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Ou isolamento ou retomada da vida econômica: Decisões difíceis são para grandes estadistas

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Todos já escutamos referências a Sir. Winston Churchill (1874-1965), famoso pelo seu papel crucial como primeiro-ministro inglês durante a segunda guerra mundial, bem como um dos maiores estadistas do século XX.

Creio que trazê-lo a lume nos ajuda a pensar de forma racional sobre o dilema que nesse momento vivemos, a saber, sobre o dilema que surge de nossa preocupação com duas questões fundamentais:

1. Ou salvar o maior número possível de vidas dessa pandemia que assola o mundo, ainda que recorrendo ao isolamento social e à cessação quase total da atividade econômica do país;
2. Ou salvar os milhões de vidas que sofrerão os efeitos destruidores e letais do desemprego que assolará o país em virtude do isolamento social e suspensão quase total da vida econômica, cancelando imediatamente, portanto, o isolamento e reativando as atividades econômicas.

Mas por que trazer Sir. Churchill para a discussão?

Bom, como grande estadista Churchill precisou tomar decisões dificílimas, especialmente durante a segunda grande guerra (1939-1945). Afinal, nem sempre podemos ter tudo. Agora, por exemplo, vemos muitos defendendo o isolamento como se ele fosse a solução para todos os problemas, como se ele não tivesse diversas colateralidades. Ou seja, muitos ficam restritos ao presente e ao que pode ser visto nesse instante, sem atentar prospectivamente para o grande quadro.

Mas a verdade é que frequentemente não podemos ter tudo. E esse é, agora, o caso. Eis, então, o dilema. E aqui entra a responsabilidade dos grandes estadistas, especialmente quando em guerra (e nesse momento estamos em guerra, uma guerra contra um vírus, o qual é letal sobretudo para alguns grupos).

Mas o exemplo que quero colocar envolve uma controversa história atinente ao ataque alemão à cidade de Coventry, na Inglaterra, em 14 de novembro de 1940. De acordo com diversos historiadores, Churchill soube do ataque dias antes e decidiu não reagir (isso é inclusive objeto de uma peça apresentada no Teatro Belgrade, em Coventry, chamada ‘One Night in November’).

E aqui vem a questão fundamental: Se ele realmente sabia do ataque, qual a razão para a inação? Afinal, a cidade de Coventry foi devastada por um bombardeio sem precedentes em solo inglês, o qual envolveu toneladas de explosivos em uma operação denominada pelos alemães de ‘Moonlight Sonata’.

Por que a cidade não foi evacuada?

Por que permitir a morte de centenas de pessoas, bem como que outras centenas ficassem gravemente feridas?

Segundo dizem, Churchill decidiu nada fazer para que os alemães não se apercebessem que eles, os ingleses, haviam descoberto como decodificar a codificadora alemã Enigma em Bletchley Park (Buckinghamshire). Tomar uma atitude mostraria aos alemães que seus códigos já não eram secretos, o que comprometeria os desdobramentos da guerra, talvez mudando seu rumo em favor dos nazistas. Portanto, o grande dilema enfrentado por Churchill envolveu:

1. Ou evacuar Coventry e mostrar aos alemães que sua codificadora Enigma foi decifrada
2. Ou deixar Coventry ser devastada e usar o conhecimento da Enigma para futuramente colocar um fim à guerra, o que salvaria um número incontável de vidas. E, segundo segue a história, Churchill, como grande estadista, teria tomado sua decisão: deixar que os alemães devastassem Coventry.

Insisto: certamente se trata de uma decisão dificílima. Mas, ao invés de pensar no momento, ele pensou prospectivamente.

Ele sabia que não poderia ter as duas coisas, de tal forma que uma decisão era urgente.

É muito provável que ele tenha sofrido muito caso tenha realmente tomado essa decisão.

Afinal, não é fácil ser estadista, especialmente em guerra.

Vidas serão inevitavelmente perdidas, independentemente das decisões tomadas.

Esse é o ônus de ser um estadista.

Ainda que ele possua conselheiros, nesse momento ele está a sós com sua consciência. Cabe a ele, e apenas a ele, a decisão e a responsabilidade por ela.

Desnecessário dizer que ele será incompreendido e vilipendiado por muitos, independentemente da decisão tomada.

Nesse sentido, voltando agora ao dilema que enfrentamos nesse momento no Brasil, uma decisão dificílima também terá que ser tomada pelo nosso presidente.

Nossos prefeitos e governadores estão, por assim dizer, evacuando Coventry. Mas não seria o caso de pensarmos prospectivamente e encontrarmos um meio de não apenas salvarmos o maior número possível de vidas agora, mas um número incontável de colateralidades que vão futuramente advir da evacuação de Coventry?

(Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito)

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