O povo foi para as ruas, de novo

A classe média e parte da classe A (esta não se mistura, apesar de apoiar o movimento) foram para as ruas em uma festa cívica “nunca antes vista neste país”, segundo os comentaristas da Rede Globo. O grito de guerra dividia-se em dois blocos principais: Fora Dilma, Lula na cadeia; Apoio à Polícia Federal, Juiz Moro é o nosso herói. Algumas faixas clamavam contra a corrupção generalizada, mas de forma vaga e sem citar nomes de corruptos e de corruptores.


E o povão onde estava nesse domingo? Os pobres, os desempregados e os excluídos não foram para as ruas protestar contra Lula, Dilma e o PT, nem para homenagear o juiz Moro e a Polícia Federal. Entretanto, também não irão para as ruas defender os petistas. Estão muito preocupados com a sobrevivência, não sabem o que fazer e não foram consultados para nada.

Caso a Dilma seja defenestrada do poder, Michel Temer assumirá a presidência e o PMDB continuará mandando, como agora manda. Eduardo Cunha continuará presidente da Câmara (apesar de a Rede Globo já ter decretado a sua cassação), Renan Calheiros continuará presidente do Senado, enquanto Romero Jucá, Jader Barbalho, Fernando Collor e os demais também continuarão no poder.

Tudo indica que os governantes (Executivo e Legislativo) sabiam (e participaram) das maracutáias financeiras ocorridas na Petrobrás, BNDES e outros tantos órgãos da administração pública. Nesse contexto, pergunta-se: caso Lula, Palocci e toda a cúpula do PT sejam presos, a corrupção no Brasil estará exterminada? Será que os manifestantes do dia 13 acreditam nisso, ou será que novamente a população brasileira está sendo manipulada por uma elite política inescrupulosa, como já ocorreu no passado recente.

Em 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas, o povo foi para as ruas protestar contra a crise política e econômica. O resultado foi a construção de Brasília, a inflação galopante e a corrupção desenfreada. Em 1964 o povo voltou às ruas, primeiro com o Comício da Central do Brasil e depois com a “Marcha da família com Deus pela liberdade” – veio a ditadura militar e, em 1984, também nas ruas o povo pedia “Diretas Já” – acabou nas indiretas elegendo José Sarney (PFL, depois PMDB).

Poucos brasileiros se lembram de que há 30 anos, fevereiro de 1986, foi instituído o famigerado Plano Cruzado. O cruzeiro foi convertido em cruzado, com eliminação de três zeros na moeda, os preços dos bens e serviços foram congelados, os salários foram reajustados pela média com acréscimo de 8% e congelados, e um conjunto de outras medidas demagógicas foram adotadas.

Os consumidores, iludidos pela propaganda governamental, sentiram-se ricos e poderosos, partindo para o consumo desenfreado. Os empresários em geral (do proprietário da birosca da esquina ao banqueiro internacional) passaram a ser vistos como “especuladores desalmados” e foram severamente castigados pelos “fiscais do Sarney”. Consequentemente, houve desabastecimento e mercado negro (pagamento por fora); a dívida pública aumentou e a inflação foi represada artificialmente.

Apesar dos indicativos de crise, o povo estava feliz e eufórico, não percebendo que tudo não passava de um tremendo engodo, uma experiência acadêmica distanciada da realidade, em um governo chefiado por um político incompetente e corrupto. Os autores do plano se inspiraram em duas correntes teóricas em evidência na época: nas teses do engenheiro e economista Mario Henrique Simonsen que via benefícios no congelamento de preços porque este consistiria em antecipar ganhos no controle da inflação; e no Plano Austral implantado na Argentina um ano antes (que foi inspirado em um plano econômico testado em Israel).

Os prejuízos foram dramáticos e generalizados quando aconteceu o descongelamento. Entretanto, o grande beneficiário dessa catástrofe foi o PMDB que nas eleições de outubro elegeu a maior bancada do Congresso e 21 dos 22 governadores de Estado. Uma semana depois das eleições foi lançado o Plano Cruzado II desfazendo tudo o que o Cruzado I havia implantado. Em 1989 a taxa mensal da inflação era de 28,94%, um maluco processo hiperinflacionário.

As consequências imediatas foram o descrédito dos políticos e o surgimento de um demagogo “caçador de marajás” prometendo sanear a administração pública. A história se repetia: 30 anos antes outro demagogo prometia “varrer o país”, de norte a sul e do leste ao oeste. Prometia acabar com a corrupção e os desmandos administrativos. Tomou posse e, sete meses depois, renunciou à presidência, vindo um parlamentarismo fajuto com o avô de Aécio Neves como primeiro ministro. O País desembarcou no golpe militar de 1964.

Fernando Collor de Mello se elegeu em 1989 e levou consigo uma equipe onde se destacavam P.C. Farias, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Antônio Kandir, Zélia Cardoso de Mello, Ibrahim Eris, entre outras figurinhas que continuam atuantes ainda hoje. O novo presidente lançou o “Plano Brasil Novo”, em três etapas, que passou para a história como sendo Plano Collor I (16/03/1990 a janeiro de 1991), Plano Collor II (janeiro /1991 a 09/05/91) e Plano Marcílio (10/05/91 a 26/02/94).

Fernando Collor de Mello em 1992, depois de enfrentar um processo de impeachment, renunciou à presidência, sendo substituído por seu vice, Itamar Franco (PMDB). A corrupção e a crise política continuaram firmes. O Plano Real (elaborado pela mesma equipe do Cruzado) foi implantado em 27 de fevereiro de 1994, ainda no governo de Itamar Franco.  Para os que não viveram aquelas turbulências e para os que têm memória curta, o atual quadro da política econômica lembra aqueles tempos.

Depois veio Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e seu programa de privatização, a famosa e famigerada “privataria”, onde muito gente enriqueceu às custas da dilapidação do patrimônio nacional. Lula e o mensalão, Dilma e o petrolão são coisas recentes e estão na memória dos brasileiros, dispensando comentários.

A história se repete. Se Dilma for expulsa do poder e o Lula for preso, os grandes beneficiados serão o PMDB e o PSDB, como das outras vezes. Como diz Valdo Cruz, “Já a oposição celebra os protestos de ontem (13/3), e acerta com o vice (Michel Temer) um governo de transição para recuperar o país e, assim, espera reconquistar o poder em 2018. Afinal, hoje o clima nas ruas não é bom nem para ela”. Para tanto, pensa-se em um “parlamentarismo-misto” (sic).

Os políticos não estão preocupados com os desequilíbrios econômicos nem com as crises sociais, eles somente querem o poder e as mordomias daí decorrentes. Os donos das siglas partidárias que se locupletam com os recursos públicos via Fundo Partidário, e o caixa 2 provenientes das doações empresariais, estão tranquilos porque o voto é obrigatório e qualquer candidatura (de vereador a presidente da República) passará, obrigatoriamente, por eles.

Ressaltando, mais uma vez, que o impeachment de Dilma levará Temer à presidência; que a cassação de Eduardo Cunha não mudará nada na Câmara (porque todos são iguais); e que Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho e Collor de Mello continuarão mandando no Senado. Entretanto, a inflação, a recessão e o desemprego poderão desestruturar a sociedade brasileira por um longo tempo. Mas quem se importa com isso?

Em tempo. Eu acredito que o povo tem que ir para as ruas e protestar, gritar, clamar, bater panelas. Também fui à passeata e levei um cartaz com os seguintes dizeres: “ABAIXO A HIPOCRISIA DOS CORRUPTOS QUE GRITAM CONTRA A CORRUPÇÃO”.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

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Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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