Intervenção é a solução? (veja o vídeo)

O povo quer uma ação dura contra os inimigos na Nação, mas a forma como isso está sendo pedido precisa ser revista

Entendo o sentimento dos intervencionistas, mas pedir intervenção militar e "AI-5" me parece coisa de infiltrado querendo comprometer Bolsonaro. Infelizmente, um monte de inocente útil cai nessa onda e dá mole aos inimigos do povo e do próprio Presidente.

Na semana que antecedeu as manifestações, evitei comentar para não dizerem que eu estaria "jogando contra", mas agora, depois que já passou e que o próprio presidente teve que se explicar, dizendo que não quer fechar o Congresso e nem o STF, vale algumas alguns esclarecimentos para quem tem dúvidas sobre o tema.

1. "AI" são as iniciais de "ato institucional". Foram 17 no governo militar, ao todo. O nº 5 foi o mais duro e por isso o mais famoso. Se fosse haver algum outro hoje, teria que ser o nº 18 para dar continuidade ao antigo regime ou o nº 1 para iniciar uma nova ordem constitucional.

2. Pedir intervenção militar é admitir que o Presidente da República não consegue governar e que o poder precisa ser assumido por alguém mais forte e mais capaz. Ou seja, é pedir a derrubada de Bolsonaro.

3. Não existe "Intervenção com Bolsonaro no poder" na atual ordem constitucional. Pedir isso é pedir que a atual ordem seja quebrada, o que necessita de muito mais gente na rua do que está disposta a sair neste momento de pandemia, para que seja um processo revolucionário consistente e não somente um golpe de um grupo, que ficaria sujeito a contragolpes de gente que entende de revolução bem mais do que a direita.

4. Pedir que Bolsonaro e FFAA fechem Congresso e STF é pedir um regime de exceção. Compreensível diante de figuras que comandam esses poderes, mas quem pede isso deixa Bolsonaro em má situação, pois dá aos outros poderes o direito de afastá-lo, acusando-o de tentar instaurar um regime de exceção (tanto que ele teve que se explicar na manhã de segunda-feira, 20/04, reforçando que não falou nada contra os outros poderes). Deixa também as FFAA em má situação, pois é pedir que elas descumpram a Constituição Federal.

5. Quem acredita que "todo poder emana do povo" e almeja uma nova ordem constituinte, precisa entender que as FFAA são constituídas para zelar pela defesa da Pátria, garantir poderes constitucionais, lei e ordem. Logo, não cabe a elas fazerem a mudança. Cabe ao povo. As FFAA podem apoiar uma mudança se entenderem que é o melhor para o Brasil. Pedir intervenção pra começar o processo é prova de falta de poder popular.

6. A história do Brasil República é uma sequência de golpes e contragolpes entre grupos que disputam o poder, deixando sempre o povo em segundo plano. Quando muito, esses grupos instrumentalizam a vontade popular através de lideranças forjadas e traidoras. O Exército tem sido o poder moderador da República, então é normal que as pessoas recorram a ele em momentos de instabilidade, assim como é normal que as elites políticas saibam tirar proveito disso também.

7. Por isso, não tem fórmula mágica. Tem que ter humildade para entender que o establishment político está sempre algumas jogadas à frente, influenciando até mesmo as pessoas que pedem AI-5, armando o terreno o tempo todo para derrubar Bolsonaro.

Entendo que as pessoas querem uma ação dura contra os inimigos na Nação, mas a forma como isso está sendo pedido precisa ser revista. Pedir intervenção é um sinal de desespero, de falta de organização e de perspectiva. O que não significa que quem não pede saiba o que está fazendo. O fato é que não se alcança grandes objetivos sem um plano, sem organização, sem hierarquia, sem disciplina, sem muito trabalho e paciência.

Confira no vídeo o comentário. No próximo, falarei sobre o que aconteceria se houvesse a tal "intervenção com Bolsonaro no poder" que muitos gostariam.

Herbert Passos Neto

Jornalista. Analista e ativista político.

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