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"Caê": Um narciso murcho e sem noção

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Nestes últimos dias a Globo anunciou com estardalhaço o filme do “muso das canhotas”, Caetano Veloso, “Narciso em Férias”. Colocou em campo todo seu arsenal de editores, blogueiros, colunistas, analistas, e outros “istas”, mais os jornais O Globo, Folha, Estadão, os sites Uol, Terra, Ig, que escreveram centenas de textos elogiando por todos os ângulos o citado filme, tentando fazer a cabeça do público.

O que estarrece nestes textos é o puxa-saquismo, “a babação de ovos” e a falta de uma análise crítica.

O filme estreou no dia 7 de setembro, “uma data simbólica”, segundo os analistas de araque. Parece que ninguém assistiu. Parece ter sido um fracasso retumbante, pois, subitamente cessaram de anuncia-lo.

Caetano é um marqueteiro de primeira categoria. Ficou rico cantando músicas de protesto e fazendo elogios a sí próprio com o aval de toda mídia de esquerda.

Hoje, fora de circuito, com a mesma imprensa a bajulá-lo, mas sem fazer sucesso, acreditou, junto com sua mulher, que a melhor maneira de sair do ostracismo em que se encontra era lançar um filme, cujo personagem principal é ele; roteiro: ele. O filme todo é “ELE” falando para a câmera.

Caetano se acha uma espécie de deus.

Paulo Francis escreveu o artigo “Caetano, pajé doce e maltrapilho“, na Folha de São Paulo do dia 25 de junho de 1983, onde o chamava de “totem” e arrematava:

“... falava de tudo com autoridade imediatamente consagrada pela imprensa, que é mais deslumbrada do que o público em face dele...O totem não pode errar. É Deus na carne humana”

Paulo Francis sabia das coisas. Sacava que o primeiro “totem” brasileiro falava de TUDO com AUTORIDADE imediatamente consagrada pela imprensa deslumbrada. Isso em 1983. Hoje, pela bajulação, a coisa se confirma.

Caetano é um milionário. Ficou rico cantando músicas contra a ditadura. Ficou rico divulgando ao mundo todo como foi perseguido. Ficou rico fazendo com que as pessoas acreditassem em suas histórias.

Em 12/01/2014, Rodrigo Constantino escreveu um artigo intitulado: “Caetano Veloso diz ser classe média, mas é esquerda caviar mesmo”. Lá ele dizia:

“Pois bem: Caetano Veloso ofende a classe média quando diz que não ficou rico, e que ainda é classe média. É o que ele afirma em sua coluna de hoje no GLOBO: ‘Eu sou da classe média (não adianta os malucos da internet dizerem que sou rico: minha cabeça é classe média e, na real, não fiquei rico), tendo a reagir como pessoas da classe média. Sim, sou rebelde, na verdade um medalhão transviado, mas sou classe média (como a maior parte dos que precisam se manifestar de alguma forma nessa vida)’.”

Continua Constantino:

“Um sujeito que faz um único show pelo cachê de R$ 600 mil pode ser qualquer coisa, menos classe média... o valor do apartamento que ele dividia com a ex-mulher Paula Lavigne: R$ 37 milhões! É esse o montante que Paula estaria pedindo pelo imóvel...”.

E continua:

“O que podemos perceber, portanto, é que Caetano é rico, muito rico, faz parte da minúscula elite financeira brasileira.”

Mas voltemos ao milionário Caetano, sentado em uma cadeira, relatando seus sofrimentos: foi preso por nada, nenhum motivo. Os malvados soldados da feroz ditadura brasileira o perseguiram e o prenderam. No relato ele é uma espécie de anjo celestial. A madre superiora perde pra ele. Não há motivo? Então tire suas conclusões:

Daniel Favero, do site Terra, em 23 de dezembro de 2013, escreveu um texto sobre o assunto e disse (CLIQUE AQUI):

“Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos pela ditadura, em São Paulo, 14 dias depois após o AI-5, entrar em vigor. Foram transferidos para o Rio de Janeiro e soltos dois meses depois, já inocentados das acusações de desrespeito ao hino nacional e a bandeira... A prisão ocorreu em virtude de um espetáculo que os dois fizeram com os Mutantes na boate Sucata, no Rio de Janeiro. O palco foi ornado com uma imagem do artista plástico Hélio Oiticica, na qual um bandido conhecido como Cara de Cavalo (executado pela Scuderie Le Cocq, esquadrão de morte da polícia) aparece deitado no chão com a inscrição: ‘Seja marginal, seja herói’. Uma pessoa que se sentiu ofendida com a imagem conseguiu fechar o local por via judicial. Correu então a notícia de que o local tinha sido fechado por causa da ‘bandeira’ de Oiticica.”

Quando saíram da prisão, Caetano e Gil, começaram a divulgar que ‘iam embora do país, pois foram aconselhados a ir embora’ - e foram. Para Inglaterra. Primeiro mundo. Londres, onde fizeram músicas, dançaram, encheram a cabeça de fumaça, se embebedaram, lançaram discos, passearam, tiveram uma “intensa fase criativa”. Chamaram a esse período de suas vidas de EXILIO! Doce exilio. Voltaram ao Brasil em 1972.

Para não deixar dúvidas, trago o relato de quem viveu e também foi preso na época:

O texto é de José Teles (CLIQUE AQUI):

“Na época de 67, 68 a gente tinha muita reunião de artistas, teatro cinema, jornalistas, participávamos de assembleias e passeatas. Ao mesmo tempo, eu estava na universidade e tinha uma certa liderança no movimento estudantil. Com o AI-5, a repressão foi se radicalizando, tornando-se mais violenta, menos formas de luta se mostraram possíveis dentro de uma relativa legalidade. Eu participava de uma organização de esquerda, então radicalizei minha participação também. Fui preso porque ia fazer uma panfletagem diante de uma fábrica, num primeiro de maio”, relembra o músico carioca Ricardo Vilas.
Em 1968, ele integrava o grupo Momento Quatro, com Maurício Maestro, David Tygel, e Zé Rodrix (...) O Momento Quatro desfez-se com a prisão de Vilas, que ficou detido até o ano seguinte, quando foi um dos 15 presos trocados pela libertação do embaixador americano Burke Elbrick, sequestrado por guerrilheiros quando a luta armada contra a ditadura se instalara no Brasil (...) O jornal O Globo, de 2 de outubro, anunciava que o próximo show da boate Sucata seria de Caetano Veloso. O lugar tornara-se o preferido das estrelas da MPB. O programa Divino Maravilhoso, na TV Tupi, teve cinco edições (de outubro a dezembro de 1968), dos quais só restam fotografias (os tapes teriam sido apagados para evitar que caíssem nas mãos da polícia do regime). Os tropicalistas imprimiram o programa, dirigido por Fernando Faro e Antônio Abujamra, influências de o Rei da Vela, a peça de Oswald de Andrade, dirigida por Zé Celso Martinez, e Terra em transe, de Glauber Rocha, condensadas em uma hora de imagens até então impensáveis na TV brasileira.
Uma delas chocou telespectadores: Caetano Veloso cantando Boas Festas (de Assis Valente) com um revólver apontado para a plateia (e não para a própria cabeça, como está nos livros sobre a Tropicália). Em um dos programas houve até um enterro simulado do movimento. O mês de outubro de 1968 foi decisivo para o tropicalismo.”

Esse era o cenário da época.

Voltemos ao filme e ao relato dos sofrimentos do “milionário” das esquerdas:

“...Eles me tiraram da cela e disseram: ‘Ande em frente e não olhe para trás!’. Eu pensei que eles iam atirar. Mas eles me levaram no barbeiro. Eu tinha um cabelo grande, todo cacheado, grandão, e eles cortaram meu cabelo. Eu fiquei feliz porque não ia morrer, e eu não podia nem demonstrar a minha felicidade, adorando aquele barbeiro cortando o meu cabelo...fala da angústia da prisão de forma muito íntima. Diz que não conseguia gozar, porque nem sequer conseguia ter uma ereção. E também não conseguia chorar. Acaba fazendo um paralelo entre a lágrima e o esperma... conta as lembranças com riqueza de detalhes ('acordei ouvindo gritos de pessoas sendo torturadas'...lê o relatório de sua prisão...canta canções emblemáticas do período...revela seu medo de barata ....e a revolta por não poder ter um violão na cela... para se distrair, lia um jornal velho deixado no chão. Até que lhe chegam dois livros, O Bebê de Rosemary, de Ira Levin, e O Estrangeiro, de Albert Camus ...Eis que aparece um 'meganha de bom coração':...um sargento bondoso, que deixava a então mulher do músico, Dedé, entrar na cela e ficava vigiando no corredor para ver se não chegava alguém... já na Bahia, Caetano vê sua imagem no espelho e não a reconhece..."

Seu filme é mais um acometimento do “vitimismo esquerdista”, nestes tempos líquidos, que ataca como um vírus todos aqueles que foram esquecidos pelo povo porque não tinham nenhuma importância, ou porque o povo os via apenas como sugadores dos bens alheios ou como “alienadores” das mentes ou ainda como artistas encarregados de “fazer uma revolução” que o povo não queria. De uma forma ou de outra o povo os rejeitou.

Hoje choram “lágrimas de crocodilo”, tentando enganar mais uma vez aqueles que um dia os apoiaram.

Carlos Sampaio

Professor. Pós-graduação em “Língua Portuguesa com Ênfase em Produção Textual”. Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

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