O relatório da ONU contra o Cristianismo. Parte 2: A dissolução da moralidade

Esse texto dá prosseguimento ao que expus aqui:

No texto anterior (cujo link está acima) teci comentários sobre como a ‘Organização das Nações Unidas’ (ONU) é um títere manipulado pela elite global cujo propósito é a instituição de uma ‘nova ordem mundial’.

Dessa forma, a instituição de tal ordem tem sido um processo que pode ser remontado pelo menos ao final do século XIX, muito embora possamos especular sobre sua origem em tempos ainda anteriores.

Com efeito, no texto anterior vimos que a instituição de uma ‘nova ordem mundial’ enfrenta alguns obstáculos. Sobre esses obstáculos, eu colocaria especialmente os seguintes:

1. A ideia de individualidade, pois eles pretendem nos massificar, anulando aquilo que nos torna únicos (seu objetivo é suprimir nossa alma mesma); por essa razão (dentre outras) os sectários da nova ordem mundial simpatizam com o socialismo (fomentando-o), o qual não nos aceita como indivíduos, mas como parte de um grupo;

2. A lealdade à família, às tradições e à pátria; 3. Nossa religiosidade e os princípios religiosos, sobretudo os cristãos, uma vez que eles reforçam os demais obstáculos e constituem a maior barreira aos avanços da nova ordem mundial e do luciferianismo (‘nova ordem religiosa mundial’ perfilhada pela elite global).

Isso fica claro no relatório da ONU que mencionei no texto que precedeu essa minha abordagem, a saber, no relatório “Freedom of Religion or Belief” (‘Liberdade de Religião ou Crença’). Uma das ideias centrais desse relatório contra o Cristianismo reside em sua tese segundo a qual os princípios cristãos concernentes à sexualidade são “perigosos e discriminatórios”.

Atentem para o foco na “sexualidade”.

Que a moralidade cristã, especialmente no que concerne à sexualidade, sempre foi uma ameaça aos avanços do luciferianismo (“nova ordem religiosa mundial”, poder-se-ia dizer), o qual é inerente à nova ordem mundial, isso é evidente pelo menos desde meados do século XX.

Cito aqui apenas um fato.

O maior expoente do luciferianismo no século XX, Aleister Crowley, era não apenas um beligerante anticristão, mas também um antissemita (algo que ele tinha em comum com o socialismo). Nesse sentido, ele teve uma forte influência sobre Anton LaVey (fundador da Igreja de Satã, nos USA).

Sua influência também foi decisiva no desenvolvimento do ‘Movimento Nova Era’ (New Age) – especialmente nos anos 70 e 80 do século XX –, da religião neopagã ‘Wicca’, do ‘Movimento Novo Pensamento’, da ‘Yoga’ (sobre a qual Crowley escreveu alguns textos influentes), bem como de movimentos culturais que moldaram a cultura desde a metade do século XX, como a cultura Beatnik, especialmente mediante sua influência sobre William Burroughs (um dos expoentes da cultura Beatnik – promotora do “amor livre”, da promiscuidade, do uso de drogas, do antimaterialismo contra a cultura capitalista, etc). Na verdade, a ideia hoje em voga, segundo a qual ‘tudo é amor’, remete a Crowley e ao seu “Livro da Lei” (1904):

“Amor é a lei, amor sob a vontade”.

Não apenas isso, no mesmo livro encontramos a seguinte máxima:

“Faze o que tu queres pois é tudo da Lei”.

Se compararmos essas ideias com o que lemos em sua biografia, perceberemos que Crowley viveu rigorosamente de acordo com seus princípios hediondos: praticou rituais satânicos, bestialidades, viveu promiscuamente, relata-se que praticou pedofilia, usou drogas exacerbadamente ... sendo que ele mesmo se intitulava a “besta 666”.

Por seus feitos e ideias foi considerado o homem mais perverso do mundo. E sua influência se espraiou, inclusive no meio acadêmico, como podemos ver na obra de William Ramsey, “Children of the Beast” (2016), na qual Ramsey expõe uma lista de “seguidores” ilustres de Crowley.

Por exemplo, ele influenciou fortemente Alfred Kinsey, o qual tinha propósitos muito similares aos de Crowley, como, por exemplo, promover práticas homossexuais entre heterossexuais e estimular a sexualidade em crianças (o que incluía encorajar a pedofilia). Autor do ‘Relatório Kimsey’, ele teve uma influência decisiva sobre a “revolução sexual” desde a metade do século XX (há um filme sobre ele, inclusive). Segundo Kimsey, “tudo é amor”, ou seja, todos os comportamentos sexuais são “normais” (mesmo pedofilia e zoofilia, por exemplo).

Na verdade, segundo ele o comportamento sexual “anormal” seria o heterossexual, o qual resultaria, segundo ele, de repressões culturais. A raiz dessa repressão estaria, não poderia ser diferente, na cultura judaico-cristã. Seu propósito era, então, destruir a moral oriunda da tradição judaico cristã.

E, vejam a “coincidência”: ele realizou suas “pesquisas” com subsídios da Fundação Rockefeller. Obviamente, não se trata de “coincidência”. As fundações que citei até aqui (especialmente no texto anterior) fomentam intensamente movimentos que estimulem a “liberação” sexual e a destruição dos demais pilares morais do ocidente. E, com isso, eles logram atingir seu propósito mais sinistro e profundo: a destruição dos valores judaico-cristãos.

Nesse sentido, esse relatório da ONU não surpreende, uma vez que está em acordo com um projeto cuidadosamente articulado e subsidiado por décadas mediante uma elite global cujos objetivos envolvem especialmente a dissolução da religião cristã para a instauração de uma nova religião global (luciferiana).

Mas o que quero aqui questionar é o seguinte: é o Cristianismo anticientifico ou são seus inimigos que agem motivados não por ciência, mas por uma ideologia malfazeja e, mesmo, diabólica?

Tanto no texto anterior quanto em outros esclareci em que medida o aborto é uma prática homicida: mata uma pessoa viva (indivíduo) em formação. Vejam, por exemplo, esse texto:

Não apenas demonstrei o que sabemos à luz da embriologia sobre o que é morto em um aborto, mas também esclareci que o aborto, atualmente referido pela ONU como parte de uma política de “planejamento familiar”, ou, ainda, de “saúde sexual e reprodutiva”, está intimamente ligado aos problemas da eugenia e do darwinismo social (“elitismo”). Isso porque essa “elite” vê aqueles que não fazem parte de sua casta (“linhagem”) como mero “gado”, ou, como disse Margaret Sanger (fundadora da maior clínica de aborto do mundo, a “Planned Parenthood”), “ervas daninhas”.

No texto anterior esclareci como Margaret Sanger, idolatrada pelo feminismo e esquerda atuais, pretendia fomentar o aborto nas comunidades negra e hispânica dos USA.

De qualquer forma, mesmo ateus, quando sensíveis aos direitos humanos e cientes do que ocorre em um aborto, o repudiam: eles sabem, pela ciência, que nele uma pessoa é morta covardemente. Basta ver o que diz um dos mais consagrados ateus combatentes, Christopher Hitchens (“enquanto um materialista, penso que foi demonstrado que um embrião é um corpo, uma entidade separada, e não meramente, como alguns realmente costumavam argumentar, uma excrescência sobre ou dentro do corpo feminino”).

Vejam: ele diz isso em um livro (“God is not Great”) cujo objetivo é refutar a fé em Deus. Portanto, não é preciso sequer crer em Deus para rejeitar o aborto: basta estar cientificamente informado e respeitar a ‘dignidade da pessoa humana’ (às vezes ateus são, paradoxalmente, mais cristãos que cristãos declarados).

Assim, aqueles realmente preocupados com “direitos humanos”, humanistas por assim dizer, crentes ou não, rejeitam a prática do aborto, pois sabem que se trata do assassinato de uma pessoa humana. Um embrião/feto não é mero “material”, como dizem abortistas em sua tentativa de desumaniza-lo. É uma pessoa.

Agora, pergunto: quem se baseia na ciência, afinal?

Obviamente os ideólogos da ONU não apenas abortam a ciência (conhecimento), mas mesmo os direitos humanos. Isso porque esse é um dos aspectos centrais da ideologia anticientífica promovida pela ONU e pela elite global promotora da nova ordem mundial: ela ignora os fatos, as razões, a ciência, etc, para dar sustentação a teses desprezíveis, hediondas e, muitas vezes, insanas, tal como aquela que promove o aborto.

Mas a questão da sexualidade não se restringe ao problema do aborto, visto pela ONU como questão de “saúde sexual”. Segundo podemos depreender do relatório aqui em análise, ainda há o problema da chamada ideologia de gênero.

Para podermos tecer comentários sobre esse ponto, voltemo-nos novamente à ciência para vermos quem, afinal, está embasado cientificamente. Assim, é imperioso observar que a sexualidade envolve, também e sobretudo, aspectos biológicos (hormonais, por exemplo) que independem absolutamente de como nos sentimos com relação a isso. Além do dimorfismo sexual (das diferenças físicas entre homens e mulheres, as quais podem ser disfarçadas de forma impressionante, como o fazem muitos travestis, os quais muitas vezes se assemelham a mulheres, sendo delas uma espécie de simulacro), há um aspecto mais profundo referente às diferenças entre homens e mulheres: o dimorfismo cerebral, o qual é muito mais complexo e envolve questões ainda estudadas de forma incipiente por endocrinologistas.

Mas o ponto é: existem diferenças significativas entre homens e mulheres. Ainda que existam casos de disforia de gênero, disso não se depreende que as pessoas “escolham” ser ou homens ou mulheres. A regra é: homens e mulheres possuem cérebros “projetados” distintamente.

Por exemplo, Simon Baron-Cohen (e muitos outros) tem demonstrado que o cérebro masculino é “projetado” (hard-wired) para compreender e construir sistemas, enquanto o cérebro feminino é “projetado” (hard-wired) para a empatia. Isso tem sido demonstrado pela “empathising-systemising (E-S) theory”, da qual Simon Baron-Cohen é um precursor. Isso é ciência, não ideologia.

Portanto, existem, sim, diferenças convincentes (de um ponto de vista científico - hormonal) entre homens e mulheres. Mas observem: a questão é distinguir homens e mulheres. Do fato de sermos diferentes não se depreende que a discriminação seja justificada. Trata-se de distinguir, não de discriminar. Não é o caso de abolirmos a diferença, mas o preconceito e a discriminação.

No entanto, o relator do estulto relatório da ONU questiona a separação (científica) entre homens e mulheres, uma vez que isso causa, segundo ele, “violência de gênero”. Vejam: segundo a ONU a melhor forma de acabarmos com a violência contra a mulher é dizermos que homens e mulheres são iguais, que não há diferenças. Mas, perguntemos: negar a realidade a anula?

Ora, certamente podemos encontrar maneiras inteligentes (e científicas) de resolver o problema da “violência de gênero”, mesmo porque a humanidade prosperou respeitando essas diferenças.

Casos de discriminação (como as promovidas pelo islamismo e que violam a dignidade da pessoa humana) devem ser combatidos severamente, mas sem negar a ciência, sem negar as diferenças fundamentais entre homens e mulheres, os quais, aliás, se complementam inclusive na criação de suas crianças (hoje se sabe que o pai biológico libera feromônios que adiam a iniciação sexual das filhas, evitando que elas engravidem na adolescência, por exemplo).

E com isso chego a outro ponto do relatório, sobre a família. Como não poderia faltar, a questão da família é trazida a tona no relatório para seu relator questionar a estrutura familiar dita “tradicional”, a saber, aquela formada por homem, mulher (em uma relação de continuidade – “até que a morte os separe” – e exclusividade – “fidelidade”) e filhos oriundos dessa relação. Novamente, deixemos de lado a ideologia e foquemos nos fatos.

E quais são os fatos referentes à importância da família? Ora, hoje há uma vasta pesquisa que demonstra, de forma indisputável, os danos oriundos de famílias disfuncionais e dissolvidas. Mas essa evidência não surgiu recentemente. Por exemplo, um estudo seminal (“Family and Civilization”), publicado em 1947 por um sociólogo de Harvard, Carl Zimmermann, demonstrou aquilo que o senso comum iletrado sempre soube, ou seja, a relação entre família e ‘bem comum’. Nesse estudo seminal ele analisou a evolução da família desde os gregos, passando pelo período romano, pelo medievo até a civilização ocidental e aos USA do século XX.

Ao longo da obra o autor demonstrou como a ascensão e declínio das civilizações caminha lado a lado com a ascensão e declínio da família. Em verdade, ele demonstrou que o declínio das civilizações reflete o declínio da instituição do matrimônio. Ou, que o declínio das civilizações é precedido pelo declínio da família.

Sim!!! Eis uma verdade inconveniente: muitos dos flagelos que hoje enfrentamos são causados sobretudo pela dissolução da família dita “tradicional”. Estudos recentes reiteram essa verdade: “Why Marriage Matters. Thirty Conclusions from the Social Sciences”, de Bradford Wilcox; “Marriage and the Public Good: Ten Principles”, editado pelo Instituto Witherspoon; “Família e Políticas Públicas”, de João Carlos Espada; “Life Without Father”, de David Popenoe, “The New Family Structures Study”, conduzido por Mark Regnerus, e muitos outros.

Já está, portanto, sobejamente demonstrado que a dissolução da família dita “tradicional” causa diversas calamidades: aumento de criminalidade, fracasso educacional, fracasso na formação de novas famílias (aumento de famílias disfuncionais), rendas baixas, aumento da violência (inclusive de gênero), aumento da dependência de programas assistenciais do governo, gravidez na adolescência, etc.

Assim, de um ponto de vista científico, fundado em fatos e na realidade, o fortalecimento de uma cultura que reconheça a importância da família tradicional é uma eficiente política pública para a garantia de indivíduos saudáveis e de uma sociedade mais próspera humanamente.

Portanto, a moralidade cristã, contrária ao aborto, à eugenia, bem como defensora da dignidade da pessoa humana e da família “tradicional”, não é anticientífica: ela está fortemente embasada em evidências seculares.

Mas, cabe por fim perguntar: diante desse novo (e mais direto) ataque da ONU, qual é a reação da Igreja? Está ela alinhada com os princípios fundamentais da moralidade cristã ou com a ideia de uma nova ordem mundial?

Farei comentários sobre esse ponto em um próximo texto.

Carlos Adriano Ferraz - (Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito. Também é membro do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), sendo atualmente Diretor do DPL/RS.

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