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A “memorável e brilhante” trajetória de um decano no apagar das luzes

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Não é de hoje que esse tipo de “autoridades” fazem das suas. Sempre foi assim, e até dizem que houve um tempo em que foi muito pior. Pobre povo brasileiro, cujas “autoridades” são desse quilate. Só para “enaltecer e potencializar” ainda mais a sua carreira de “ser superior (ou Deus)”, nas palavras do jornalista Mário Abrahão, vale a pena relembrar uma publicação do Site NE assinada por Kiko Nogueira, que segue:

ARQUIVOS IMPLACÁVEIS

“Entendi que você é um juiz de merda”, disse Saulo Ramos a Celso de Mello

A história está relatada no livro “Código da Vida”, de Saulo Ramos, ex-ministro da Justiça responsável pela nomeação de Celso de Mello para o STF no governo Sarney.

“Terminado seu mandato na Presidência da República, Sarney resolveu candidatar-se a Senador. O PMDB — Partido do Movimento Democrático Brasileiro — negou-lhe a legenda no Maranhão. Candidatou-se pelo Amapá. Houve impugnações fundadas em questão de domicílio, e o caso acabou no Supremo Tribunal Federal.
Naquele momento, não sei por que, a Suprema Corte estava em meio recesso, e o Ministro Celso de Mello, meu ex-secretário na Consultoria-Geral da República, me telefonou:
— O processo do Presidente será distribuído amanhã. Em Brasília, somente estão por aqui dois ministros: o Marco Aurélio de Mello e eu. Tenho receio de que caia com ele, primo do Presidente Collor. Não sei como vai considerar a questão.
Celso de Mello
— O Presidente tem muita fé em Deus. Tudo vai sair bem, mesmo porque a tese jurídica da defesa do Sarney está absolutamente correta.
Celso de Mello concordou plenamente com a observação, acrescentando ser indiscutível a matéria de fato, isto é, a transferência do domicílio eleitoral no prazo da lei.
O advogado de Sarney era o Dr. José Guilherme Vilela, ótimo profissional. Fez excelente trabalho e demonstrou a simplicidade da questão: Sarney havia transferido seu domicílio eleitoral no prazo da lei. Simples. O que há para discutir? É público e notório que ele é do Maranhão! Ora, também era público e notório que ele morava em Brasília, onde exercerá o cargo de Senador e, nos últimos cinco anos, o de Presidente da República. Desde a faculdade de Direito, a gente aprende que não se pode confundir o domicílio civil com o domicílio eleitoral. E a Constituição de 88, ainda grande desconhecida (como até hoje), não estabelecia nenhum prazo para mudança de domicílio.
O sistema de sorteio do Supremo fez o processo cair com o Ministro Marco Aurélio, que, no mesmo dia, concedeu medida liminar, mantendo a candidatura de Sarney pelo Amapá.
Veio o dia do julgamento do mérito pelo plenário. Sarney ganhou, mas o último a votar foi o Ministro Celso de Mello, que votou pela cassação da candidatura do Sarney.
Deus do céu! O que deu no garoto? Estava preocupado com a distribuição do processo para a apreciação da liminar, afirmando que a concederia em favor da tese de Sarney, e, agora, no mérito, vota contra e fica vencido no plenário. O que aconteceu? Não teve sequer a gentileza, ou habilidade, de dar-se por impedido. Votou contra o Presidente que o nomeara, depois de ter demonstrado grande preocupação com a hipótese de Marco Aurélio ser o relator.
Apressou-se ele próprio a me telefonar, explicando:
— Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto no caso do Presidente.
— Claro! O que deu em você?
— É que a Folha de S.Paulo, na véspera da votação, noticiou a afirmação de que o Presidente Sarney tinha os votos certos dos ministros que enumerou e citou meu nome como um deles. Quando chegou minha vez de votar, o Presidente já estava vitorioso pelo número de votos a seu favor. Não precisava mais do meu. Votei contra para desmentir a Folha de S. Paulo. Mas fique tranquilo. Se meu voto fosse decisivo, eu teria votado a favor do Presidente.
Não acreditei no que estava ouvindo. Recusei-me a engolir e perguntei:
— Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você votou contra o Sarney porque a Folha de S. Paulo noticiou que você votaria a favor?
— Sim.
— E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele?
— Exatamente. O senhor entendeu?
— Entendi. Entendi que você é um juiz de merda! Bati o telefone e nunca mais falei com ele.
— Saulo Ramos, ex-ministro da Justiça”.

Segundo o jornalista Mário Abrahão, “o decano é portador da síndrome de Húbris, uma doença que acomete os que estão no exercício do poder. Se comparam com seres superiores (ou Deus)”.

Em relação ao comportamento do decano nos últimos e desastrosos atos contra o presidente Jair Bolsonaro, continua o jornalista Mário Abrahão: “não seriam, tais atos do ministro um lamentável quadro da ‘síndrome do poder’? Que triste e lamentável ‘saideira’”!

Com o desnude de tudo o que ouvimos e enxergamos nos últimos tempos, é mesmo de se perguntar: este país ainda tem jeito?

Com todos os codinomes recebidos pelos (nossos) integrantes do que deveria ser a mais alta Corte?

Que mesmo sendo sabedores de que grande parte dos coirmãos pátrios, precisam viver e atravessar o mês todo com menos de um quarto do salário-mínimo, enquanto eles (as eminências pardas – seres superiores ou mesmo uma espécie de Deus), torram, somente com lagostas, camarões, vinhos importados e outras futilidades (uma espécie de vale-alimentação dos pobres ministros), cerca de 87 salários-mínimos, cada um dos onze (ungidos), por mês, do dinheiro de todos os brasileiros?

Não vamos aqui, entrar nos atributos de competência; imparcialidade (não ligação política ou com grupos); senso de igualdade, justiça (como ela é, e não como convém) e vida ilibada, que deve mesmo, ser coisa do passado e totalmente em desuso.

O que vimos e testemunhamos reiteradamente, foram tentativas de instalação de uma verdadeira “ditadura” do judiciário na perseguição de quem tem pensamento diverso de “suas excelências”.

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Foto de Jacó Carlos Diel

Jacó Carlos Diel

Filósofo, jornalista e bacharel em Direito.

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