Carta aberta aos canais de jornalismo e comunicação

Como diz a música: “Se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem” (Jorge Ben Jor).

Essa frase, que sugere um desvio de caráter como marca da sociedade brasileira, não poderia ser mais errada... assim como a chamada “lei de Gerson” que sugere que o importante é levar Vantagem, doa a quem doer, pois mais importante que ser ético e honesto é ser esperto.

Vivemos sob esse tipo de estigma por décadas e parece que essa “doença”, uma espécie de vírus que debilita o sistema imunológico da ética e da decência, contaminou parte da sociedade e, nestes tempos sobretudo, boa parte da mídia e do jornalismo brasileiro.

É obvio que estamos falando de algo que não tem o menor sentido uma vez que, se um canal representa um bem inalienável da sociedade e esta sociedade tem valores e aspirações legítimas, “usar a notícia em benefício próprio e não como um bem social, além de antiético, é imoral e um crime que se comete contra a sociedade como um todo. O errado não pode ser o certo...”

Princípios são atemporais e não podem, ou não deveriam, ser flexibilizados com base em interesses políticos, ideológicos, econômicos ou de qualquer outra natureza que não fosse a essência do Jornalismo sério e comprometido com a verdade e o bem comum.

No intenso embate político que vivemos, vimos canais e profissionais “mudando de lado”, ao sabor de conveniências nada republicanas: e para onde foram os princípios do Jornalismo e a ética que um profissional desse vital setor deve ter? Mas o público não é idiota...

Você pode comprar um canal ou um profissional com dinheiro, mas não pode comprar a credibilidade do canal e nem do profissional junto à população.

Estamos vendo investimentos estranhos em alguns canais tradicionais, mas até onde um canal pode se sustentar sem a legitimidade do público? Como disse não mesmo uma questão de $$$...

Cabe lembrar que promover e propagar notícias falsas ou torcer os fatos para que uma notícia verdadeira seja deturpada com a visível intenção de prejudicar um em benefício de outros “é crime e não posicionamento”.

Muitos dos canais e dos profissionais, amplamente conhecidos que “mudam de lado ou narrativa” sugerem interesses inconfessáveis, como manipular a notícia para produzir ganhos próprios ou de grupos a eles relacionados.

Isso mais parece o urso que esconde a cabeça no tronco da arvore e pensa que não estaria sendo visto.

A questão é que isso não se sustenta no tempo, essa prática que não passa de um crime comum, vai afetando a imagem desses canais que dependem sim: de credibilidade, competência jornalística e, sobretudo, do conceito que lhes é atribuído pela população, que são os seus patrões, na verdade.

Vocês sabem a diferença entre credibilidade, competência e conceito?

• Credibilidade é um traço do seu caráter que diz respeito ao que você é, os valores que você possui e que não mudam com o tempo, ou seja, credibilidade é algo que se você não tem ou se tinha e perdeu, não dá para adqurir com dinheiro;
• Competência é a qualidade com que você entrega o que faz para o seu público. Esse, em outras palavras, é o princípio que te mantem no jogo como um player importante o que garante seu espaço.
• Já Conceito é o que te promove e te faz alçar voos mais altos. Isso porque envolve valores muitas vezes subjetivos que estão na cabeça do teu público e é ele, ao fim das contas, que vai te alçar ou te derrubar.

O que temos visto na deturpação dos valores da Imprensa e da mídia representa uma perda considerável de credibilidade.

Já a competência em gerar produtos posicionados e alinhados com os objetivos do próprio canal, pode levar à uma percepção de valor que tem a ver com um determinado nicho e te afastar de outros, não se deve acender velas para dois santos ao mesmo tempo.

Quando isso ocorre, afeta-se de forma devastadora o CONCEITO que os deveria alçar, e não apenas manter em nichos relevantes e alinhados com princípios de valor.

Ao que parece boa parte da Mídia Tradicional não se deu conta do risco que incorre ao destruir os preceitos que a legitimam e agregam o valor que delas se espera por parte da sociedade como um todo.

Assim, não apenas surgem canais concorrentes para preencher essas lacunas, o que em tempos de DIGITALIZAÇÃO SOCIAL, promove perdas significativas e aceleradas do seu patrimônio de imagem, muitas vezes construída ao longo de décadas.

Ao que parece alguns canais já começam a se dar conta desse perigo e reveem seu posicionamento...enquanto outros, com pesados investimentos, dobram a aposta na adoção de ativismo político e defesa de interesses particulares.

Mas, mesmo agora, a Esquerda descobre que promover leis contra fake News só pode ser devastador para quem mais comete esse tipo de crimes: que são eles mesmos.

A VIDA É FEITA DE BONS EXEMPLOS

Para ilustrar, transcrevo o texto, na íntegra, publicado há sete anos, mas que se refere a uma política escrita por Silvio Santos, 25 anos antes, ou seja, há 32 anos atrás.

Vale dar uma olhada pois é inspirador:

“Neste último domingo, 3 de março, o SBT divulgou no ‘Jornal Propaganda e Marketing’ uma carta escrita há 25 anos pelo dono da emissora, Silvio Santos ao Departamento de Jornalismo, dirigido na época por Marcos Wilson.

O anúncio institucional, que preencheu as páginas 10 e 11 do periódico, foi publicado com o slogan “#SBT – Jornalismo que evolui, princípios que não mudam”.

Os 14 princípios apresentados, deveriam ser seguidos por todas as empresas jornalísticas, mas infelizmente muitos deles são negligenciados aqui e ali, nesse e naquele jornal. De qualquer forma servem para uma boa reflexão sobre o bom jornalismo.

Leia abaixo o comunicado na íntegra:

A Todos os funcionários
A fim de que não pairem dúvidas quanto à linha a ser seguida pelo Departamento de Jornalismo, tanto o Diretor Marcos Wilson, como o SBT, naquilo que lhe couber, comprometem-se a observar, rigorosamente, os seguintes PRINCÍPIOS EDITORIAIS:
CREDIBILIDADE – cada informação deve ser confirmada. Nenhum boato ou rumor pode ser divulgado.
RESPEITABILIDADE – devemos conquistar o respeito de nosso público e das nossas fontes. Seremos incorruptíveis e honestos.
SERIEDADE – seriedade não é sinônimo de velhice. O único compromisso de quem tem um telejornal sério é com a informação precisa, correta.
ISENÇÃO – ouvir sempre os dois lados, frente e verso de uma informação. Nenhuma pessoa será culpada antes que a Justiça assim o diga.
APARTIDARISMO – nosso compromisso é com a informação correta e com o público: ele quer fatos documentos e não proselitismo; quer informação e não ideologização da notícia.
IMAGEM DIFERENCIADA/PERSONALIDADE – nossa marca, nossa cara são próprios, construídas ao longo do tempo. Não devemos ter a cara dos concorrentes.
PRODUTO INDISPENSÁVEIS – nosso telejornalismo deve ser para o público tão indispensável como o alimento do dia a dia.
PRODUTO POPULAR – ser popular não significa ser populista ou popularesco. O público não é uniforme em todos os sentidos. Uma notícia deve ser entendida pela patroa e pela empregada.
PRODUTO MODERNO – a TV já é um veículo ágil e seu jornalismo deve ser moderno, dinâmico e, até certo ponto, audaz.
EMPRESARIAL – o jornalismo está dentro de uma empresa maior e não deve fugir das regras de administração empresarial, como avaliação e treinamento.
METAS E OBJETIVOS – devemos estabelecer as metas e objetivos, que serão entendidos e assimilados por toda a equipe e, principalmente, cumpridos.
PRODUTO DIDÁTICO – não podemos complicar a vida do público, mas dar todos os instrumentos para facilitá-la. A informação deve ser simples, transparente, clara e didática.
PESSIMISMO DISPENSÁVEL – o tom do jornalismo deve ser otimista, procurando mostrar que, mesmo nas situações mais trágicas, é possível dar a volta por cima.
PRINCÍPIOS DO PÚBLICO – não vamos agredir nosso público em seus costumes e suas crenças; o respeito ao telespectador é fundamental.
Todos os redatores, repórteres e jornalistas da casa, no exercício de suas tarefas, devem obedecer a tais princípios, que refletem a filosofia que desejamos imprimir ao Jornalismo do SBT, para que possamos cumprir a missão de informar bem para melhor formar nosso povo e nossa gente.
3 de março de 1988

A publicação é concluída com a afirmação de que desde que a mensagem foi escrita, há 32 anos, “muita coisa mudou na vida das pessoas. O que não mudou foi a nossa fidelidade a estes princípios”. Por Emílio Portugal Coutinho (em Casa dos Focas)”

Espero que o presente texto possa inspirar aqueles canais que, por estratégia ou desvio sob qualquer pretexto, estejam atuando fora dos preceitos e valores que regem o bom jornalismo e as melhores práticas de comunicação. Tais valores, são bens sociais e não estão abertos a jogos de interesses que não sejam os da sociedade democrática, no caso do Brasil, que devem nortear esse imprescindível setor.

JMC Sanchez

Articulista, palestrante, fotografo e empresário.

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