O “divórcio” de Bolsonaro e Moro: Houve adultério?

Todo aquele que já acompanhou uma história de divórcio sabe que tais separações têm um aspecto comum: frequentemente ambas as partes têm suas razões para a separação, a qual, por mais amigável que possa ser, acaba trazendo mágoas.

Em geral, é difícil tomarmos o partido de uma das partes. Exceto, é claro, quando um dos cônjuges cometeu, por exemplo, o indefensável adultério, o qual está fundado em um egoísmo e descaso com o outro e com a instituição mesma. Mas, na maioria dos casos, toda separação é um triste fim para uma relação que deveria ser duradoura (no caso do casamento, “até que a morte os separasse”).

Mas que podemos dizer do “divórcio” entre Bolsonaro e Moro?

Em minha opinião, o primeiro ponto a ser considerado é o seguinte: Moro representou a figura da moralidade no governo Bolsonaro. Ele construiu essa imagem pois foi um juiz implacável que assegurou que o PT não lograsse sucesso em seu projeto de dominação integral do Brasil, um projeto que envolveu ‘mensalão’, ‘petrolão’ e tantas outras práticas de crime organizado que quase destruíram o Brasil (econômica e moralmente).

Sem Moro, os planos do PT não teriam sido freados. Moro conseguiu colocar diques aos avanços da esquerda (especialmente do PT) e de suas práticas corruptas e corruptoras.

Obviamente, ele não acabou com a corrupção, uma vez que isso seria impossível. Não vivemos em Utopia. No mundo real, com pessoas reais, a corrupção sempre surge. Dir-se-ia que a corrupção faz parte da natureza humana, a qual é falível (moral e epistemologicamente).

Mas, em suma, devemos muito a Moro pela sua atuação como juiz (mas, insisto: especialmente em suas ações em crimes ligados ao PT, cujo projeto foi duramente contido por ele).

Assim, logo após sua vitória na eleição presidencial de 2018, em reconhecimento aos feitos extraordinários de Moro como um juiz aparentemente justo e imparcial, Bolsonaro convidou-o para ocupar o cargo de Ministro da Justiça e Segurança Pública, cargo do qual ele agora, como político, se exonera.

Mas o ponto é que, ao aceitar o cargo de ministro e abrir mão da magistratura, Moro tomou não apenas a decisão de se associar a Bolsonaro (com o qual ele nunca pareceu ter maiores afinidades, antes e depois das eleições), ele sobretudo aproveitou a oportunidade para ingressar na política, o que talvez já fosse parte de suas pretensões (muito provavelmente ele aceitaria esse cargo se fosse outro o presidente eleito).

Ou seja, ele deixou de ser juiz e se tornou político. E, como político, penso que ele já não poderia pensar e agir como juiz.

São papéis distintos, com aspectos também distintos, muitas vezes divergentes.

Como juiz ele poderia simplesmente aplicar a lei, ainda que para prender um ex-presidente corrupto. Mas, como político, ele já não poderia agir da mesma maneira. Nem sempre ser um bom político significa ser justo.

A fala dele, ao anunciar sua exoneração, por exemplo, em vários momentos o mostraram como político (e, portanto, focado mais em si mesmo do que na justiça): falou em “desmandos” do governo Bolsonaro, revelou conversas privadas que teve com Bolsonaro (e com sua “amiga”, a deputada Carla Zambelli), lançou suspeitas sobre o presidente e deixou “no ar” a possibilidade de ser candidato a cargo eletivo (presidente em 2022?) ao falar que ao entrar na política entrou em um “caminho sem volta”, bem como que estava à disposição para “ajudar o Brasil”.

Ou seja, vemos claramente indícios de proselitismo em sua fala, seja para ser candidato a cargo eletivo seja para aceitar alguma posição que venha ser eventualmente oferecida a ele.

Não obstante, apesar de estar disposto a “ajudar o Brasil”, seu discurso de exoneração em nada ajuda o Brasil. Pelo contrário, cria uma crise desnecessária em um momento delicado (em que há, em curso, um projeto para desestabilizar e derrubar o presidente Bolsonaro, bem como em que há uma crise econômica talvez sem precedentes, causada pelo isolamento social imposto arbitrariamente por prefeitos e governadores), assim como dá subsídios para que a esquerda (na grande mídia, por exemplo) ataque implacavelmente o governo.

Na verdade, se fossemos usar uma metáfora militar, poderíamos pensar nele como um desertor.

Ele fazia parte de um exército combatendo em uma guerra cultural e política, uma guerra entre um governo que representa o conservadorismo e o liberalismo, pilares da civilização ocidental, e uma esquerda que visa o colapso desses pilares.

Ao se exonerar ele correu imediatamente para o outro lado, oferecendo ao inimigo supostos dados que podem ser usados para semear desinformação na sociedade (para desestabilizar o atual governo federal).

Mas penso que cabe, aqui, insistir na distinção entre o ‘Moro juiz’ e o ‘Moro político’.

O ‘Moro juiz’ é aquele do qual guardamos uma imagem de homem justo e implacável contra o PT. Um símbolo de justiça e moralidade, das quais somos imensamente carentes, especialmente após o domínio petista.

Mas e quanto ao ‘Moro político’? Quais são realmente suas posições políticas?

Em algum momento ele esteve integrado ao projeto de Bolsonaro para o Brasil, um projeto que é, também, o projeto do povo brasileiro?

Com efeito, penso que o ‘Moro político’ nunca esteve plenamente alinhado com o projeto de governo que Bolsonaro propunha.

Alguns fatos dão conta de nos mostrar esse “desalinhamento”.

Por exemplo, em 2019, o ‘Moro político’ nomeou a cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Ao saber da nomeação, Bolsonaro imediatamente a exonerou. E isso por uma razão simples: Szabó preside o Instituto Igarapé, o qual recebe generosos subsídios de George Soros e de sua ‘Open Society’ (estando, pois, alinhada com sua ideologia abortista e sua defesa de pautas ligadas à ‘ideologia de gênero, por exemplo).

Como é notório, a ‘Open Society’ financia ONGs de esquerda que assumam pautas abortistas, desamarmentistas, de liberação das drogas, antípolícia e contrárias à tradição e aos valores familiares tradicionais.

Não apenas isso, próxima de FHC (que também é próximo a Soros), ela foi uma das vozes públicas contra Bolsonaro em 2018.

Aliás, cabe observar que o ‘Moro político’ tem simpatia por pautas do socialismo Fabiano, como o desarmamento da população.

Sua indicação de Szabó é, nesse sentido, reveladora. Ao indicá-la ele indicou, também, tudo aquilo que ela defende e representa. Muitas dessas pautas são avançadas, aliás, pela ONU e seu Pacto Global, ao qual está ligado, curiosamente, o escritório de advocacia da esposa de Moro.

Para aqueles que não estão familiarizados com a ideia de socialismo Fabiano, ele remete ao surgimento, em Londres (1883), da Sociedade Fabiana, a qual pretendia condicionar a sociedade mediante a inserção gradual e sutil de ideias socialistas na cultura.

Ao invés da revolução, a qual seria brutal (e ineficiente), o socialismo Fabiano sempre pretendeu se inserir de maneira quase imperceptível na sociedade, fazendo com que as pessoas se tornem socialistas sem o saber. Sociedades como a ‘Open Society’ e o Instituto Igarapé representam exatamente esse projeto. Partidos como PSDB o fazem no âmbito político.

Dessa forma, embora duro com o PT, o ‘Moro político’ sempre me pareceu mais próximo à ideologia do PSDB (e de seu socialismo Fabiano) do que ao projeto do presidente Bolsonaro, claramente avesso ao socialismo em todas as suas formas.

Por exemplo, diante da atual crise criada ao redor da pandemia do coronavírus, o ‘Moro político’ demonstrou, contrariando a posição do presidente da república, condescendência em relação às ações de prefeitos e governadores que estão, desde o início da pandemia, violando as liberdades individuais, prendendo, por exemplo, cidadãos por simplesmente estarem em espaços públicos.

O ‘Moro político’ pareceu estar em acordo com os prefeitos e governadores que, de forma ditatorial, violaram direitos fundamentais em nome de uma suposta preocupação com a saúde pública.

E, não esqueçamos, a esquerda está aproveitando de forma oportunista a pandemia para levar a efeito seu projeto. Estamos em uma guerra cultural contra o avanço da agenda da esquerda em nossa cultura e sociedade, sendo que pela primeira vez temos um presidente ao nosso lado, capitaneando nossos esforços.

O ‘Moro político’, por seu turno, nunca pareceu estar integralmente conosco nessa cruzada. Ele sequer saiu em defesa do presidente quando esse sofreu ataques torpes por parte de prefeitos e governadores. Tampouco se manifestou diante da tentativa de golpe contra Bolsonaro.

Somente o ‘Moro juiz’ estaria preocupado com a justiça?

Além disso, outro ponto que chamou a minha atenção nas falas do ‘Moro político’ e do presidente Bolsonaro foi, a meu ver, revelador: o ‘Moro político’ afirmou “tenho uma biografia a zelar”, ao passo que, contrapondo-se a ele, Bolsonaro disse “tenho o Brasil a zelar”.

Por que tais afirmações são, a meu ver, reveladoras?

Ora, fica claro que o projeto de Bolsonaro é um projeto pelo Brasil e suas instituições. Ele foi literalmente esfaqueado, bem como foi apunhalado metaforicamente inúmeras vezes. Ele tem sido por anos vilipendiado, atacado quase diuturnamente. As agressões contra ele são contínuas, ininterruptas. Não há sequer tempo para ele se defender de todos os ataques que sofre desde que assumiu a presidência. Sem falar em todas as traições por ele sofridas, especialmente desde que se tornou presidente.

Em suma, pelo Brasil ele tem entregue sua saúde e sua tranquilidade.

Assim, sem pensar em sua biografia, a qual é continuamente desdenhada, ele segue com seu projeto com vistas a engrandecer o Brasil e suas instituições, uma vez que isso significa colocar em prática o “Brasil acima de todos” (acima dele mesmo).

Ao ser esfaqueado ele estava, como militar e patriota, dando sua vida pelo Brasil.

No entanto, quando o ‘Moro político’ nos diz que “tem uma biografia a zelar”, parece-me que sua preocupação é egoísta, isto é, é com sua própria imagem e interesses pessoais. Não creio que ele teria a capacidade de Bolsonaro para se entregar pelo engrandecimento do Brasil e de nossas instituições.

Sinceramente, não creio que o ‘Moro político’ tenha colocado o “Brasil acima de todos”. Sua preocupação com a própria biografia e interesses parece indicar que ele colocou a si mesmo acima de todos (inclusive do Brasil, se considerarmos seus ataques ao presidente Bolsonaro nesse momento, os quais serão causa de agravamento da crise pela qual passamos).

Por fim, tecendo algumas considerações finais sobre o comprometimento do ‘Moro político’ com seu então presidente (e superior hierárquico), gostaria de lembrar que o diretor da PF defendido por ele foi um apoiador da “inocência” de Greenwald e de seu ‘The Intercept’ no caso dos grampos que revelaram conversas entre o próprio Moro e o Procurador Dallagnol (mensagens que sugeriam a interferência do ‘Moro juiz’ nas investigações da lava-jato).

Greenwald notoriamente tentou desestabilizar não apenas nosso presidente, mas nossas instituições.

Esse mesmo diretor da PF também manteve a tese de que Adélio Bispo teria esfaqueado Bolsonaro em uma ação solitária.

Por que o ‘Moro político’ foi ameno diante desses desdobramentos, contrariando as expectativas tanto de Bolsonaro quanto do povo brasileiro, que ansiavam por ações firmes e implacáveis?

Por que ele não pareceu preocupado, por exemplo, em esclarecer de forma mais clara o atentado contra a vida de Bolsonaro, demandando que muitas questões misteriosas fossem satisfatoriamente elucidadas?

Diante de tudo isso, penso que é legítimo colocarmos a seguinte questão: não terá o “divórcio” entre Bolsonaro e o ‘Moro político’ envolvido adultério?

Em caso de resposta afirmativa, sabemos, então, de que lado devemos estar.

Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito. Também é membro do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), sendo atualmente Diretor do DPL/RS.

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