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A Jornada em Busca do Herói

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De quatro em quatro anos o povo brasileiro vai às urnas para exercer o direito ao voto e assim mudar ou deixar o governante de plantão no cargo que exerce.

E em toda eleição é a mesma coisa: o povo não sabe votar; o povo não sabe escolher; o povo é teleguiado...

Segundo os “especialistas”, os “formadores de opiniões”, sociólogos, filósofos, “os artistas e seus coletivos”, “blogueiros de meia-tigela”, jornalistas, apresentadores, o candidato ideal seria aquele que detivesse as seguintes qualidades: fosse culto, honesto, trabalhador e não tivesse contato com os partidos políticos corrompidos.

Em 2018 o povo do Rio de Janeiro escolheu Wilson Witzel para governar o estado.

Na Capitania Hereditária do Amazonas o povo apoiou Wilson Lima e suas idéias para conduzir o estado.

No filme “Náufrago”, Tom Hanks interpreta um sujeito que depois de um acidente de avião, acaba ficando isolado e preso numa ilha tropical deserta e para não enlouquecer conversa com uma bola de voleibol a qual ele deu o nome de Wilson.

A escolha do governante carioca se deu assim: os viventes do Rio de Janeiro, cansados de tanta corrupção, partiram em busca de um herói. Uma espécie de jornada épica da população à procura do candidato ideal para governar o estado em que viviam. Depois de muito esquadrinhar se depararam com a figura de Wilson Witzel: advogado, juiz federal, cursou a Escola de Formação de Oficiais da Marinha e dois anos mais tarde se tornou fuzileiro naval, graduado em Tecnologia de Processamento de Dados, graduado em Direito, Mestrado em Processo Civil, doutorado em Ciência Política...

- “Eis o nosso homem”, disse o povo andante do Rio de Janeiro.

E o herói, Wilson, respondeu:

- “A população está absolutamente decepcionada com a política. Eu sinto muita receptividade quando digo que sou juiz federal, que não sou político de carreira.”

Na outra ponta do Brasil, lá onde as ONGS e os ecologistas fazem a festa, os sobreviventes da Capitania Hereditária do Amazonas também partiram à caça de seu herói. Depois de muito andar e procurar, resolveram tomar o “caxiri”, que é uma bebida fermentada produzida artesanalmente pelos índios Waiãpis (minúscula tribo localizada no leste da Amazônia) e fazer uma festa.

Segundo esses índios, que a maior parte da população da Capitania não conhece e nunca viu, a bebida “caxiri” muda sua compreensão, você fica feliz, tem visões e premonições. Depois de ingerir “baciadas” e “baciadas” de “caxiri” (a bebida é fermentada e produzida dentro de uma espécie de bacia), alguém ligou a televisão e apareceu uma figura dançando com um anão.

Era Wilson Miranda Lima, nascido em Santarém, e que migrou para Manaus aos 30 anos de idade. Trabalhou como professor de inglês e locutor de rádio em Itaituba, no Pará, onde também foi apresentador de televisão, fez curso de Gestão Turística, foi assessor técnico da Secretaria de Turismo, trabalhou como repórter na TV Tapajós e em 2006, mudou-se para Manaus para trabalhar como repórter e apresentador de rádio. Bacharel em Comunicação social com habilitação em Jornalismo, apresentou o programa Alô Amazonas, da TV A Crítica, líder de audiência no estado do Amazonas...

– “Agora a bronca é comigo” – disse o homem da televisão para a população que procurava um herói.

E fez um discurso para a patuleia exibindo matérias que mostravam irregularidades em serviços públicos, em Manaus.

- “Eis o nosso homem”, disse o povo sobrevivente e caminhante da Capitania Hereditária do Amazonas, com a visão turvada pelo “caxiri”.

Enquanto isso, Wilson, a bola falante do filme “Náufrago” e o náufrago, tentavam escapar da ilha em que ficaram presos após a queda do avião.

Wilson, o do Rio de Janeiro, transformou-se em Excelência e coroou a própria cabeça, sentindo-se um Monarca após o povo elegê-lo governador.

Wilson, o do Amazonas, também sofreu a mesma transformação ao ser eleito: tornou-se nobre e coroado.

Wilson, a bola falante do filme Náufragos, transformou-se em gente quando Chuck Noland (Tom Hanks), pinta um rosto humano em sua superfície com o próprio sangue, ao se ferir tentando produzir instrumentos que o ajudem a sobreviver. Humaniza Wilson, a bola, para não perder a razão.

Disse lorde Acton:

"O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus."

Wilson, o do Amazonas, imaginando ser um rei ou um déspota esclarecido, esqueceu tudo o que dizia e hoje sofre um processo de “impeachment” em uma investigação que apura a atuação de uma organização criminosa instalada no governo com o objetivo de desviar recursos públicos destinados a atender as necessidades da pandemia de covid-19. Sofreu um processo de desumanização ao tocar a coroa.

Wilson, o do Rio de Janeiro, disse:

“Me despi da toga para vestir a bandeira do Estado do Rio de Janeiro. Nas comunidades, eles viam, eu tenho alma de pobre”.

Esqueceu tudo ao pôr a coroa na cabeça e hoje é processado e foi afastado por suspeita de desvio de recursos da saúde durante a pandemia de corona vírus. Desumanizou-se pelo brilho do ouro.

Wilson, a bola falante que vivia com o náufrago, caiu da jangada em que os dois fugiam da ilha, após o náufrago adormecer, e desapareceu. O povo, desnorteado pelas escolhas que fez, pois seguiu todas as orientações dos “formadores de opiniões” e de suas soluções mágicas para todas as coisas, grita alto e forte para os céus em busca de alguma humanização:

- “Wilsoooooonnnnnnnn... “Wilsoooooonnnnnnnn... “Wilsoooooooonnn...”

Carlos Sampaio

Professor. Pós-graduação em “Língua Portuguesa com Ênfase em Produção Textual”. Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

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