A democracia não ensina como escovar os dentes

Segundo Platão, os governantes deveriam ser filósofos. Desiludido com a democracia ateniense, Platão achava que todos os regimes levavam o Estado a diversos “males”. Para ele, o propósito do Estado era proporcionar aos cidadãos uma “vida digna”, que não significava apenas alcançar o bem-estar material, mas viver com sabedoria, piedade e, acima de tudo, justiça.

Platão viveu durante a “era de ouro” da Grécia, que durou apenas duzentos anos. Nessa época (também conhecida como período clássico) a literatura, a arquitetura, as ciências e a filosofia tiveram uma forte influência na civilização ocidental. Com a queda da tirania ao final do século VI, o povo das cidades-estados instituiu um sistema de governo no qual os políticos eram escolhidos por um sorteio entre os cidadãos, cujas decisões eram tomadas em uma assembleia democrática.

Os cidadãos não elegiam representantes para agirem em seu lugar. Além de serem uma minoria privilegiada, eram homens livres, acima de trinta anos e filhos de atenienses. As mulheres, os escravos, os jovens e os estrangeiros não votavam. Essa mesma assembleia sentenciou Sócrates à morte pelo crime de corromper os jovens com suas pregações.

Daí a decepção de Platão com a democracia, que, segundo ele, tende ao despotismo. Para Platão, os cidadãos, em qualquer regime, atuam sempre na defesa de seus interesses, em vez de pensarem no bem do Estado e do povo. Para ele, somente os filósofos poderiam entender o significado de uma vida digna, plena de virtudes cívicas e sempre a favor do cidadão.

Para entender essas coisas, ou seja, viver de maneira virtuosa, necessário se fazia dar ao povo conhecimentos sobre justiça, bondade, beleza e outras virtudes. Ao criar a sua Teoria das Formas, Platão sugeriu a existência de arquétipos das virtudes por ele defendidas. Ao dar exemplos de sua criação, usou metáforas como a do navio do Estado para explicar que somente os virtuosos (os filósofos) poderiam governar (ser reis).

Estes seriam os únicos capazes de conduzir o Estado para uma direção adequada, pois os donos dos navios -que representam a população em geral-geralmente não sabem navegar. Na metáfora platônica, os marinheiros, que representam os políticos, competem entre si pelos favores do dono da embarcação, que, se fosse um filósofo, não se envolveria nessa disputa menor. Para Platão, a democracia é cheia de variedade e desordem, dando igualdade para os iguais e para os desiguais da mesma forma.

A democracia teve diferentes significados ao longo do tempo. Na antiguidade clássica significava o povo (cidadão) no poder, que se manifestava diretamente nas assembleias. Atualmente, a democracia voltou a ser entendida como um regime no qual prevalece a vontade da maioria, expressa através do voto, cuja principal função é a escolha dos seus representantes.

O problema é que, para votar bem, é preciso ter conhecimentos suficientes para escolher. Como o brasileiro, de um modo geral, não tem esse conhecimento, volta-se ao tempo de Platão, quando a democracia era considerada cheia de variedade e desordem, dando a igualdade para os iguais e para os desiguais da mesma forma. Embora seja considerada o melhor dos regimes em comparação com os demais, ela sempre será contestada pela falha nas escolhas.

Pode-se até criticar o general João Batista Figueiredo, mas ele não deixa de ter razão quando afirmou que “um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar”. Os políticos, sabendo disso, são refratários a qualquer mudança que possa ensinar o povo a votar. E isso, pelo visto, ainda vai durar muito.

Luiz Holanda

Advogado e professor universitário

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