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A vida não tem preconceito... É um dom que deve ser preservado

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O Brasil parou essa semana para discutir o caso de uma menina, que desde os 06 anos de idade sofria abuso por parte de um tio, tendo a situação saído de controle com a gravidez da garota, aos 10 anos de idade.

Após exames médicos e constatação da gravidez, já avançada em 22 semanas, o hospital de sua cidade, São Mateus, declarou-se sem condições de fazer o aborto autorizado judicialmente. Porém, foi levada para outro estado e o aborto foi realizado.

As mídias sociais deram uma pausa nas discussões políticas para discutir a vida e a melhor forma de preservá-la? Eu diria que não!

O que se viu foi o uso do tema aborto, direcionado pela mídia, que enfatizou o direito legal da vítima, para salvaguardar vida da mãe, a qualquer custo. A vida de 05 meses e meio, que teimava em crescer inocentemente dentro do ventre da criança mãe, foi condenada a morte.

Entretanto, a Constituição brasileira declara, no caput do artigo 5º, que o direito à vida é inviolável; o Código Civil, que os direitos do nascituro estão assegurados desde a concepção (artigo 2º); e o artigo 4º do Pacto de São José, que a vida do ser humano deve ser preservada desde o zigoto.

Neste caso, ao que parece, a vida do bebê, com sexo definido (uma menina), não teve direito à vida. Foi concebida por estupro e de forma incestuosa.

Apesar de a nossa legislação permitir o aborto em caso de estupro, creio não ser esse o principal motivo para interesse dos políticos e religiosos pela causa. Pois, instalou-se uma guerra de opiniões em todas as mídias, com declarações absurdas e preconceituosas, como o caso de uma enfermeira que disse que “achava que a menina estava gostando” dos carinhos do tio.

Uma professora disse: “Não foi violência nenhuma, ela já tinha vida sexual há 04 anos com este homem. Deve ter sido bem paga.”

Um padre declarou que “que a menina estava gostando e compactuou com o estupro”.

Uma enfermeira, uma professora, um padre, entre outras centenas de comentários preconceituosos, só demonstra que o brasileiro não precisa de lei que legalize o aborto. Precisam de educação sexual de qualidade, que compreende o ser humano além dos instintos sexuais. Corpo. Mente. Espírito.

É espantoso que profissionais de saúde e da educação não tenham conhecimento mínimo de psicologia infantil para saber que a criança NUNCA é culpada.

Ela é um ser em desenvolvimento, dependente dos adultos para ser educada, para ser humanizada através do amor e dos cuidados dos adultos. Adultos estes, que deveriam respeitar a inocência da criança e, aguardar a sua maturidade física e psicológica para se relacionar sexualmente com outro ser humano de igual maturidade.

Adultos que apresentam distorções na forma de interpretar o abuso infantil trazem consigo uma grande possibilidade de ter sido vítima de abuso no passado.

Podem banalizar o abuso ou culpar a vítima (como talvez foi culpada um dia). A banalização do abuso ocorre quando a criança abusada se identifica com o abusador, ou seja: vai cometer abuso também.

O assunto é polêmico e segue por diferentes caminhos. Mas, julgo importante destacar alguns pontos, sem pretender aprofundar.

Voltando ao caso do aborto em questão. Sabemos que esse caso foi dividido entre aqueles que julgaram ser importante preservar a vida da menina grávida e aqueles que queriam preservar as duas vidas: da mãe e da filha. Todos os argumentos são válidos. Entretanto, penso que esta é uma decisão que cabe à família e ao médico.

Muito me admira a ousadia de certas autoridades, que ameaçam “investigar” se houve pressão por parte de pessoas e de médicos, para evitar que a menina fizesse aborto. Outros chamaram os populares que foram a porta do hospital de “fanáticos religiosos.”

Falta-lhes o discernimento de que cristãos são a favor da vida em qualquer contexto. Todas as formas de vida importam. E se alguma vida for deficiente dentro do útero, um cristão pode optar por deixar vir ao mundo e esperar que a natureza se encarregue do tempo. Até mesmo as vidas originadas de estupros têm o direito de nascer, se assim a vítima optar.

Falo com propriedade, pois, trabalhei há 30 anos, na pastoral da criança, como psicóloga voluntária. Tínhamos uma linha telefônica denominada SOS ABORTO. As mulheres com gravidez indesejável, depois de ter fracassado nas tentativas de abortamento, procuravam nossa clínica, para receber ajuda para ter a criança.

O fato mais relevante é que a maioria das mulheres relatava estar na sua segunda ou terceira gravidez (tendo conseguido abortar antes). Muitas chegavam com sequelas emocionais de abortos anteriores. Recebiam ajuda de uma equipe de profissionais de diferentes áreas: médicos, psicólogos, pediatra, advogados e juízes. Conforme a vontade da gestante fazíamos as orientações.

Para as que queriam criar a criança, a ajuda vinha em forma de enxoval, emprego, responsabilização do pai da criança. Após o nascimento, pediatras voluntários faziam os primeiros atendimentos. Reintegração ao lar para as mulheres que foram expulsas de casa. Encaminhamento para adoção legal e consequente tratamento psicológico para minimizar sequelas.

Um certo dia chegou em nossa clínica, uma jovem vinda de outro estado. Buscava o pai da sua criança, com quem ficou apenas uma vez e engravidou.

Ao descobrir que ele era casado, não podia voltar pra casa, pois, seu pai a expulsara. A situação era inusitada para mim. O que fazer com a grávida abandonada?

Casada e mãe de três filhos pequenos, conversei com meu esposo, e resolvemos adotar a grávida. Como já tínhamos empregada fixa e babá, a moça ficou morando com a gente até o nascimento do filho.

Durante os quase 07 meses que morou conosco conseguimos o enxoval do bebê e o pré-natal gratuito. Com o meu apoio psicológico, ela conseguiu escrever uma carta para o pai e, já no final da gravidez recebeu a resposta dele pedindo para ela voltar para casa.

Ela teve parto normal. Fizemos o registro no cartório e eu fui testemunha.

No sétimo dia após o nascimento, a nossa grávida foi embora para o seu estado levando seu bebê, perfeito e com saúde.

Faz 30 anos que isso aconteceu. Não tinha internet na época. Confiei que ela iria me escrever cartas. Mas, perdemos o contato. Só guardo na minha memória o lindo sorriso da nossa NICE.

Gratidão é o sentimento.

Com essa história da menina de 10 anos, me lembrei das meninas de 13, 14, 15 , 20, 23 anos... que passaram por nós, cujo sonho comum, de cada uma delas, era o desejo de ser amada e constituir uma família.

Passei a refletir, o quão importante foi o nosso trabalho no SOS aborto. Muitas vidas só dependiam de um apoio simples e generoso para serem salvas.

Bernadete Freire Campos

Psicóloga com Experiência de mais de 30 anos na prática de Psicologia Clinica, com especialidades em psicopedagogia, Avaliação Psicológica, Programação Neurolinguística; Hipnose Clínica; Hipnose Hospitalar ; Hipnose Estratégica; Hipnose Educativa ; Hipnose Ericksoniana; Regressão, etc. Destaque para hipnose para vestibulares e concursos.

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