“Rezar é pensar no sentido da vida”: Como a perda da religiosidade está causando uma perda de sentido

“Rezar é pensar no sentido da vida”
“O sentido da vida, isto é, o sentido do mundo, nós o chamamos de Deus”
Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

Nas últimas décadas temos acompanhado uma assustadora descristianização do mundo ocidental. Diante disso, perguntemo-nos: tal descristianização não estará tendo efeitos deletérios sobre a humanidade, especialmente sobre os jovens?

Primeiramente, vejamos alguns dados. Um estudo da universidade St. Mary, de Londres, feita (2014-2016) em doze países europeus com jovens de 16 a 29 anos revelou algo que já podemos perceber empiricamente, a saber, que a maioria deles se declara descrente, bem como que nunca foi a uma Igreja ou rezou.

Dos países pesquisados, os que revelam menos religiosidade entre os jovens são República Checa (nela 91% dos jovens dizem não ter filiação religiosa) Estônia, Suécia e Holanda, nos quais entre 70 e 80% dos jovens afirmam não ter religião. Mas em outros países os números são também inquietantes. Na França 64% dos jovens manifestam não ter religião; na Espanha, 55%.

De qualquer forma, o fato é que em todos os países pesquisados a maioria dos jovens revela que não tem religião. Diante dos dados, Stephen Bullivant (Professor de Teologia e Sociologia da Religião da universidade St. Mary, coordenador da pesquisa aqui referida), declarou que “a religião está moribunda na Europa”.

Com exceção da Polônia (em que “apenas” 17% dos jovens se declararam sem religião) e da Lituânia (em que “apenas” 25% afirmaram não ter religião), a Europa passa por um crescente, e talvez irreversível, processo de descristianização.

Aliás, mesmo em países com maior número de “crentes” (como Polônia e Lituânia) a maioria deles, embora assuma ser religiosa, não frequenta atividades religiosas. Ou seja, essa maioria se diz religiosa, mas não frequenta a Igreja. Em todos os casos, muitos nunca foram sequer a uma única celebração religiosa ao longo de suas vidas.

E o fato é que os dados dessa descristianização seguem crescendo (não apenas na Europa, mas no Ocidente de uma maneira mais abrangente). Agora, voltemos à questão inicial: esse fenômeno estará tendo consequências lesivas especialmente sobre a juventude?

Vejamos, agora, outros dados. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) há, no mundo, um suicídio a cada 35 segundos (a taxa de suicídio pode ser ainda maior, pois muitos suicídios não são oficializados, seja pelo preconceito em torno do problema seja porque em alguns países é crime).

Além disso, segundo a Associação Internacional de Prevenção de Suicídios, de 1950 a 1995 houve um crescimento de 60% no número de suicídios. Em relatório divulgado no ano passado (2019) a OMS divulgou que a taxa de suicídios na Europa foi de 12.9 para cada mil habitantes.

E algo que chama a atenção é o fato de que o maior percentual de suicídios é identificado em países de alta renda. Ou seja, a questão econômica, ainda que possa estar relacionada com esse flagelo, tem um papel exíguo nesse índice.

Além disso, focando agora na juventude, os dados mostram que, entre os jovens, o suicídio é a segunda causa de morte não natural (a primeira é composta por acidentes de trânsito). Portanto, o suicídio é um sério problema em diversas perspectivas, o que inclui, obviamente, a saúde pública. Mas ele é, antes de tudo, um problema humanitário.

E, se não bastasse a calamidade do suicídio, ainda há o declínio dos nascimentos. Na Europa, por exemplo, os baixíssimos índices de natalidade impossibilitam a manutenção do seu nível populacional. Dados recentes apontam que a taxa de fecundidade na Europa (de filhos por mulher fértil) caiu para 1.5 filhos, sendo que o necessário para manutenção do nível populacional é de 2.1 filhos por mulher fértil.

Ou seja, além de terem poucos filhos, uma parte considerável deles comete suicídio antes mesmo de se reproduzir.

Certamente diversos fatores contribuem para o quadro descrito acima, como questões sociais e econômicas, por exemplo. Mas há um fato importante aqui, o qual pode ser, segundo vejo, correlacionado com a descristianização da Europa. Ou seja, ainda que a descristianização não seja a causa do crescente índice de suicídios, tampouco da queda de natalidade, penso que há, aqui, uma correlação fortíssima.

Assim para que possamos compreender esse ponto penso que precisamos ir às causas da ascensão e prosperidade da Europa, o que nos remete diretamente a um fenômeno paralelo ao seu desenvolvimento: o desenvolvimento do Cristianismo. Sobre sua importância para o estabelecimento da cultura inclusive já escrevi outro texto aqui no JCO:

(também recomendo fortemente um documentário conduzido pelo historiador Thomas Woods, cujo link colocarei ao final desse texto. No documentário Woods nos mostra como a Igreja construiu a civilização Ocidental).

Mas o que quero explorar aqui é a questão do sentido, do propósito, algo inerente à religião. E isso por uma razão simples: como disse o filósofo Wittgenstein (em seus ‘Notebooks’), “rezar é pensar no sentido da vida”. Ou seja, uma vida sem oração é uma vida sem sentido. Daí ele afirmar também, no mesmo contexto, que “o sentido da vida, isto é, o sentido do mundo, nós o chamamos de Deus .... Deus como um Pai”.

Portanto, parece-me que tolher dos jovens a religiosidade traz algumas consequências terríveis, o que explica, em grande medida, seu comportamento autodestrutivo, o qual não envolve apenas o suicídio, sua forma mais extrema, mas mesmo a automutilação e a promiscuidade, ambas constituindo formas de autoaviltamento.

Com efeito, para que possamos compreender o fenômeno do crescente suicídio entre jovens, e a queda radical na natalidade, precisamos ter em mente algumas mudanças culturais e morais ocorridas no decorrer do século XX.

Especialmente ao longo da segunda metade do século XX ocorreu uma erupção de ideias doentias que contribuíram imensamente para o atual estado de coisas.

Eu citaria aqui algumas, como o relativismo, o niilismo, a glamorização do uso “recreativo” de drogas, do alcoolismo, da promiscuidade e do adultério, dentre outras. Tais ideias, fomentadas especialmente desde nossas universidades (sobretudo das “humanidades”), a partir de mentes torpes cujo propósito era realmente causar o colapso dos pilares civilizacionais, os quais se consolidaram espontaneamente especialmente a partir da tradição judaico-cristã, acabaram por consolidar uma cultura propensa à falta de sentido.

A busca desesperada pelo prazer imediato nos foi conduzindo a uma vida motivada quase exclusivamente pela busca de deleites imediatos. Resultado? Abandonamos a religiosidade e a busca pelo sentido. Isso porque o sentido não envolve apenas o mero prazer. Muitas vezes a busca pelo sentido envolve sofrimento, privação, esforço e, claro, sacrifício.

Em um mundo no qual as pessoas buscavam pelo sentido, isso era de conhecimento comum. As pessoas simplesmente sabiam que precisavam se esforçar para prosperar na vida. Elas sabiam do sacrifício inerente a uma vida com sentido, por exemplo, na formação de uma família e no cuidado com os filhos. Tendo em vista a realização de um propósito, daquilo que o filósofo grego Sócrates chamava de uma “vida examinada”, as pessoas sabiam da importância do esforço, do sacrifício, da resiliência, etc.

Elas “examinavam” suas vidas e encontravam nelas um sentido ligado ao seu sacrifício, às suas perdas, às suas dores, a tudo aquilo que as levava à superação. Não apenas isso, elas pensavam prospectivamente, um pensamento que eventualmente as levava ao encontro de um sentido sobrenatural, um sentido para todos os seus esforços, privações e, claro, alegrias oriundas de uma vida “examinada”, imersa em sentido.

No entanto, as gerações herdeiras de uma mentalidade “pós-moderna” abandonaram o sentido. E isso nos trouxe, a meu ver, a um conflito: um conflito entre uma necessidade de sentido e uma vida não examinada e vazia, imersa em uma busca hedonista por prazeres imediatos.

Dito de outra forma, os jovens de hoje são, em sua maioria, narcisistas patológicos que se julgam o centro ao redor do qual tudo o mais deve orbitar, incapazes de se sacrificar e fragilíssimos. Ou seja, são “bebês chorões”. Disso advém sua busca desesperada por prazeres egoísticos e sua incapacidade de devotar sua vida a outro indivíduo, seja a um cônjuge (em uma relação de exclusividade e continuidade) seja a um filho.

Daí a fragmentação dos casamentos e a baixíssima taxa de natalidade.

Por fim, quero mencionar um autor que se ocupou de investigar profundamente o problema do ‘sentido’. Refiro-me ao psiquiatra austríaco Viktor Frankl, precursor da ‘Logoterapia’. Tendo passado pelos mais brutais campos de concentração, Auschwitz e Dachau, ele se apercebeu de algo importante em seus 13 anos como prisioneiro: a busca pelo sentido nos dá resiliência.

E de sofrimento Frankl entendia muito bem, pois, além de ter sido prisioneiro (de ter sofrido e testemunhado o sofrimento dos demais prisioneiros), ele perdeu, dentre outras pessoas, sua esposa grávida, seu pai e seu irmão, todos para o hediondo regime nazista.

De qualquer forma, embora estivesse desenvolvendo suas ideias antes mesmo de se tornar prisioneiro, Frankl pôde constatar, empiricamente nos campos de concentração, que o ser humano tem a capacidade de encontrar um sentido para toda situação na vida, inclusive quando imerso nas circunstâncias mais caóticas e dolorosas.

Nos campos de concentração ele percebeu que aqueles que tinham um propósito eram mais resilientes e propensos a sobreviver, não apenas às torturas e privações, mas mesmo diante de doenças como o tifo (eles adoeciam menos). Isso porque o sentido nos impulsiona, resoluta e resilientemente, para o futuro.

Além das histórias narradas por Frankl, a partir de seus anos em campos de concentração, há, por exemplo, a lição moral bíblica de Jó, o qual perdeu riqueza, filhos, saúde, etc, tendo sido provado para além dos limites da suportabilidade, mas se tornando, ao fim e sem sucumbir, um sujeito melhor.

E notem que nem Frankl (e os demais prisioneiros cujas vidas ele relata) nem Jó tinham acesso a clonazepam, a fluoxetina e a fármacos do tipo (tão na moda atualmente). Ou seja, tiveram que resistir tendo como suporte a vontade alicerçada sobre a busca pelo sentido.

Mas nossa cultura, por outro lado, tem enaltecido sobretudo os prazeres imediatos, o hedonismo (a hedonia, não a eudaimonia – “florescimento humano”). Ou seja, nossa cultura, ao invés de incorporar e promover aquelas virtudes que ao longo do tempo asseguraram nossa resiliência, fomenta nossos vícios, nos afastando radicalmente de nossa humanidade (daquilo que nos torna especificamente humanos – não meros animais) e nos enfraquecendo.

Em algum momento isso traria consequências mais abrangentes e terríveis. E eis que essas consequências são hoje mensuráveis por diversas pesquisas, dentre as quais aquelas citadas no início desse texto sobre o crescente suicídio de jovens.

A atual cultura hedonista, relativista, niilista, imediatista, egocêntrica, tem promovido a formação de sujeitos também hedonistas, relativistas, niilistas, imediatistas e egocêntricos, incapazes de assumir responsabilidades perante a vida e em relação aos demais.

Mesmo diante dos dados, das evidências, hoje incontestáveis, dos danos individuais e sociais da glamorização de práticas como a promiscuidade e o uso recreativo de drogas, tão comuns entre os jovens, nossa cultura insiste, tragicamente, em glamourizar tais práticas, como se delas não adviessem consequências, sejam elas individuais (jovens com vidas destruídas e propensos ao suicídio) sejam elas sociais.

São práticas que enaltecem a busca por prazeres imediatos, de uma espécie de “felicidade bovina” (como diria o filósofo grego Heráclito, “se a felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer”), e isso em detrimento da felicidade peculiarmente humana, a qual está ligada ao encontro do sentido.

Em suma, temos colhido os frutos de uma “contracultura” (fundada em um pseudointelectualismo) que solapou os valores que asseguraram por séculos a prosperidade individual e social.

O crescente índice de jovens se automutilando das mais diversas maneiras, se vilipendiando mediante a promiscuidade, o uso de drogas e álcool e com o descuido com sua saúde, estética, etc, bem como se suicidando, apenas nos revela que nossa cultura tem fracassado em passar para as novas gerações os valores morais sobre os quais o mundo civilizado e humano foi fundado, valores oriundos de uma tradição religiosa, a saber, da tradição moral judaico-cristã. Basta observarmos que no Japão, um país pagão e pujante, o suicídio é a principal causa de morte entre os jovens.

Em suma, há uma evidente correlação entre descristianização e a perda de sentido. Temos, assim, vidas sem sentido embebidas em clonazepam, fluoxetina, etc, imersas em promiscuidade, as quais , quando já não funcionam os fármacos e as drogas ilícitas, findam em suicídio.

Documentário conduzido por Thomas Woods:

Carlos Adriano Ferraz - (Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito. Também é membro do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), sendo atualmente Diretor do DPL/RS)

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