectos técnicos de economia, política, ritos e tradições que regem a gestão pública. Não, aqui isso não vai acontecer. Aqui trataremos claramente de questões essenciais, conceitos gerais de caráter irrefutável. Ok?

Estabelecido nosso critério de raciocínio da abordagem, peço que reflitam comigo:

Até uma criança que empreende na venda de refresco na calçada de sua casa para juntar uns cobres e realizar desejo ou necessidade, sabe como funciona a composição de preços. Geralmente é uma equação simples.

Se de um lado é possível promover a transparência do processo de composição de preços, de outro pode-se incrementá-lo utilizando complexos mecanismos que reúnam num mesmo balaio sem-fim de informações de naturezas diversas -  que não deveriam se misturar - como preço de insumo, custo fixo e variável, com conceitos improváveis, frágeis e contestáveis, como a sazonalidade da demanda baseada em calendário escolar, recesso de fim de ano, além da covarde atribuição de caráter “gratuidade” aos direitos adquiridos por idosos, deficiente físicos, alguns servidores como policiais, bombeiros entre outros.

Aqui ninguém vai discutir detalhadamente a famigerada “planilha de custos”, que é mero mecanismo de planejamento administrativo, transformou-se em armadilha. A arapuca destina-se a tornar a discussão difusa, dispersa e etérea e sem objetividade.

Aqui vamos é escancarar que o Consórcio altera de forma unilateral o serviço que presta ao seu bel prazer. Retira metade ou mais carros das linhas, simples assim!

Em meados de 2015, o Consórcio Guaicurús havia sinalizado necessidade de aumentar o preço da passagem com antecedência, o que foi negado pela prefeitura. Como que por encanto, notei aumento da ordem de 100% no tempo de espera entre um carro e outro nas linhas que ligam o centro aos terminais 080, 070, 081, 082, 061, 072, entre outras tantas.

“Para o bom entendedor, um pingo é ‘i’”, logo, o Consórcio assegurou a manutenção de sua ambição por meio de recurso vil e rasteiro. Pois sacrifica ao extremo justamente quem deveria encantar, houvesse concorrência, claro.

Foram seis meses indignado, sofrendo com carros lotados o dia todo, insegurança e descaso. Em 14 de novembro, salvo engano, a passagem que custava R$3,00, subiu para R$3,25. Pensei que reestabeleceriam o fluxo habitual de carros circulando, bem como trariam de volta os carros novos. Que nada! Fizeram foi reduzir ainda mais a frota circulante!

Hoje, naquelas linhas em que no início de 2015 havia intervalo de cinco ou dez em dez minutos, dependendo do horário, espera-se até trinta minutos ou mais, dependendo do horário e dia da semana. Não tem cabimento uma pessoa que tem de embarcar quatro, cinco ou seis vezes em linhas distintas (meu caso), perder duas, três horas do seu dia, parado no ponto, à mercê do sol quente, da chuva e dos arrastões promovidos por ladrões oportunistas.

Imagine você, trabalhador, se no dia do jogo do seu time você se permitisse faltar ao trabalho porque lhe parece “justo”, pois seu time está na final do campeonato! Ou ainda se devido à crise as vendas e produção da indústria em que você trabalha caem, você julgar simplesmente que poderá, por decisão unilateral, ir ao trabalho somente segundas, quartas e sextas-feiras. Me diga: o que aconteceria com você? Ficou bem claro agora, creio.

Aí é que está a denúncia que faço aqui:



O Consórcio Guaicurús manipula de forma unilateral, a seu bel prazer e atendendo às suas necessidades, a quantidade e qualidade dos carros nas linhas, sempre com uma justificativa absurda na ponta da língua: ou a demanda cai porque os estudantes estão gozando férias, ou é fim de ano e “as pessoas estão de recesso”... aquilo que o Consórcio (contratado) atribui caráter de “justificativa”, para nós, usuários (contratantes) não passa de desculpa esfarrapada. A verdade nua e crua é que: quem quer fazer, inventa um meio; para quem não está disposto, qualquer desculpa serve. Oras! Perdeu-se o senso do ridículo?

Agora as coisas vão ficando clara nessa balança:

De um lado o Consórcio lança mão do comodismo típico de quem atua em monopólio para atuar da forma mais conveniente para ele.

De outro está a gestão municipal que deveria regular a concessão de direitos de exploração desse mercado a bem da população, estimular a concorrência, não, não faz isso.

O fiel dessa maldita balança, é o trabalhador, o usuário que sente na cabeça o peso dessas duas medidas.

Aparentemente, a única justificativa plausível para a manutenção do gueto que configura o Consórcio, é a chaga moral da sociedade personificada no gestor público que utiliza-se da sua função para defender interesses pessoais e privados. É isso aí.

Infelizmente o conceito deveria pautar a gestão pública – zelar pelos interesses públicos e pelo bem-estar comum – converteu-se em argumento de campanha eleitoral. Há muito tempo não vejo este conceito edificar ações, efetivar aquilo a que se propõe.

As consequências de gestões irresponsáveis na prestação de serviços públicos vão muito além do que, de um lado incremento no lucro de uns, e de outro a revolta de uma gente que se vê lograda cinicamente de todas as formas, inclusive por quem escolheu defender seus interesses.

Acompanhe nesta coluna os artigos próximos que em que será avaliado o impacto da serviço precário e dos desmandos do Consórcio Guaicurús sobre a segurança e saúde públicas, o meio-ambiente e a sustentabilidade, entre outros.

João Henrique de Miranda Sá é escritor e redator autônomo

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João Henrique de Miranda Sá

Jornalista independente em Campo Grande - MS.

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