Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Manda quem pode, obedece quem não tem juízo

Acompanho com curiosidade a campanha presidencial dos EUA e o crescimento do candidato republicano Donald Trump, um milionário racista e de extrema direita que pode trazer muita confusão. Muitos estão vendo tão somente uma figura caricata de político, mas todo cuidado é pouco. Em todo o mundo há uma inegável escalada da política mais conservadora diante dos medos que assolam a Europa e os países mais ricos diante das tempestades terroristas e das “novas invasões bárbaras” dos imigrantes pobres.


Além disso, basta ver o que aconteceu na história das relações internacionais entre o “irmão do norte” e os demais países das Américas.

Então vejamos.

No auge do expansionismo imperialista norte-americano, que voltou seu ímpeto ganancioso e cobiça para todo o continente latino-americano, um presidente mexicano cunhou uma frase lapidar que definiu as relações entre esses países: “Pobre México, tão perto dos EUA e tão longe de Deus”. Houve ocupações militares, arrochos econômicos, apoio aos golpes militares e muito servilismo e relações de dependência.

Um fato anedótico e triste aconteceu aqui no Brasil quando da visita do general Eisenhower (em 1946, no governo do general Eurico Gaspar Dutra) que havia sido comandante geral das forças aliadas na Europa durante a segunda guerra. Foi escolhido para saudar o ilustre visitante o presidente da União Democrática Nacional, Otávio Mangabeira. Segundo a imprensa da época, Mangabeira iniciou seu pronunciamento da seguinte maneira: “Em nome do país ... inclino-me respeitoso diante do general comandante-em-chefe dos exércitos que esmagaram a tirania, beijando, em silêncio, a mão que conduziu à vitória as Forças da Liberdade” (100 anos de República, v. V, 1941-1950). E beijou a mão do americano. Isso mesmo, beijou a mão do visitante na maior cara de pau.

Mas a subserviência dos brasileiros (e não somente a dos políticos) é um mal que não se acaba. Basta acompanhar os acontecimentos ocorridos na visita do presidente Barack Obama, aliás, filme já visto e revisto em diversas etapas da história brasileira. Diversos presidentes norte-americanos vieram ao país e quase nada resultou de positivo, a não ser um festival de bajulação. A exceção foi o caso de Roosevelt, em 1942, quando Getúlio Vargas conseguiu o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional. Eram tempos de guerra no mundo.

Parece, no entanto, que não terminaram os tempos de guerra, conforme se vê no aparato de segurança que acompanhou a passagem do simpático presidente ianque Obama e o constrangimento sofrido por alguns ministros do governo Dilma, desrespeitados em seus cargos no país. Se houve protestos, foram bem fraquinhos. Esses senhores, alvos de descortesia dos americanos, foram os ministros, na época, da Fazenda, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, da Ciência e Tecnologia, do Banco Central e o da Minas e Energia, “barrados no baile”, proibidos de se deslocarem em carros oficiais num evento organizado pela Confederação Nacional da Indústria. Depois, foram escoltados de ônibus por agentes americanos até o evento e revistados ao adentrarem ao recinto, expostos ao vexame. Foi isso mesmo. Os ministros foram revistados por seguranças americanos com bastão e portal detectores de metais no nosso próprio país.

No mínimo, a chancelaria brasileira deveria mostrar o seu descontentamento com este comportamento desairoso. Porém, até onde eu sei, nada foi feito. É a velha sombra do complexo de inferioridade (vira-latas) que assola o país. Lembro-me também de um fato ridículo, ocorrido em 2002 em aeroportos americanos, quando o chanceler Celso Lafer foi obrigado por seguranças, por três vezes, a tirar os seus sapatos. Outro vexame internacional, sem uma reação reparadora do governo brasileiro.

No Rio de Janeiro, a ida do presidente Obama à favela Cidade de Deus foi um evento, como se dizia antigamente, “para inglês ver”. Houve uma manipulação televisiva, com a matéria deliberadamente editada dando a impressão de que houve grande participação popular, um engodo, porém, porque o povo da favela ficou bem distante dos ilustres visitantes que permaneceram no local apenas 35 minutos. Impedindo a aproximação do povo, perfilaram-se 300 soldados com fuzis, metralhadoras, lança-granadas e até, pasmem, um tanque urutu. Por pudor, deixo de comentar as reações bajuladoras do então saltitante governador carioca. Tudo isso está registrado nos anais da história brasileira.

Para finalizar, o ex-presidente Lula não participou do almoço em homenagem ao presidente Obama junto de outros ex-presidentes vivos, alegando não querer fazer sombra à presidente Dilma. Será mesmo? A vaidade ferida dói!

Imaginem se o Donald Trump chega ao poder da maior e ainda mais influente nação do mundo. Ele visitará o Brasil de chapéu e com o chicote do Indiana Jones nas mãos, se vier...

Valmir Batista Corrêa

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