Cidadania Plena: Ah, falta muito

Os protestos de 13 de março de 2016 foram um exemplo de manifestação pacífica. Pouquíssimos registros de violência, ao que me consta, nenhum confronto.


Sempre observando aos detalhes, vou listar hoje alguns que me chamaram a atenção e que acredito na utilidade da divulgação. Quem exerce a função de comunicar, tem de cumprir a desconfortável missão de evidenciar as contradições indigestas ás vezes.

Ontem saí cedo de casa e fui sentir a rua e o povo.

Antes das oito já tomava meu café da manhã na lanchonete do posto de gasolina na esquina do local onde ocorre a distribuição dos jornais gratuitos. Assim como eu, outras pessoas fizeram o mesmo.

Atento às conversas nas mesas vizinhas, a ansiedade pairava no ambiente. Comentários diversos acerca dos porquês de cada um foi o prato mais saboroso servido àquela ocasião.

A tal distribuição de jornais é realizada na Avenida Afonso Pena, avenida principal da região central – entre as ruas 13 de Maio e 14 de Julho (em Campo Grande-MS) – onde se faz um pequeno congestionamento.

Ali do posto já saltou aos olhos o despreparo de muitos motoristas: muitos dos que vinham descendo a Afonso Pena simplesmente não conseguiam aguardar espaço no local da distribuição de jornais sem obstruir a rua 13 de Maio.

Muitos não entendem, mas eu vejo nos olhos e na postura de alguns daqueles motoristas que o que os angustia é a simples possibilidade de que alguém que faça a conversão a partir da 13 de Maio “roubando” um lugar na via que ele atribui posse a si. Sentindo-se vulnerável, o cara passa com sua grosseria e despreparo sobre os direitos do outro, como um rolo compressor.

Agora sim.

Está lá, no meio da rua, obstruindo a passagem de todos, com aquela cara de quem sabe a ‘burrada’ que está fazendo, o típico mal educado. Pra gente que já consegue exercer alguma cidadania, o único consolo é olhar praquela cara patética e pedir a Deus que nem num deslize nos coloque em condição semelhante.

Peguei meus jornais e tomei meu ônibus de volta pra casa.

Depois do almoço chegou a hora da concentração para a manifestação – havia combinado com uma amiga que é delegada da Polícia Federal, que ajudaria na coleta de assinaturas em apoio à PEC 412, que pretende garantir autonomia à Polícia Federal. Acredito ser esta uma campanha de todo cidadão – e saí cedo, fui caminhando.

Ao me aproximar da Praça do Rádio percebi que ali já se disputavam vagas de estacionamento com a ignorância típica de quem não sabe viver em sociedade: rampas de acesso à cadeirantes é primeiro dos direitos a serem pisoteados pelos antissociais; seguido bem de perto por guias rebaixadas (garagens, via de regra), e por fim, o passeio público (as calçadas) são convertidas pelos mais afoitos em vagas exclusivas, obrigando os pedestres a caminharem na via de rolamento dos carros... é triste.

Chegando na praça, já é possível ver que gente jogando papel e toda sorte de lixo na rua. Fico pensando se essa gente escarra no prato em que come durante a refeição? Jogar lixo na rua é mais ou menos isso. Pior, não se restringe ao próprio prato.

O uso da bandeira nessas ocasiões merece capítulo exclusivo.

Ontem vi a Bandeira Nacional, símbolo máximo da Nação, ser usado como bandana, canga, saia, top, sári, toalha de piquenique e petrecho pra amarrar uns trecos e não me espantaria ver uma fralda feita de uma bandeira...

Posso estar sendo conservador demais para os padrões atuais, mas neste quesito específico vou optar por não me modernizar. Uma coisa é confeccionar todas essas coisas com o motivo, a estampa da bandeira, outra coisa é usar a própria Bandeira.

A Bandeira do meu país merece o devido respeito, não posso dizer o mesmo da bandeira do seu país.

Aí o ‘Zé Ruela Ansioso’ que fechou a rua 13 de Maio pra chegar mais perto da distribuição dos jornais, a ‘D. Maria’ que estacionou em frente à uma rampa, o ‘Zé das Couves’ que obstruiu uma garagem, e todas as pessoas que jogaram papel de bala e de picolé, garrafa e de cerveja vazias na rua, seguem felizes manifestando indignação e exercendo pseudo-cidadania, numa festa alegre que parece celebrar algo, comemorar um título futebolístico. “Tá serto...”

Não gosto de ser o chato a apontar o dedo pra essas coisinhas que citei acima. Mas também não gosto de pagar impostos sem contrapartida, não gosto sistema do voto proporcional, não gosto do presidencialismo...

Não gosto de tanta coisa, mas faço, pois vivo em sociedade.

João Henrique de Miranda Sá é escritor e redator autônomo

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João Henrique de Miranda Sá

Jornalista independente em Campo Grande - MS.

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