Pedofilia: uma terrível colateralidade do sentimentalismo

“Os homens são qualificados para a liberdade civil na proporção exata de sua disposição para colocar correntes morais em seus próprios apetites - na proporção em que seu amor à justiça está acima de sua rapinagem; - na proporção em que sua solidez e sobriedade de entendimento estão acima de sua vaidade e presunção; - na proporção em que eles estão mais dispostos a ouvir os conselhos dos sábios e dos bons (...). A sociedade não pode existir, a menos que um poder de controle sobre a vontade e sobre o apetite seja colocado em algum lugar (...). Está ordenado na constituição eterna de coisas que homens de mentes intemperantes não podem ser livres. Suas paixões forjam seus grilhões” (Edmund Burke. A Letter from Mr. Burke to a member of the National Assembly, 1791)

No momento em que retiramos Deus e, mesmo, a razão, do centro da humanidade, eliminamos, consequentemente, a possibilidade de um referencial objetivo vigoroso para nossas ações.

Tornamo-nos (nossos sentimentos e, mesmo, vícios) o centro de tudo, imergindo em um perverso egoísmo antissocial. O critério para nossas ações e decisões, por exemplo, tem sido nossos sentimentos, isto é, como “nos sentimos” (algo comum, hoje, especialmente no contexto das discussões sobre transgeneridade, cisgeneridade, transfeminismo, poliamorisidade, zoosexualidade, transracialidade e, pasmem, transanimailismo, dentre muitos outros modismos nos quais vige o sentimento e não há espaço para o finado bom senso, bem como no contexto do ‘politicamente correto’, em que devemos suprimir a verdade para não ferirmos sentimentos).

Mas façamos uma analogia: diante da atual temperatura climática em que escrevo (15 °C) um indivíduo ‘A’ diria: está quente. No entanto, o sujeito ‘B’ dirá: está frio. Agora, pergunto: que vale objetivamente, para ambos, aqui? Ora, o que sabemos objetivamente é que a escala termométrica utilizada para aferir a temperatura indica 15 °C, independentemente de como ‘A’ e ‘B’ se sentem, certo? Aparelhos medidores de temperatura simplesmente não consideram nossos sentimentos. Esse é um exemplo banal, mas o que quero indicar é que atualmente tem valido mais o “como nos sentimos” do que os fatos, a realidade.

Assim, independentemente da realidade, expressa, por exemplo, pelas ciências biológicas (e suas subáreas) alguém do sexo masculino pode simplesmente exigir ser considerado uma mulher; um indivíduo taxonomicamente homo sapiens pode demandar ser considerado um cão (transespécie); um homem estadunidense pode exigir ser considerado uma mulher filipina, e assim por diante (esses casos abundam atualmente).

Que quero dizer com esses exemplos? Ora, que vivemos em uma cultura em que vige o sentimentalismo, não o bom senso ou a razão. Há uma evasão da realidade em prol de um emotivismo vulgar e descontrolado.

O problema é que essa cultura, que sofre de uma espécie de incontinência sentimental, abriu espaço para consequências terríveis, colateralidades do sentimentalismo.

Dessa forma, tendo como base sentimentos, mesmo aqueles que constituem graves psicopatologias, alguns grupos, não por coincidência alinhados com a esquerda (‘progressistas’, ‘liberais democratas’), têm exercido forte pressão para que certos comportamentos, motivados pelo sentimento (desejo pervertido), sejam considerados meros “estilos de vida”. Tal é o que vem ocorrendo com um sentimento que desvela uma grave psicopatologia: a pedofilia.

Por essa razão o recente projeto de lei apresentado pelo Presidente Bolsonaro, que prevê um aumento de 50% na pena aplicada a pedófilos, é não apenas urgente, mas necessário.

Na verdade, essa medida também tem o mérito de colocar em evidência o problema, o qual envolve um projeto que tem sido instilado gradualmente em nossa cultura, e isso em uma tentativa de “normalizar” tal prática hedionda.

Mas como se tem intentado “normalizar” tal prática aberrante? Ora, a inserindo na cultura aos poucos, em uma espécie de ‘programação preditiva’ (“predictive programming”) cujo propósito é “amaciar” nosso senso moral, nosso bom senso, para que cheguemos a um estado de letargia moral propício à implantação da anormalidade, de um estado em que práticas que no passado repugnavam o bom senso se tornem “comuns” (pois “normais” – saudáveis - elas jamais serão).

Citarei, aqui, um exemplo paradigmático, ocorrido no Brasil: a performance ‘La Bête’, encenada no museu de arte de São Paulo (MAM) em 2017, na qual um homem nu foi tocado por uma menina de 12 anos. Tal caso, embora tenha chocado a população (seu bom senso – senso moral) e ocasionado uma apuração pelo Ministério Público Federal (MPF), foi no ano seguinte arquivado. Segundo o MPF, imagens de uma menina de 12 anos tocando um homem nu não indicaria crime.

Vou me eximir de discutir se tal “perfomance” poderia ser catalogada como “arte”. Em minha opinião, ela apenas representa mais um exemplo repulsivo da degenerescência da arte nos dias que correm (e seu papel na degeneração do próprio bom senso e de nossa cultura – arte inclusa). Limito-me, quanto a isso, a recomendar o excepcional documentário apresentado pelo filósofo conservador britânico Roger Scruton (“Por que a Beleza importa?”):

Dessa forma, nas últimas décadas temos acompanhado uma resoluta tentativa de fazer colapsar nosso tecido social moral. Correntes socialistas as mais diversas (Sociedade Fabiana, Escola de Frankfurt, etc), bem como teorias advindas de Sigmund Freud e Michel Foucault, para nomear algumas das mais influentes (explicitamente) no meio acadêmico, estão alinhadas com outros movimentos (ditos “contraculturais”) que não podemos subestimar, como aqueles oriundos de sujeitos como Aleister Crowley e Anton LaVey (fundador da igreja de Satã, frequentada por inúmeras figuras proeminentes, especialmente no campo da “arte”).

Ambos servem de base, de inspiração, para movimentos que pretendem tornar “comum” práticas tais quais a total liberação sexual (que ao fim inclui pedofilia).

O luciferianismo de Crowley propunha promiscuidade exacerbada (“amor livre”), uso de drogas, intercurso entre homens e meninos (pedofilia), etc. E, cabe notar, Crowley foi fiel aos seus princípios. É dele a famosa afirmação segundo a qual “faze o que tu queres pois é tudo da Lei”. Sua influência sobre a cultura é imensurável.

Parte dessa influência pode ser vista na obra “Children of the Beast”, de William Ramsey. Por exemplo, ele influenciou fortemente Alfred Kinsey, o qual (subsidiado pela Fundação Rockefeller) tinha propósitos muito similares aos de Crowley, como, por exemplo, estimular a sexualidade em crianças e encorajar a pedofilia. Autor de “Sexual Behavior in the Human Male” (1948) e “Sexual Behavior in the Human Female” (1953), Kinsey não agia motivado pela ciência, mas pelas suas próprias perversões sexuais (tal como outros indivíduos perturbados, como o já citado Foucault), razão pela qual ele imergia em práticas sexuais bizarras com suas cobaias e colegas de “pesquisa”.

Hoje se sabe que Kinsey fraudou diversos dados de suas “pesquisas” para “provar” seus objetivos doentios. No entanto, apesar de ele ter sido uma fraude, o estrago já estava feito, pois ele teve uma influência decisiva sobre a “revolução sexual” desde a metade do século XX. Segundo Kinsey, “tudo é amor”, ou seja, todos os comportamentos sexuais são “normais” (mesmo pedofilia e zoofilia). A propósito, Crowley mesmo relata suas práticas de “mágica sexual tântrica”, nas quais estariam envolvidos atos sexuais perversos, cruéis, bem como o estupro de uma criança.

O aterrorizante é vermos a influência desses indivíduos perturbados na (contra) cultura, especialmente (mas não apenas) sobre a moral sexual.

Dessa forma, especialmente a partir da metade do século XX tais objetivos passaram a imiscuir-se com reivindicações legítimas de direitos. Aproveitando-se ardilosamente da “onda” de reivindicações por direitos civis, alguns grupos passaram a ardilosamente demandar uma espécie de ‘direito à pedofilia’.

Alguma dúvida quanto a isso? Recomendo, então, que busquem informações sobre a ‘Associação Norte-Americana de Amor entre Homem e Menino’ (NAMBLA), a qual está em atividade nos USA desde 1978, sendo hoje influente em todo o mundo, inclusive no Brasil. Seu objetivo? Tornar legal a pedofilia.

E, cabe notar, ela surgiu desde dentro de movimentos que buscavam reivindicar os direitos da comunidade gay. Ou seja, em meio a indivíduos que demandavam simplesmente respeito em virtude de sua orientação sexual havia, também, sujeitos doentes que se aproveitaram parasitariamente do movimento gay para dar vazão às suas psicopatologias. Isso é esclarecido em um artigo de Stephen Baldwin (“Child Molestation and the Homosexual Movement”, 2002, ‘Regent University Law Review, Vol. 14: 267), bem como no estudo de 1988, “Behavior patterns of child molesters” (W.D. Erickson et al. ‘Archives of Sexual Behavior’, 17, 77-86), o qual revelava que 86% dos pedófilos que vitimizavam meninos se autodeclaravam ou homossexuais ou bissexuais.

Nesse sentido é paradigmático o que lemos no “Gay manifesto” (1987), de Michael Swift, a saber: “Sodomizaremos seus filhos, emblemas de sua fraca masculinidade, de seus sonhos superficiais e mentiras vulgares. Vamos seduzi-los em suas escolas (...) seus filhos se tornarão nossos servos e cumprirão nossas ordens. Eles serão remodelados à nossa imagem. Eles virão a nos desejar e a nos adorar”. Não parece algo escrito por alguém que apenas busca por respeito e reconhecimento, não é mesmo?

Aliás, a NAMBLA esteve ligada à ‘International Lesbian and Gay Association’ (ILGA) até 1994, quando a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO – a qual, sendo parte da ONU, tem insistido em levar a ‘ideologia de gênero’ às escolas para as crianças) pretendeu integrá-la ao grupo de organizações voltadas para os direitos humanos. No entanto, houve pressão do congresso dos USA para que organizações que promovem a pedofilia não possam ser consultivas em discussões sobre direitos humanos. A ILGA teria se desligado, nesse contexto, da NAMBLA.

Dessa maneira, o campo dos “direitos humanos”, dos “direitos civis”, foi tomado parasitariamente. Isso pode ser observado nas reivindicações das mulheres, dos negros, etc: movimentos legítimos, com exigências justas de reconhecimento foram, em muitos casos, usurpados por indivíduos e interesses políticos totalmente desvinculados das demandas originais. Isso fica claro, hoje, nas manifestações de grupos como ‘Black Lives Matter’, bem como de movimentos chamados pejorativamente de “feminazis” ou “gayzistas”, os quais não parecem se preocupar nem com os negros nem com as mulheres e tampouco com os gays, mas, sim, com sua agenda política em particular e, em muitos casos, com suas próprias perversões.

Agora, perguntemo-nos: como uma associação (NAMBLA) dessa magnitude se mantém financeiramente? Não estariam as mesmas fundações que subsidiam aborto, fim da família dita “tradicional”, promiscuidade (poliamor, por exemplo), e outras práticas degenerescentes, interessadas em fomentar uma associação como a NAMBLA? Afinal, pedofilia está em pleno acordo com as demais práticas citadas, todas baseadas no sentimentalismo e em um egoísmo antissocial. Na verdade, a pedofilia (e a zoofilia) é um corolário da revolução sexual.

Em linhas gerais, a dita “revolução” sexual implicou em encarar-se o sexo como mera diversão prazerosa egoísta, advindo daí o desenvolvimento e vulgarização de métodos contraceptivos, do aborto, do divórcio e assim por diante, até chegarmos à pedofilia e à zoofilia. Aliás, que virá depois?

E é nesse ponto que informações recentes nos fazem conjecturar sobre a magnitude do problema e sobre a razão de termos que o colocar às claras. Afinal, a ideia de “direitos civis” tem sido expandida para práticas como zoofilia e, claro, pedofilia. Por exemplo, em 2015 o antigo líder da maioria no congresso dos USA, Tom DeLay, revelou que o departamento de justiça estava preparando um memorando que pretendia ser uma defesa da legalização de práticas como zoofilia e pedofilia (o memorando se referiria a 12 perversões que se pretendia tornar legais).

Portanto, a ameaça é real. A imposição de algo como pedofilia não ocorre subitamente. Trata-se de um longo processo. Primeiro, são abandonados referenciais objetivos, como Deus, razão, ciência e a própria realidade. Em seguida, o sentimento é colocado como referencial. Por fim, na medida em que todos estão imersos em uma letargia moral, práticas como zoofilia e pedofilia passam a ser consideradas meros “estilos de vida”, tão válidos como o intercurso sexual entre homem e mulher (adultos) no contexto do casamento.

Dessa forma, são necessários impedimentos legais e ampla divulgação desse mal que assola o mundo civilizado. É preciso que fique claro que há grupos influentes tentando mudar as legislações para a legalização da pedofilia. Recente exemplo que expõe a existência de figuras importantes por detrás desse projeto foi a prisão do bilionário Jeffrey Epstein, proprietário da agora notória “ilha dos pedófilos”, apelido dado à ilha Little St James, a qual se tornou conhecida por servir de local para o abuso de incontáveis menores de idade.

E o assustador é que tais crimes não eram cometidos apenas por Epstein: políticos importantes, chefes de estado, artistas de Hollywood, inclusive um ex-presidente dos USA (Bill Clinton) teriam, segundo testemunhos das menores estupradas e de ex-empregados, passado pela ilha. Epstein foi preso em agosto/2019 e suicidou-se (teria sido suicidado?) em sua cela. Isso colocaria um fim nas investigações, uma vez que tudo o que ele sabia teria morrido com ele. Não obstante, recentemente o FBI prendeu Ghislaine Maxwell, sua ex-namorada e, segundo acusações, responsável, junto com Epstein, pela organização de uma grande rede de pedofilia que aliciava menores para uma seleta elite predatória.

Diante disso, alguns dados se mostram aterrorizantes. Segundo a Associação Brasileira de Busca e Defesa das Crianças Desaparecidas (ABCD) desaparecem, anualmente no Brasil, em torno de 40 mil crianças e adolescentes. A maioria, segundo a ABCD, tem boa aparência. Ou seja, são muito provavelmente vítimas de tráfico humano com vistas à pedofilia/prostituição. Quando buscamos os números mundiais, encontramos que 1.2 milhões de crianças desaparecem anualmente, vítimas de tráfico humano.

Portanto, o projeto de lei apresentado pelo Presidente Bolsonaro é significativo e fundamental nessa guerra em defesa da infância. Mas uma lei não vale por si mesma. Ela precisa da força do estado (aplicação da lei, políticas públicas, etc) e, talvez sobretudo, de uma cultura com sólidas bases morais; ou seja, uma cultura que repudie veementemente não apenas ações como as de Jeffrey Epstein, Crowley, Kinsey e outros perturbados, mas mesmo exposições supostamente “artísticas” que mostrem uma criança de 12 anos tocando um adulto nu, pois todas violam a sacralidade da infância e o futuro de nossas crianças e jovens.

Não apenas isso, precisamos de uma cultura menos focada no sentimentalismo e alicerçada sobre pétreos pilares morais. Nossa crise é, acima de tudo, moral.

Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito. Também é membro do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), sendo atualmente Diretor do DPL/RS.

da Redação

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