Aborto: este assunto não pode ser abortado

Você já conversou com alguma mulher que abortou?

É muito difícil conhecer os detalhes de um procedimento abortivo.

Inicia-se com a compra do medicamento, seguem-se os vômitos e os enjoos, a aplicação de mais um comprimido, o sentimento de desamparo, solidão e desespero, as cólicas, o banheiro ensanguentado e, finalmente, o terrível desfecho quando o “feto de sangue” cai dentro do vaso sanitário.

Cenas de horror? Sim, cenas da dor de um aborto.

É muito sério indicar a prática abortiva como meio contraceptivo.

Nenhuma atitude é gratuita,

tudo tem consequência: o ato sexual sem prevenção, a maternidade e o aborto.

Muitas mulheres que abortam fazem as contas, por décadas, para saberem quantos anos o seu filho teria caso estivesse vivo.

O bebê morre no corpo, contudo pode permanecer vivo na alma daquela que foi mãe, mas de um bebê abortado.

Existiu, por poucos meses, um menino, uma menina, um filho.

Na fantasia, esse filho pode crescer, ir à escola, viver.

Quantas mulheres sofrem com a sombra melancólica da depressão pela culpa avassaladora e arrependimento após abortarem?

Algumas, ainda se julgam assassinas e esse julgamento, consciente ou inconscientemente, as fazem falir em outras áreas por não se sentirem merecedoras de sucesso e respeito profissional, amoroso, familiar.

Outras, num tempo posterior, querem engravidar e não conseguem pela memória do que foi vivido. Não se sentem dignas, associam a palavra mãe à ternura, cuidado e amor, porém pelo fato de terem abortado, não se sentem merecedoras da "graça divina".

Mesmo quando são punidas pela lei dos homens, castigam-se pelo tribunal emocional e aplicam uma pena tão cruel que, em vários casos, é perpétua.

Muitas mulheres abortam o seu futuro como forma de flagelo pelo corte daquele elo.

A maternidade é dificílima, mas o peso eterno de sombras, fantasmas e demônios internos podem não dar trégua, infernizar uma vida inteira bem como transformar o plano mental em um trágico Dante infernal.

Nara Resende

Psicóloga clínica de adolescentes e adultos, escritora de Divã com poesia, Freud Inverso e organizadora do livro O jovem psicólogo e a clínica.

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