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Arranjem cadáveres!

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Na década de 1980, eu entrevistava, a serviço dos jornais Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, um médico de um dos maiores hospitais particulares de Curitiba quando o alto falante da sala onde o corpo clínico se reunia deu uma ordem sinistra:

- Internem crianças ! Internem crianças !

Meu entrevistado apenas se compungiu.

Nesse longo período que nos separa deste episódio, eu iria, como jornalista ou como paciente, testemunhar muitos outros casos que tornavam explícita a eventual falta de ética na Medicina, que já chegou a ser chamada de Máfia de Branco, mas nada tão grave ao que começamos a presenciar agora nessa explosiva mistura de política rastaquera e saúde pública, com seu epicentro no Estado de S. Paulo !

Quem viver, verá !

EM VINHEDO

Começo por descrever o que acontece neste momento na cidade onde moro: Vinhedo (SP), com menos de 80 mil habitantes. O prefeito chama-se Jaime Cruz e é por assim dizer o afilhado de seu antecessor no cargo, Milton Serafim, que já esteve preso por corrupção.

Uma semana depois de instaurada a Pandemia pela ONU, o pressuroso Jaime Cruz decretou Estado de Calamidade Pública (20 de março) no município ainda sem registrar nenhum caso de Covid-19 (neste momento, só a prefeitura sabe que já ocorreram duas mortes pela doença na cidade).

Desconfiada de treta, a população passou a comentar que o prefeito estava apenas tentando escapar da lei de licitação !

PREÇO SALGADO

Suportando já mais de 20 dias de confinamento, apreensiva, a população, especialmente os mais pobres, começa a descobrir que o “Estado de Calamidade Pública” lhe custará um preço altíssimo: todos os postos de saúde da cidade, que funcionam em prédios espaçosos e arejados, estão fechados e as demais unidades (Santa Casa, Upa, Pronto-Socorro) só atendem casos com sintomas de coronavirus.

Saímos do maldito confinamento por três vezes esta semana para tomar vacina contra gripe e demos com a cara na porta: postos de saúde fechados e nenhuma informação. A muito custo, pela internet, descobri que Vinhedo recebeu apenas duas mil doses da vacina que mal serviram para a cobertura dos profissionais de saúde.

EM SÃO PAULO

Uma amiga médica, residente em São Paulo, a cidade que lidera com larga folga o número de infectados no Brasil, tem monitorado os casos de óbitos comparando os exames colhidos na internação com o laudo que aponta a “causa mortis”: por enquanto, ela já descobriu que em 90 óbitos registrados, apenas 20 foram realmente causados pelo vírus chinês. “Isso é muito grave”, ela me escreveu.

Ainda no início da semana começou a circular pela internet um áudio, falsamente atribuído a um médico epidemiologista, que procurava minimizar a Pandemia “informando” que a cidade do Rio de Janeiro havia superdimensionado as previsões – tanto do número de infectados quanto do número de mortos: “O hospital-referência da doença, em Acari, esperava mais de 200 internações para final de março, mas neste momento, dois de abril, temos apenas 12 pacientes internados e só dois em Estado Grave”, dizia o “médico” na gravação que o site Boatos.org definiu como fake.

MÉDICOS CONFIRMAM GRAVAÇÃO

Acendi a luz vermelha e liguei para outros quatro médicos com forte atuação no RJ, que me disseram o seguinte: há um senso comum entre médicos do RJ de que o covid-19 tem até aqui frustrado todas as expectativas.

Uma das médicas ouvidas me disse: “Ao que tudo indica, o número de casos deve aumentar bastante a partir de agora porque o sistema de testagem foi, finalmente, incrementado, mas já posso afirmar que o uso massivo da cloroquina a partir de agora fará o índice de letalidade despencar!”

Por essas e muitas que ainda estão por vir, aqui no meu manso confinamento, enxergo que, por estrita vontade dos governadores, o Brasil foi transformado num imenso hospital e pareço ouvir os alto-falantes instalados nas salas de médicos:

- Arranjem cadáveres! Arranjem muitos cadáveres!

Dirceu Pio. Jornalista.

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