O suicídio e o conselho deixado na carta pelo ator Flavio Migliaccio

Bukowski, o poeta, tentou se matar algumas vezes, mas de acordo com o próprio, faltava-lhe coragem, então ele desistia.

Ao chegar próximo da velhice, descobriu que o suicídio, de fato, já não era mais uma saída válida para ele, pois conforme afirmava, "naquela idade, já não sobrava muito que matar.”

Infelizmente, muitos jovens partiram, promovendo a própria morte, antes de atingir tal sabedoria "bukowskiana".

Eu perdi três amigos que suicidaram. Todos muito jovens. Um deles com apenas 15 anos de idade.

A vida não é fácil pra muita gente. A depressão, este grande mal do século, atinge a todos sem distinção de raça, credo, idade ou condição financeira.

Eu sofro com a depressão, mas tenho conseguido me manter, na medida do possível, com exceção dos ataques de pânico que, até hoje sem muita explicação científica, que são pavorosos e só sabe a dor, quem já provou dela.

Por estas e outras não condeno quem se utiliza de álcool, drogas ou o que quer que seja para aquietar a mente.

Amigos, família, esportes, música, sexo, meditação, Deus, tudo que tornar seu espírito mais calmo, é sempre bem vindo, pois novamente, só sabe da dor, quem prova dela, porém somos diferentes e cada um sabe, ou pensa saber, o que é melhor para si.

Julgamentos são falhos!

Tudo é aparência, tudo é ilusão.

Elvis era depressivo e praticamente se matou, assim como tantos outros astros e estrelas, ricos, lindos, famosos e infelizes, provando que a felicidade pode não estar no gesto mais simples e nem no evento mais luxuoso.

Hoje, o ator Flavio Migliaccio, figura carimbada na história da TV brasileira, pôs fim à própria vida aos 85 anos de idade.

Qual o sentido de se matar, sem ter nenhuma doença grave e fatal, ao fim do círculo natural da vida?

Tudo é um eterno mistério e a mente humana continua sendo um labirinto de espelhos do qual ninguém, absolutamente ninguém, tem acesso ao mapa.

O ator, que estava em atividade, deixou uma carta onde dizia ter vivido 85 anos "jogados fora" e também estar decepcionado com o país e, especialmente, com o tipo de gente que ele acabou encontrando durante sua vida.

Para quem viveu mais da metade dela em cima dos palcos ou frente às câmeras de TV, acho que fica claro a mensagem de que a ilusão das novelas ou dos filmes, assim como a fama, são efêmeras e vazias.

Nada é o que parece ser.

"Cuidem das crianças", finalizou o ator, pouco antes de se enforcar.

Fica a reflexão:

O que as crianças têm assistido?

O que elas tem ouvido, consumido, desejado?

Quais são seus sonhos ou suas referências?

Eis aí uma pista para um mundo melhor?

Descanse em paz, nobre ator.

Publicado originalmente na página Toca do Lobo.

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da Redação

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