Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Você já foi fisgado?

Confesso que já fui um pescador fanático, ainda jovem, no estado de São Paulo e, depois, durante os 26 anos que vivi na bela e querida Corumbá (MS). Cheguei até a ter motor de popa e barco de alumínio. Foram tempos bons de convivência com a natureza. Quantas vezes, após as aulas do período noturno do Centro Universitário, eu descia com amigos até o porto da cidade, subia em “chatas” e barcos ancorados e passava horas jogando conversa fora ouvindo o estalar dos peixes que pulavam fora d’água e, o que era melhor, pegando belos exemplares. Eram tempos da abundância de peixes de todos os tamanhos e espécies. 
Hoje, distante de Corumbá, leio e escuto notícias sobre o desaparecimento dos peixes nas margens da região portuária que não resistiram a uma exploração predatória sem fim. Foi uma conjunção de fatores que fragilizou o estoque pesqueiro da região pantaneira corumbaense. O grande responsável é a omissão governamental, que mesmo com denúncias e evidências pouco fez para coibir o desastre que se avizinhava. Depois, como atividade econômica, a “indústria sem chaminés” implantou-se ali como turismo inconsequente que privilegiava o turista sem consciência preservacionista e ganancioso, que não se contentava com alguns exemplares de peixes, querendo levar cada vez mais e mais. Dizia-se até que falsos turistas transportavam grande quantidade de peixes para a comercialização em suas cidades de origem. Isso sem contar com a atividade predatória de frigoríficos. Tudo com a conivência e omissão dos pescadores profissionais. 
A tudo isso veio somar o lixo e os esgotos das cidades do entorno do Pantanal, que sem qualquer pudor continua sendo escoado para a malha fluvial pantaneira, apesar das promessas de instalação de usinas de despoluição de águas servidas urbanas.
Com o tempo, e com manifestações da sociedade, intelectuais, estudantes e até organizações não governamentais, foram sendo implementadas políticas e legislações para conter a poluição, a pesca predatória e o assoreamento da planície alagadiça pantaneira. Mas um grande estrago já foi feito. Uma legislação aprovada na Assembleia Legislativa tempos atrás, para disciplinar a pesca, apesar das boas intenções assustou a todos por liberar apetrechos predatórios.
Vem sendo divulgadas ideias e projetos que merecem uma ampla discussão pela sociedade, que, em última análise, deve ter a opinião final sobre o assunto. Uma delas, radical em sua concepção, prevê simplesmente a proibição da pesca por um número determinado de anos. Isso já foi testada em outras regiões e em Corumbá, no caso dos peixes conhecidos como Dourados, com resultados definitivos para a política preservacionista. Sabe-se, porém, que tais propostas radicais podem trazer em seu bojo uma grave consequência social. O que fazer com os verdadeiros pescadores profissionais que usam técnicas artesanais e dependem, com suas famílias, desta arriscada e solitária atividade? Nesta perspectiva, deveria haver então um sério comprometimento político e, acima de tudo, muita coragem dos governantes estadual e municipais para propor alternativas ao impasse, mesmo porque o peixe é um alimento vital à sobrevivência humana. Ação difícil de ser concretizada, mas não impossível.
Outra ideia é a chamada atividade do “pesque e solte” que atende principalmente a atividade turística e esportiva, mas também é uma proposta polêmica. A pergunta é como deve ser o procedimento para não prejudicar o peixe ao soltá-lo? O próprio pescador sabe como fazê-lo? 
Tenho visto que em muitos casos os peixes soltos não conseguem sobreviver aos ferimentos provocados pelos anzóis. Fico a pensar se alguém perguntou a um Pintado ou a um Pacú, por exemplo, se a fisgada dói. Nos meus velhos tempos de pescador, levei várias fisgadas no dedo, e olhe, doeu prá burro.
Continuo a gostar de comer peixe, mas perdi completamente a vontade de ser pescador e, muito menos, ver programas de pesca na TV. Minha consciência dói.
Valmir Batista Corrêa

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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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