O que pensar após o rompimento de Bolsonaro e Moro

Não é possível saber como reagir a uma situação complexa como a que vivemos após esta sombria sexta-feira, 24 de abril, sem a perspectiva histórica. Onde estamos e para onde queremos ir é um bom começo para sabermos o que pensar após o rompimento de Bolsonaro e Moro.

A CONJUNTURA HISTÓRICA

Não é possível compreender tudo o que está acontecendo sem conhecer a História do Brasil e a conjuntura histórica em que os fatos ocorrem.

Inaugurada a Nova República em 1988, o Brasil entrou em um período histórico de governos de centro-esquerda e esquerda fizeram reformas boas e ruins e que ampliaram o tamanho do Estado. Na política, o conservadorismo foi praticamente criminalizado. Enquanto a economia caminhou razoavelmente, a sociedade suportou.

Houve dois pequenos ciclos econômicos que causaram sensação de progresso e que anestesiaram a sociedade. A vitória sobre a inflação e o boom das commodities e do crédito garantiram a Fernando Henrique Cardoso e Lula a tranquilidade para aplicar a agenda de centro-esquerda e esquerda, respectivamente.

Todavia, alguns problemas e tensões graves seguiam vivos e alimentados no período, embora anestesiados. A ampliação da dívida pública a níveis estratosféricos, o aumento da carga tributária, a pandemia de corrupção, o desequilíbrio de representatividade democrática que sufocava as forças conservadoras que, embora majoritárias, eram proibidas são alguns exemplos do legado pós-1988.

A recessão econômica da década de 2010, a maior da nossa história, fez a bomba explodir. Combinada com a descoberta do maior esquema de corrupção da história da humanidade, o povo brasileiro compreendeu a necessidade de romper com os alicerces da Nova República que prometeu o paraíso e entregou corrupção, manutenção da miséria e da falta de saneamento básico, uma carga tributária escandinava e serviços públicos de nível zimbabuano.

A VITÓRIA DE BOLSONARO

Neste quadro foi eleito um presidente com uma agenda conservadora, comprometido em romper com o presidencialismo de coalizão que nosso sistema constitucional impõe ao Poder Executivo, cujo combustível é a corrupção estrutural. Em resumo: Bolsonaro jogou uma bomba atômica sobre os interesses dos grupos políticos e econômicos mais poderosos do país.

Não nos parece muito difícil concluir que esse rompimento de Bolsonaro com esquemas históricos – e com o agravante de representar uma força política conservadora que até então era proibida tacitamente de se manifestar – iria gerar uma reação proporcional.

É indiscutível que há dezesseis meses o Brasil passou a ter o interesse público no centro das decisões governamentais. Os financiadores de campanhas eleitorais, os lobistas, as forças políticas e sociais privilegiadas presentes no Parlamento e o poder econômico encontraram uma barreira nunca antes conhecida.

A REAÇÃO

Desde bem antes da vitória eleitoral de Bolsonaro todos esses vetores de poder que se opõem a ele buscam formas de destruí-lo. O problema é que não existe nada de relevante a dizer sobre ele e que o desabone. Ainda mais em uma quadra histórica em que nos vimos diante do maior esquema corrupto jamais conhecido.

Há pelo menos dois anos temos visto essa máquina de moer reputações tentando destruir Bolsonaro, um homem simplório e limitado como ele próprio reconhece, por meio de pequenas denúncias, narrativas falsas, picuinhas em relação a sua falta de traquejo litúrgico, tudo isso amplificado com ares de escândalos do Mensalão ou do Petrolão.

CONTATO DIRETO COM O POVO

Bolsonaro tem se defendido disso com a arma que o elegeu. A internet permite ao presidente e à sua militância levarem ao grande público a verdade sem intermediários. Isso dificulta a vida da ação opositora, porém, não é suficiente para evitar uma sucessão de crises.

O QUE ESTÁ EM JOGO?

A importância de ter a perspectiva histórica do que estamos vivendo é que ela nos ajuda a não nos perdermos neste emaranhado de boatos, pequenas picuinhas e falsos escândalos. O que está em jogo é a luta do interesse público contra o interesse de grupos que sempre foram favorecidos pelos governos da ocasião. A sociedade brasileira precisa decidir o que deseja:

Queremos uma mudança jamais vista na relação do público com o privado ou queremos voltar ao que sempre tivemos no passado?

O povo brasileiro acredita que quem teve seus interesses prejudicados pela eleição e pelo governo de Bolsonaro são fontes confiáveis?

Existe uma alternativa a Bolsonaro que seja conservadora e fiel ao interesse público?

O Brasil pode optar por descartar Bolsonaro, mas tem que saber antes o que isso implica. Não se trata de descartar uma pessoa, mas um projeto de diminuição do poder do Estado, de maior autonomia ao indivíduo e às iniciativas destes, de liberdade religiosa, de defesa da vida humana frente à violência e à militância abortista, da família como norte das políticas públicas, da descriminalização da atividade empresarial, da desoneração dos mais pobres, de uma educação libertadora e não orientada pela visão de mundo de educadores-militantes, da autonomia dos pais e responsáveis na educação dos filhos, dentre outras pautas e princípios que nunca antes receberam tamanha atenção.

A decisão é do povo. As consequências também.

Thiago Rachid

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da Redação

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