O zagueiro Serginho... Ou só para quem entende de futebol

O cara era o melhor lateral direito da história de um certo time lá de Curitiba. Vestia a tradicional camisa da posição com o número 2. O belo uniforme preto do time lhe caia muito bem.

Impressionante a capacidade de antecipação nas jogadas.

Não deixava os atacantes se posicionarem para receberam os passes.

A atenção em cada jogada, e no jogo como um todo, era admirável. Não conseguiam colocar a bola pelas costas dele. Bloqueava magistralmente. Impecável.

Jogador de visão, tabelava com o meio do campo, fazendo o time avançar de forma consistente.

De forma responsável, sem deixar desguarnecida a retaguarda, avançava e fazia gols inesquecíveis.

Na verdade sua técnica em fazer gols superou em muito sua capacidade de defender. Passou a ser o artilheiro do time e do campeonato.

Ficou famoso e virou capa de jornais e revistas. A fama transcendeu e se tornou mundial.

Finalmente, com a troca do técnico da seleção nacional, foi convocado para participar do time, afinal era uma estrela, competente e reconhecido.

O técnico queria não só prestar a devida reverência e o reconhecimento, mas também precisava de um talento como o dele. Um goleador implacável. Avassalador de qualquer goleiro ou defensores. Derrotava-os sem dó. Não importava o time ao qual pertencessem. Não havia esquema que ele não soubesse desvendar durante o jogo.

Com sua capacidade, e com a participação do time que jogava em função dele, escancarava todas as malícias, táticas e artimanhas dos adversários. Caiam por terra. Os adversários eram derrotados sistematicamente.

Um talento inesperado em uma safra de mediocridades. Já nem lembravam que ele era um defensor.

Havia uma sintonia entre o craque e o técnico. Ambos eram avessos às pressões dos patrocinadores.

O técnico queria talentos. Não queria e não aceitava indicações dos clubes.

Queria formar uma equipe jogadores que dessem o sangue pela famosa camisa da seleção canarinho. Pela pátria de chuteiras.

Uma espécie de sentimento já em desuso pela força das marcas, do marketing duvidoso e dos meios de comunicação comprometidos apenas com o espetáculo.

A fama de goleador levou a que ele fosse escalado como um ponta de lança, ao lado de um centroavante nato!

A escalação promovida pelo técnico foi reverenciada pelos especialistas.

Nos treinos e em algumas partidas chamadas de amistosas o esquema foi bem sucedido e aparentava exulto e triunfal pelo sucesso.

Era o jogador certo no lugar e tempo certo.

Na estreia oficial do time o lateral, agora ponta de lança, brilhava e sobre ele também recaiam grande parte da esperança dos torcedores no resgate do valor do futebol arte. Jogo limpo e eficiente.

Já nos primeiros movimentos do jogo contra um adversário disposto a não perder, o nosso herói, esperança nacional, começou a dar sinais não muito positivos.

De marcador passou a ser marcado implacavelmente.

Foi desarmado sistematicamente. Ficou sem ação e sem reação. Sem criatividade. Sumiu em campo.

Saiu do time, melancolicamente, antes do fim do primeiro tempo.

Em entrevista aos repórteres, na entrada do vestiário, não reconheceu que não sabia jogar de costas para o gol e, aparentemente, culpou o técnico porque a bola é redonda.

Fim do jogo para ele.

Jorge de Mota Soares

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