Quão real é o suposto vínculo do PT com o crime organizado?

Em um recente (19/06/20) artigo publicado no ‘The American Enterprise Institute’ (um think tank “dedicado a defender a dignidade humana, expandindo o potencial humano e construindo um mundo cada vez mais livre e seguro”), Ryan Berg apresenta um texto inquestionavelmente estrondoso: “Brazil’s Workers’ Party has an organized crime problem in the making” (em tradução livre significaria algo como ‘o Partido dos Trabalhadores do Brasil tem um problema de crime organizado em formação’).

Que há uma relação íntima da esquerda com o crime organizado isso é um fato já exposto e, em certo sentido, inconteste.

Conforme tem sido esclarecido por anos pelo professor Olavo de Carvalho e por Graça Salgueiro (autora do elucidativo livro “O Foro de São Paulo: A maior organização revolucionária das Américas”), dentre diversos outros, o Foro de São Paulo (fundado em 1990 por Fidel Castro e Lula) é a “coordenação estratégica do movimento comunista na América Latina”, sendo que desde o início seu propósito é a “cubanização de toda a América Latina”.

Não obstante, além de contar com os maiores expoentes políticos da esquerda latino americana, o Foro de São Paulo também conta com a presença das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Surgidas em 1964, as Farc pretendiam impor o socialismo mediante a sangrenta revolução armada (causaram, segundo especulações, um saldo de aproximadamente 260.000 mortos e 45.000 desaparecidos).

Em seu passado há relatos de sequestros, narcotráfico, extorsão, tráfico humano e diversos outros crimes. Segundo o então procurador geral da nação (Colômbia), Jorge Fernando Perdomo, a partir de registros de computadores apreendidos em operações contra as Farc em 2016, foi possível contabilizar que elas obtiveram pelo menos 22.5 milhões de dólares com o narcotráfico entre 1995 e 2014.

Em suas palavras, à época dessa investigação (2016), “as Farc participaram em toda a cadeia de valor criminosa do narcotráfico (…) da semeadura da folha de coca à transformação em pasta de coca e cloridrato de cocaína e a distribuição desta cocaína”.

Além disso, também foi descoberto que, de 1975 a 2014, as Farc “recrutaram” (frequentemente mediante o uso da violência) 11.556 menores para suas guerrilhas, narcotráfico e outras operações criminosas.

Mas o ponto que quero sublinhar aqui é o seguinte: As Farc também estavam presentes na primeira edição do Foro de São Paulo, em 1990, ocasião em que foi lida, em sua abertura, a carta do então líder das Farc, Pedro Antonio Marín, conhecido como Tirofijo.

Na verdade, nas atas do Foro de São Paulo descobrimos que as Farc foram também fundadoras do movimento, tendo participado abertamente dos encontros até 2004, ano a partir do qual passaram a enviar participantes incógnitos para não ser evidenciada abertamente sua participação.

Vou me eximir de entrar nos aspectos sinistros do Foro de São Paulo, mas muitas revelações aterradoras sobre ele e suas ambições medonhas podem ser lidas em livros como “Conspiração de portas abertas”, organizado por Paulo Zamboni. Nele há textos do professor Olavo de Carvalho e de Graça Salgueiro, expoentes na denúncia das pretensões perversas do Foro de São Paulo para a América latina.

Sendo assim, aqui me interessa observar que, embora em 2016 as Farc tenham assinado um acordo de paz com o governo colombiano, grupos dissidentes não aceitaram o suposto processo de paz. Assim, eles estreitaram as relações com grupos criminosos brasileiros.

Segundo o ex-ministro da defesa nacional da Colômbia, Luis Carlos Villegas, ex-guerrilheiros das Farc seguem se dedicando ao narcotráfico, à mineração ilegal e às demais práticas criminosas pelas quais elas são conhecidas, dessa vez especialmente em parceria com facções criminosas brasileiras.

Ainda segundo Villegas, esses ex-guerrilheiros controlariam as rotas internacionais do tráfico de drogas no oceano pacífico, e teriam montado um esquema envolvendo o Brasil.

Segundo já foi relatado em investigações, o PCC (primeiro comando da capital – organização criminosa que opera em São Paulo e possui ramificações no Peru, no Paraguai, na Colômbia e na Bolívia) controlaria o maior percentual do mercado colombiano de cocaína. O PCC usaria aviões e rotas alternativas para atender o mercado brasileiro e de outros países.

Isso nos permite considerar, então, a existência de uma visceral e sombria conexão entre Foro de São Paulo (maior aglutinação da esquerda nas Américas), Farc e PCC.

Agora, voltemo-nos para o artigo de Ryan Berg.

De largada o autor nos diz que em breve o PT poderá estar envolvido em “outro escândalo de corrupção”. Por que? Ora, porque, em seus termos, “recentes reportagens mostram que o PT tem conexões inexplicáveis com a maior organização criminosa do país, o primeiro comando da capital (PCC).

Essas conexões poderiam alcançar o ex-presidente Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva”.

Ainda segundo o autor, a vitória do Presidente Bolsonaro em 2018 ocorreu, em grande medida, por conta de uma rejeição pública ao establishment político corrupto (que envolve, cabe notar, não apenas o PT, embora ele tenha se tornado o aparente alvo preferencial da operação lava jato, citada por Berg), ou seja, em virtude de uma rejeição à corrupção política endêmica que envolveria as conhecidas práticas de lavagem de dinheiro, propinas, etc.

Mas a questão é: a corrupção política iria além das propinas, dos desvios de dinheiro e outras práticas já “tradicionais” na política brasileira. Haveria, também, conexões de políticos e partidos com o crime organizado (especialmente com o narcotráfico), o que inclui o PCC.

Muitas dessas conexões são apresentadas por Ryan Berg em um relatório publicado em 25/03/20, intitulado “Breaking out: Brazil’s First Capital Command and the emerging prison-based threat” (‘Irrompendo: Primeiro Comando da Capital do Brasil e a ameaça emergente nas prisões’).

Nesse relatório ele expõe casos de interferência do PCC na política brasileira, o que inclui, segundo ele, diversas conexões entre o PT e o PCC. Por exemplo, ele mostra como advogados do PT atuaram para assegurar benefícios para prisioneiros ligados ao PCC, inclusive recorrendo, em defesa de líderes do PCC, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (entidade que integra o Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos, junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos).

Ele também cita o artigo investigativo do jornalista Allan de Abreu (“O piloto, o PCC e o voo da morte”, de 03/06/20), no qual é exposta a suposta conexão entre um traficante e piloto do PCC e o PT. O artigo começa descrevendo a biografia do piloto de maior confiança do PCC, o qual se tornou milionário rapidamente (aos 30 anos já acumulava uma fortuna de 19.5 milhões) transportando drogas para o PCC.

Alguns detalhes da reportagem investigativa de Abreu chamam a atenção. “Coincidentemente”, o piloto morava no notório edifício ‘Solaris’, em Guarujá, que se tornou conhecido por dele fazer parte o triplex atribuído pela Justiça ao ex-presidente Lula (causando, inclusive, sua prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro).

Sobre o apartamento do piloto, ele estaria, segundo a reportagem, em nome de uma funcionária da OAS. No entanto, segundo o Ministério Público Federal ele pertencia, na verdade, à esposa do ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto (condenado por ser partícipe do esquema de corrupção da Petrobras), pelo qual ele (o piloto) teria pago um valor abaixo do preço de mercado.

Ou seja, o principal piloto transportador de drogas do PCC teria negociado (por um valor abaixo do preço de mercado) seu apartamento com a mulher de Vaccari.

Mas aqui ainda poderíamos acrescentar, se quisermos rastrear possíveis aproximações entre o PCC e o PT, uma notícia datada de 23 de maio de 2014, publicada na (esquerdista, diga-se de passagem) ‘Folha de São Paulo’, segundo a qual, cito, “o deputado estadual Luiz Moura (PT) participou de uma reunião, em março deste ano [2014], em que estavam presentes ao menos 13 integrantes da facção criminosa PCC, de acordo com informações obtidas pela ‘Folha’ com a cúpula da polícia.

Entre eles estava um dos criminosos acusados de participar do furto do Banco Central, no Ceará, em 2005, quando foram levados R$ 164,8 milhões, além de um procurado da Justiça por roubos a bancos.

A reunião ocorreu na sede da Transcooper, zona leste da capital, cooperativa da qual o deputado faz parte, segundo documentos da Junta Comercial de São Paulo. Moura é aliado do secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto (PT)”.

Dessa forma, notícias como as acima referidas nos fazem especular sobre a questão colocada como título desse texto: quão real é o suposto vínculo do PT com o crime organizado?

Por fim, em seu artigo Ryan Berg resgata pontos de seu relatório anterior para mostrar que o PCC criou redes sofisticadas e, mesmo, institucionalizadas de corrupção, especialmente, mas não apenas, no Brasil.

Segundo ele, nossas instituições ainda não estariam sequer em condições de enfrentar essa ameaça hoje enraizada em nossas instituições. A partir dessa institucionalização o PCC estaria em condições de financiar, inclusive, políticos.

Afinal, ele possui, hoje, um império fundado sobre o narcotráfico e outros crimes. Conforme Ryan Berg, a evidenciada conexão entre PCC e PT em Guarujá poderia expor, segundo sua conjectura, o indício de uma estratégia sistemática do PCC para sobrepor-se a partidos políticos e políticos, tornando-os seus, por assim dizer, vassalos.

A partir de tal conexão poder-se-ia, então, desenrolar o enredo de uma relação ameaçadora entre o crime organizado e a política, uma relação altamente perniciosa para a sociedade civil e suas instituições (não apenas políticas).

Na verdade, se levarmos também em conta a tradicional agenda da esquerda em geral, a qual propõe, contra as políticas antidrogas, a liberação do uso recreativo das drogas, a vitimização dos criminosos, o desarmamento dos cidadãos comuns (exceto dos criminosos), o aborto (morte intencional de uma pessoa por nascer), a promiscuidade e a degradação dos valores (inclusive estéticos), bem como, pasmem, a justificativa para o assalto (alguém ainda lembra da ex-candidata ao governo do RJ, Márcia Tiburi, dizendo, em entrevista, que um assaltante está “legitimado” a roubar em uma sociedade capitalista, uma vez que ele é um excluído, uma “vítima da sociedade”, que, em certo sentido, executa uma espécie de “redistribuição social” ao roubar?), como se trabalhar não fosse uma alternativa possível para a ascensão social, então podemos perceber, unicamente pela análise de sua agenda, uma proximidade evidente entre seus estandartes e os propósitos de organizações criminosas como o PCC, as quais visam, em uníssono, tanto o caos social quanto os benefícios que elas obtêm desse estado caótico em que colocam a sociedade civil.

Carlos Adriano Ferraz - (Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito. Também é membro do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), sendo atualmente Diretor do DPL/RS).

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