A impostura do ‘isolamento social’ e seus danos à saúde pública

“É evidente que o homem, muito mais que a abelha ou outro animal gregário, é um animal social”. Aristóteles

Recentemente visitei o site ‘Portal da Transparência’ da ARPEN (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), o qual é “desenvolvido para disponibilizar ao cidadão informações e dados estatísticos sobre nascimentos, casamentos e óbitos, entre outros conteúdos relacionados”.

Em uma sessão dedicada ao covid-19 encontramos alguns dados que nos fazem refletir sobre a atual histeria criada em torno da tão galhardeada “pandemia” do coronavírus.

Com efeito, nessa sessão encontramos algumas interessantes estatísticas.

Segundo o site, “as estatísticas aqui apresentadas se baseiam nas Declarações de Óbito (DO) registradas nos Cartórios do País relacionadas à covid-19 e causas respiratórias relacionadas em dois grandes grupos: pneumonia e insuficiência respiratória”. Mas que referências encontramos nessas estatísticas?

Resolvi ver o caso do meu estado, o Rio Grande do Sul. Ao pesquisar pelo número de óbitos por insuficiência respiratória e pneumonia no período que abrange 01 de janeiro a 04 de maio encontrei o seguinte: em 2019 tivemos 3465 mortes por insuficiência respiratória e 4079 por pneumonia. Em 2020 foram 3348 e 3930, respectivamente. Ou seja, o índice de óbitos registrado em 2020 foi menor do que o índice de 2019 no mesmo período, e isso para ambas as causas de morte.

Nesse mesmo período, ainda segundo o registro da ANPERN, tivemos 59 óbitos com suspeita de covid-19 (vejam: “suspeita” – talvez não tenhamos nem 59 óbitos por covid-19). Mas, se somarmos aos casos acima (de 2020) esses 59 (com “suspeita” de covid-19) não teremos, apesar da histeria vigente, o mesmo número de óbitos por doenças respiratórias e pneumonia que tivemos em 2019.

Em resumo, as funerárias, que deveriam estar supostamente faturando muito em meio a essa tão alardeada pandemia, não estão tendo lucros tão elevados assim. Na verdade, as funerárias estavam lucrando mais em 2019, sem o covid-19, do que em 2020.

Vejam mais alguns dados interessantes: ainda na ARPERN encontramos que em abril de 2020 tivemos 94129 óbitos no Brasil. Em 2019 foram 99597 óbitos no total. Sem focarmos nas realidades regionais, descobrimos que em abril de 2019 morreram no Brasil mais pessoas do que abril de 2020.

Não obstante dados como os acima revelados, a narrativa imperante é a assustadora (e tétrica) descrição de uma pandemia terrível que está sobrecarregando o sistema de saúde e, em consequência, as funerárias. No entanto, são muitas as imagens de alas hospitalares praticamente vazias, bem como dados como os que mencionei acima. Isso deveria nos tornar ao menos céticos quanto à narrativa central que ocupa a grande mídia, não é mesmo? Afinal, talvez encontremos algumas verdades nas margens. E essas verdades estão relacionadas a dados e fatos como os acima referidos.

Outro ponto importante de ser colocado em debate é o seguinte: estando o sistema de saúde agora desafogado, o que esperar do futuro, quando for declarado o fim da pandemia? Ou, ainda, quais as implicações do atual esvaziamento do sistema de saúde?

Com efeito, no portal do Conselho Federal de Medicina (CFM) lemos um comunicado aos médicos brasileiros que afirma o seguinte: “os leitos hospitalares devem ser destinados prioritariamente aos pacientes com quadros graves de covid-19. Recomenda-se aos gestores a suspensão dos atendimentos ambulatoriais e de procedimentos eletivos. [...] Todas as consultas médicas eletivas devem, preferencialmente, ser suspensas”.

Embora seja uma “recomendação”, ela está em prática em muitas instituições de saúde pelo Brasil, o que explica seu esvaziamento.

Ora, mas cabe perguntar: quais serão as consequências desse esvaziamento para a saúde pública?

Ocorre-me que teremos, muito provavelmente, uma sobrecarga do sistema de saúde por conta de outras doenças.

Estamos, nesse momento, a meu ver, criando uma gigantesca ‘demanda reprimida,’ a qual provavelmente “explodirá” tão logo seja anunciado o fim da pandemia pelo covid-19.

Isso ocorre porque atualmente muitos pacientes não estão buscando o sistema de saúde, seja para consultas, seja para exames e para cirurgias consideradas “eletivas” (em acordo com a citada nota do CFM).

No entanto, ainda que algumas doenças não sejam inicialmente graves, elas podem trazer complicações gravíssimas para o paciente.

Alguém com cálculo biliar ou renal, por exemplo, que agora está em casa tomando analgésicos, poderá ter complicações graves. Mas nesse momento, caso ele não esteja em situação considerada grave (apesar de eventuais dores), sua cirurgia é considerada “eletiva”. Portanto, ele deve aguardar ou pelo fim da pandemia ou pela sua situação se tornar uma emergência.

Outro caso dramático, esse ocorrido nos USA e relatado pelo site Angioplasty.org, revelou que no período de 30 de março a 5 de abril o número de casos de morte de ataque cardíaco em casa (em Nova York) aumentou 8 vezes em relação ao mesmo período de 2019, sendo que houve uma redução de mais de 50% no tratamento de pessoas com problemas cardíacos em emergências de hospitais.

Ou seja, as pessoas estão ficando em casa mesmo quando surgem sinais de um infarto eminente. Dores que antes as levariam a um atendimento de emergência agora estão sendo suportadas em casa. Tudo para não “sobrecarregar” o sistema de saúde que, como o comprovam muitas imagens, está com enfermarias vazias à espera de casos de doentes pelo covid-19 que não chegam.

Aqui no Brasil, por exemplo, representantes da saúde do estado de Minas Gerais revelaram que o atendimento que era, em média, de 300 pessoas por dia, é, hoje, de 50.

Disso se depreende que as pessoas pararam de adoecer de outras doenças? Obviamente, não. Elas simplesmente estão doentes em casa. Isso deverá agravar, por exemplo, casos oncológicos que estão sem o devido acompanhamento (e tratamento). Sem falar nos problemas cardíacos. O índice de implantes de marcapassos caiu a quase zero em algumas regiões do Brasil.

Será que houve um “milagre” e as pessoas já não têm problemas cardíacos?

Infelizmente, não, uma vez que houve também um crescimento no número de infartos.

Ou seja, mesmo com indícios de que algo está errado as pessoas ficam em casa até que a situação se agrave, às vezes fatalmente.

Em suma, dado o foco quase exclusivo no covid-19, muitos pacientes, especialmente do SUS, estão em casa sem assistência médica. Dado não serem considerados casos emergenciais, muitos deles estão sem realizar exames, cirurgias (consideradas “eletivas”), tratamentos, etc. Muitos, inclusive, não estão sendo avaliados para que se possa ver se sua medicação permanece adequada ou não. Diversos pacientes com problemas cardíacos, diabetes, etc, dado não representarem casos “graves”, estão desassistidos nesse momento. Exames que nesse momento não estão sendo feitos poderiam identificar o início de um câncer, permitindo uma intervenção precoce e eficiente.

Mas o que quero dizer é que disso tudo deverá advir, após a declaração do fim da pandemia, um extravasamento da “demanda reprimida”, o que inevitavelmente sobrecarregará verdadeiramente o sistema de saúde, o qual é tradicionalmente atulhado (exceto agora, nessa “pandemia” do coronavírus). Esse é um risco que sequer tem sido considerado na discussão vigente nas correntes dominantes que demandam o isolamento.

Enfim, são muitas as colateralidades desse isolamento imposto, mesmo no âmbito da saúde. Há, inclusive, os efeitos psicológicos (saúde mental).

Segundo dados da ouvidoria do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, houve um crescimento preocupante da violência doméstica, sendo que os mais atingidos são os vulneráveis, como mulheres, idosos, crianças e pessoas com alguma deficiência.

Esse crescimento tem sido verificado pelo alto registro de violações no portal da ouvidoria nacional de direitos humanos. O crescimento de casos foi reconhecido a partir do anúncio do isolamento social para o combate do coronavírus.

Afinal, diferentemente do que ocorre com aqueles que defendem romanticamente o isolamento (e a hashtag ‘fique em casa’), algumas pessoas, justamente as mais frágeis, vivem amontoadas em cubículos sem conforto, sem Netflix, sem geladeiras e despensas abastadamente abarrotadas e outras benesses.

Sem falar que milhões delas perderam, com o isolamento, suas fontes de renda. Ou seja, estão sob intenso stress (eventualmente com depressão e ansiedade) e muitas vezes extravasam em atos de violência, dado não terem acesso a tratamentos medicamentosos e/ou psicoterápicos (disponíveis, cabe notar, para os seguidores do ‘fique em casa’).

Mas há outras colateralidades. Há pesquisas bem estabelecidas que mostram, por exemplo, que o isolamento causa danos à saúde mental do indivíduo.

Em um artigo (intitulado “The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidences”) publicado recentemente no periódico médico ‘The Lancet’ (um dos mais antigos e importantes do mundo), Louise E Smith, Lisa Woodland, Simon Wessely, Neil Greenberg e Gideon James Rubi demonstram que, durante a epidemia de SARS (síndrome respiratória aguda grave) em 2002, o isolamento causou stress pós-traumático em 29% da população isolada, bem como depressão em 31%.

Isso é, obviamente, um grave problema de saúde pública. Não obstante, ele não está entrando, nesse momento, na equação daqueles que estão demandando dogmaticamente o isolamento.

É como se nesse momento houvesse apenas uma doença, apenas uma causa de morte: o covid-19.

O que eles não revelam é que a letalidade do covid-19 é baixíssima no Brasil.

De acordo com dados do Worldometer (pertencente à empresa de dados DADAX, ele fornece contadores e estatísticas em tempo real para diversos tópicos), o Brasil tem em média 28 mortes por milhão de habitantes. Ou seja, não temos a tal “explosão de mortes” tão mórbida e ardentemente anunciada pela grande mídia (e supostos “especialistas”).

Além disso, o covid-19 está mais forte em algumas regiões (como São Paulo e Rio de janeiro), sendo que há locais em que são pouquíssimos os casos de agravamento da doença (como aqui no Rio Grande do Sul).

Não seria o caso de afrouxarmos, então, o isolamento em algumas regiões?

E isso pensando não apenas na economia, mas na saúde pública mesma?

Não seria o caso de considerarmos uma intervenção mais razoável, visando evitar a futura sobrecarga do sistema de saúde?

Além disso, como tem dito o epidemiologista sueco Johan Giesecke (Professor emérito do Instituto Karolinska, em Estocolmo, bem como consultor da Agência de saúde pública da Suécia – tendo também passado, como médico infectologista, pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres), e isso em uníssono com diversos outros pesquisadores altamente relevantes, “o número de mortes por covid-19 será quase o mesmo em todos os países europeus”, independentemente de terem adotado o isolamento ou não.

E, lembremos que a Suécia não adotou o isolamento, sendo hoje indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um “modelo” a ser seguido.

Com efeito, Johan Giesecke foi um dos responsáveis pela maneira como a Suécia vem lidando com o covid-19.

Assim, a Suécia foi mais razoável: colocou em quarentena especialmente idosos e grupos de risco, limitou eventos a no máximo 50 pessoas, etc. Não impôs uso de máscaras, tendo apenas recomendado às pessoas que mantivessem alguma distância umas das outras.

Ainda segundo Giesecke ao falar sobre países que adotaram o isolamento, o “isolamento nunca deveria ter começado”.

Nós, em contrapartida, temos sido determinados por prefeitos e governadores que seguem as orientações de sujeitos irrelevantes pouco preocupados seja com a saúde pública seja com a economia.

E isso ou por mera mediocridade ou por má fé, motivados por suas idiossincrasias (de esquerda). Sem falar no interesse de prefeitos e governadores em gastar recursos públicos sem licitações.

Além disso, a União está, nesse momento, sobrecarregada com o custo da pandemia, oriundo sobretudo do estancamento da economia.

Ela está precisando empregar recursos que não estavam previstos no orçamento projetado para 2020. E não estamos falando de poucos recursos, mas de bilhões.

Nesse sentido, quando tivermos a erupção da “demanda reprimida”, haverá muito provavelmente uma procura imensa pelo sistema de saúde, o que poderá gerar um assustador colapso.

Não apenas a União está tendo agora um inesperado gasto bilionário, mas a arrecadação caiu (e seguirá caindo) vertiginosamente.

A explosão de uma “demanda reprimida” talvez exija mais recursos humanos e financeiros que teremos à disposição.

Em minha opinião esse cenário se seguirá da imposição desse isolamento social, o qual trará incontáveis prejuízos seja para a economia seja para o nosso já alquebrado sistema de saúde.

Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito. Também é membro do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), sendo atualmente Diretor do DPL/RS.

da Redação

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