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Dois anos do incêndio do Museu Nacional: “A casa da ovelha entregue aos cuidados do lobo”

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No último dia 2 de setembro fez dois anos que o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista pegou fogo.

A maior tragédia museológica do país aconteceu no ano em que o museu comemorava seus 200 anos de existência.

Esse também foi o dia em que, em 1822, foi assinada a Declaração de Independência do Brasil pela princesa Leopoldina, esposa de Dom Pedro I.

Aos cuidados da UFRJ, cujo então reitor era um filiado do PSOL, um partido socialista cuja ideologia despreza qualquer história que não esteja alinhada com seus objetivos revolucionários.

O que se pode esperar quando deixamos a casa da ovelha entregue aos cuidados do lobo?

O Museu Nacional foi fundado pelo rei Dom João VI em 1818 e seus primeiros acervos foram doados pela família imperial e por colecionadores privados. Antes de ser destruída, a instituição tinha uma das mais completas coleções de fósseis de dinossauros do mundo, além de múmias milenares egípcias, andinas e um acervo de mais de 530 mil livros.

A coleção egípcia era a maior da América Latina e era referência na área de Egiptologia. Em 1876, Dom Pedro II ganhou de presente o caixão da Dama Sha-Amunem-su quando viajou para o Egito e trouxe para o museu.

O acervo botânico, o primeiro Herbário do país, contendo vários exemplares da nossa fauna e flora, continha cerca de 550 mil espécies, onde muitas delas já estão extintas. A seção de Antropologia trazia 40 mil objetos representando mais de 300 povos indígenas.

Toda uma coleção etnológica, inclusive de povos já desaparecidos viraram cinzas. Felizmente, o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos, embora muito danificado, foi encontrado.

De um acervo com cerca de vinte milhões de exemplares, por volta de 75% disso foi destruído. Não foi um mero acidente, foi uma tragédia anunciada.

O Museu Nacional não tinha um plano de combate a incêndios. Os bombeiros relataram que os hidrantes estavam descarregados.

Em 2004, o então secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do estado do Rio de Janeiro, Wagner Victer disse:

“O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico".

Em 2016, em um relatório feito pelo próprio museu já apontava problemas de manutenção. Segundo o Ministério da Fazenda, os gastos com a UFRJ em 2017, administradora do Museu Nacional, chegaram a 3,1 bilhões de reais.

No entanto, a maior parte, 2,6 bilhões de reais era destinada apenas para folha de pagamento.

Incêndios não foram raros nos patrimônios da universidade. Aconteceu na Capela São Pedro de Alcântara em 2011; nas faculdades de letras e ciências contábeis, em 2012 e 2014; além do alojamento estudantil, em 2017, um ano antes da tragédia do Museu Nacional e nenhuma lição foi aprendida.

Em julho deste ano, a Polícia Federal, responsável pela investigação do incêndio, declarou:

"A perícia técnica-criminal confirmou que o início do fogo ocorreu no Auditório Roquette Pinto, localizado no 1º andar, próximo à entrada principal do Museu. O local provável do início do incêndio foi um dos aparelhos de ar condicionado instalado no interior do Auditório. O laudo pericial descartou a hipótese de incendiarismo ou ação criminosa".

Assim, como é comum na maioria das administrações pública de nosso país, esse foi apenas mais um crime sem criminoso e ninguém será responsabilizado. No entanto, o maior prejudicado foi a humanidade, cuja guarda dos testemunhos da sua história ficou aos cuidados de uma administração que pouco apreço teve pelo nosso passado.

Não estamos falando de um departamento qualquer, é uma universidade, uma das maiores do país inclusive, de onde deveriam sair as melhores soluções para um problema tão antigo quanto a nossa própria história.

Nada, simplesmente nada justifica tamanha atrocidade feita contra nossos patrimônios.

Até quando iremos tolerar que casos como esse voltem a acontecer sem que ninguém seja ao menos responsabilizado?

Que ao menos o nosso povo aprenda que o que aconteceu no Museu Nacional não foi um mero acidente, foi sem dúvida uma tragédia anunciada tanto técnica quanto ideológica.

Ter permitido que nossos registros históricos ficasse nas mãos de quem sempre desprezou a nossa história foi um erro que jamais poderá ser esquecido. Se as ações falam mais do que as intenções, que fique claro do que são capazes aqueles que se dizem defensores da educação.

O único objeto que resistiu incólume ao incêndio foi o velho Meteorito Bendegó, que tem entre 4,5 a 4,6 bilhões de anos e pesa cerca de 5,4 toneladas.

Se ele pudesse falar, o que nos diria?

Melhor não querer saber.

Talvez não aguentaríamos ouvir de alguém que por bilhões de anos conheceu o Sistema Solar e parte de nossa história, nos dissesse que fomos negligente e incapazes de aprender com nosso próprios erros.

Alan Lopes

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