Majestades e gafanhotos

O profeta Joel não conheceu Padre Antônio Vieira, mas Vieira pregou na Bahia, em 1641, perante o vice-rei, Marquês de Montalvão, protestando contra a roubalheira, a desonestidade, as injustiças, os desmandos e os abusos que os portugueses colonizadores faziam no Brasil.

Eis o que disse:

“...porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm buscar nossos bens... El-rei manda-os tomar Pernambuco e eles contentam-se com o tomar. Toma nesta terra o ministro da justiça? Sim, toma. Toma o ministro da república? Sim, toma. Toma o ministro da fazenda? Sim toma. Toma o ministro do Estado? Sim, toma”.

Assim tomaram tudo o que os brasileiros possuíam e deixaram aqui os vícios das “Majestades” colonizadoras Portuguesas.

Padre Antônio Vieira não conheceu o Profeta Joel, mas este proferiu em termos bíblicos:

“O que deixou o gafanhoto Cortador, comeu o gafanhoto Migrador; o que deixou o gafanhoto Migrador comeu o gafanhoto Devorador; o que deixou o gafanhoto Devorador comeu o gafanhoto Destruidor”. Joel. 1:4.

Os gafanhotos do Profeta Joel atravessaram o oceano e pousaram no Brasil. Durante a travessia ocorreu algo fantástico, seus corpos foram se transformando e adquirindo características de homo sapiens: ganharam pernas e braços, suas asas se modificaram em luxuosos paletós, suas cabeças de insetos da ordem do ortópteros adquiriram formas humanas; ganharam voz; suas patas foram ornadas por sapatos brilhantes, seu apetite voraz por vegetais se transformou em gosto por dinheiro, por vinhos finos, comidas caras, luxo, muito luxo e privilégios. Da forma original mantiveram a voracidade, o ataque sem clemência aos cofres públicos. Fizeram de Brasília sua casa.

Os gafanhotos CORTADORES aterrissaram no Supremo Tribunal Federal. Com suas roupas e capas pretas apavorantes, impõem a vontade individual e coletiva ao País. Nada nos livra deles. Nem interpretações corretas, nem argumentos. Eles têm poder Supremo.

Com sua verborragia incompreensível cortam, retalham, estragam, intimidam qualquer um que lhes caia entre os dentes afiados, mas não fazem o serviço completo, deixam sempre uma brecha, para que outros venham terminar o que começaram. Os Cortadores revisam, vão revisando, sempre revisando, revisando tudo que seja de seu interesse.

Os gafanhotos MIGRADORES apossaram-se da Imprensa, e seu maior representante é a Rede Globo, na pessoa de Bonner. Liderando a nuvem barulhenta, o Migrador dá o tom da destruição, mastigando e vomitando, todos os dias, notas e mais notas contra o governo, sempre cortando o que sobrou daquilo que deixou o gafanhoto Cortador. É o porta-voz da destruição. É o que anuncia a chegada do apocalipse, todos os dias, na terra Tupiniquim.

Os gafanhotos DEVORADORES confiscaram a Câmara dos Deputados. Ali a nuvem trabalha intensamente farejando onde estão os recursos; nada escapa a seu apetite. Cercam todas as verbas e as comem por dentro, e quando elas chegam ao seu destino, nos Municípios, estão tão desidratadas que as obras colossais prometidas por eles ao povo se transformam em placas.

Os gafanhotos DESTRUIDORES apoderaram-se do Senado. É o grupo que possui maior poder de aniquilamento, retificam tudo o que fazem os Gafanhotos Devoradores, eles têm o poder de controlar e banir os Gafanhotos Cortadores, mas trabalham em comum acordo com eles. Não deixam pedra sobre pedra. Operam aniquilando tudo e completando o serviço dos outros três.

Desse modo as “Majestades” colonizadoras e os “Homens-Gafanhotos” insaciáveis consomem nossa Pátria. Não há acordo com eles. Atemorizam nossas almas e nossos bolsos.

Não, não são encontrados apenas em Brasília, eles se reproduzem aos milhares em “filhotinhos de gafanhotos” e “majestades” por todos os municípios do Brasil.

Provocam prejuízos incalculáveis e são responsáveis pela maior parte da miséria em que vivem os brasileiros.

Seu ziziar enfadonho entorpece a população e com a mesma voracidade com que avançam nos recursos públicos, elaboram discursos mostrando como são úteis, como são necessários, como a população precisa deles para sobreviver.

Sim, Senhores, os “Gafanhotos” do Profeta Joel e Sua “Majestade” Portuguesa colonizadora estão de mãos dadas, entrelaçadas, como zumbis ressuscitados, devoram rapidamente nossa jovem Democracia e atacam o povo, apontando o dedo para os que protestam contra eles dizendo que são agredidos. Utilizam o velho truque das esquerdas de acusar os outros daquilo que estão fazendo. Cometem os mesmos delitos que os portugueses, as mesmas irregularidades, as mesmas desídias, os mesmos descasos, as mesmas irresponsabilidades.

É imperioso protestar e refletir que é preciso temperar novamente o caráter da raça, nos refazermos como povo e nacionalidade, livres dos vícios da colonização que nos oprime até hoje.

Carlos Sampaio. Professor. Pós-graduação em “Língua Portuguesa com Ênfase em Produção Textual”. Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

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