Restrição do debate: Você já ouviu falar da cultura do cancelamento?

As redes sociais podem servir para aproximar pessoas, trocar ideias, compartilhar experiências ou dialogar.

Podem também servir para o oposto, quando a falta de tolerância vem à tona.

De um modo geral, as pessoas que mais experimentam as manifestações de amor e ódio são as conhecidas do público, como artistas, políticos, jogadores famosos, intelectuais de destaque, jornalistas.

Regina Duarte, por exemplo, quando assumiu a Secretaria de Cultura, sofreu pressão da classe artística por meio de críticas em um manifesto conjunto que circulou na internet.

A influenciadora digital Gabriela Pugliese protagonizou polêmica depois de dar uma festa e postar fotos na sua rede social em época de quarentena. Ela afirmou que perdeu a paz, além de contratos, e resolveu se afastar por um tempo do mundo digital.

Essa prática de colocar uma pessoa na “berlinda”, expor o que fez ou disse para os demais, como forma de punição, vem sendo chamada de “cancelar”. Por estar ocorrendo com mais frequência no mundo todo, o fenômeno passou a ser conhecido como “cultura do cancelamento”.

É uma certa forma de boicotar um pessoa, na maioria das vezes por motivos racistas ou sexistas.

Hoje, qualquer um conhece ou ouviu falar de alguém que foi “cancelado”.

As mídias sociais facilitaram o crescimento dessa cultura, uma vez que todos estão hiperconectados e atentos ao que ocorre no mundo inteiro. Em especial em tempos de pandemia, quando o uso das redes aumentou.

É importante notar que no cancelamento agora começa a atingir também indivíduos no seu cotidiano, pessoas comuns, por coisas banais ditas ou escritas que são julgadas, nem sempre com chance de defesa.

O assunto é polêmico.

Uns são favoráveis e defendem que certos comportamentos abusivos não podem ser tolerados. Mas outros são contra, porque a cultura do cancelamento se dá em um ambiente privado, na rede social da pessoa, por algo que pode ser considerado ofensivo de forma equivocada.

Seria um ensaio de retorno aos tempos da Inquisição ou apenas uma forma de indignação válida?

Nos EUA, um americano filho de migrantes mexicanos perdeu o emprego por ter feito um gesto considerado racista sem intenção. O cidadão que o fotografou e denunciou disse depois que pode ter exagerado na interpretação, mas o estrago já estava feito na vida do “cancelado”.

Vive-se em uma época que parece querer punir a liberdade de expressão ao se demonstrar intolerância a pensamentos opostos.

Há, ainda, uma tendência à humilhação pública que tem levado pessoas a colocarem outras em “listas negras” por exporem seus pensamentos e opiniões pessoais.

Nesse sentido, a cultura do cancelamento restringe o debate e impõe o medo. E passou a ser usada com fins políticos e ideológicos, quando um grupo resolve denunciar outro apenas por não concordar com o que é postado. Não existe inclusão democrática se não se assumir o clima de intolerância em todos os lados. A esquerda, há algum tempo, busca se beneficiar com acusações desse tipo contra a direita.

Historicamente, a cultura do cancelamento já existia anteriormente ao advento da internet. Era um dos objetivos da guerra cultural e hegemônica, utilizada na antiga União Soviética, priorizando a narrativa progressista, na qual pessoas com determinados ideais se passavam por vítimas e massacraram aqueles com visões diferentes, que não tinham como se defender.

Mesmo agora, quando as estátuas continuam a cair, essas pessoas, os “canceladores”, negam a existência de uma guerra cultural contra os valores do passado.

No Brasil, o cancelamento prejudica os indivíduos e destrói a liberdade. Induz medo nas pessoas comuns e atrapalha o debate público.

A ala progressista reclama da polarização. Antigamente, só a esquerda tinha voz. Agora, ela não tem como calar vozes dissidentes e apela para manipulações e ataques sem consistência.

Quando parte para o debate, faltam argumentos para sustentação de suas teses.

Em época de pandemia, a “turma do zoom”, como diz Fiuza, realiza debate sem o contraditório, porque os liberais e os conservadores estão muito mais preparados atualmente, levando as elites progressistas ao desespero intelectual.

Com vários nomes relevantes em defesa das pautas conservadoras, fica mais evidente a utilização do cancelamento para tentar vencer a narrativa da direita. Além de ser mais fácil “cancelar” alguém do que ganhá-lo no debate, mesmo que virtual.

Em resumo, a cultura do cancelamento passou a ser usada por esquerdistas que criam alvos entre os que discordam deles.

Como a ala conservadora passou a revidar com o mesmo artifício, os grupos de esquerda começaram a pedir o fim da cultura do cancelamento porque entenderam que a “massa de manobra” está furando a bolha de ideias impostas e boicotando seus produtos e agendas.

Trump recentemente declarou:

“Se você não fala a língua deles, realiza seus rituais, recita seus mantras, e segue seus mandamentos, será censurado, banido, incluído na lista negra, perseguido e punido”.

A cultura do cancelamento, nesse caso e outros, seria sinônimo de censura e perseguição, a pena capital das redes sociais.

Carlos Arouck

Policial federal. É formado em Direito e Administração de Empresas.

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