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Ocidente: Um manicômio de portas abertas

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“O Ocidente tem efetivamente grande necessidade de ser defendido, mas unicamente contra si próprio, contra as suas próprias tendências que, se forem levadas até ao fim, conduzi-lo-ão inevitavelmente à ruína e à destruição”. Rene Guénon

Na metade do século XX, horrorizado com os maus tratos e com as más condições do ambiente manicomial, o psiquiatra Franco Basaglia começou um movimento que, posteriormente, passou a ser conhecido como “luta antimanicomial”, o qual se destacou no Brasil especialmente a partir do final dos anos 80 do século XX.

Com efeito, a exemplo do que ocorreu com diversos movimentos cujas ideias eram legítimas, posteriormente ele passou a ser afastado de sua preocupação originária, com a dignidade da pessoa humana, e começou a fazer parte de uma pauta ideológica e política.

Mas, insisto: o fato de muitos manicômios se assemelharem a prisões motivou uma discussão justa, dado que nessas “prisões” muitos indivíduos tinham sua dignidade violada, sendo tratados de forma não raramente brutal, drogados e sem qualquer possibilidade de reintegração à sociedade.

Portanto, certamente era necessário um debate sobre como essas pessoas estavam sendo tratadas. Não apenas isso, era necessário avaliar como como eram as instalações dos chamados “manicômios”.

Em suma, tratava-se, e ainda se trata, aliás, de uma pauta justa, da mesma forma como é legítimo avaliarmos todo o sistema se saúde tendo em vista a proteção da dignidade da pessoa humana.

Não obstante, há um aspecto em particular referente à questão da “luta antimanicomial” que sempre chamou minha atenção, pois não parecia estar ligado a uma preocupação com a dignidade da pessoa humana, mas, sim, com uma agenda ideológica e política em particular.

Refiro-me, aqui, ao relativismo, o qual pode ser depreendido de uma ideia que aparece frequentemente na fala de muitos defensores da “luta antimanicomial”, para os quais os transtornos mentais são apenas “modos alternativos” de se ver o mundo.

À primeira vista pode parecer uma premissa inócua. No entanto, trata-se de uma ideia deletéria que pode atualmente ser reconhecida pelos seus “frutos” tóxicos.

Assim, diante de muitos comportamentos, ações, falas, etc, quem não se perguntou: “nosso mundo não estará se transformando em um manicômio aberto?”

Bom, aqueles que já se colocaram essa pergunta certamente ainda mantém sua sanidade (ou o que resta dela) intacta.

Afinal, que pergunta nos ocorre diante de notícias como:

1. A do canadense de 46 anos que abandonou sua família (esposa e 7 filhos) para começar uma nova vida como uma menina de 6 anos de idade, tendo sido, inclusive, “adotado” e passado a se chamar Stefonknee Wolschtt;
2. A do californiano que já fez mais de 100 cirurgias para se transformar em um “alienígena sem gênero”;
3. A do sujeito que, após diversas cirurgias (remoção de orelhas, nariz, etc), se tornou um “réptil sem gênero”;
4. A do homem trans que alega ser um cachorro e se comporta (identifica) como tal (se autodenominando um “human pup”);
Obs: Será que os exemplos 3 e 4 buscam por um veterinário quando adoecem??? Dúvido .....;
5. Aquela referente à existência de uma organização, NAMBLA, que promove a pedofilia como um mero “estilo de vida”. Afinal, “tudo é amor”, certo? E “o que importa é o amor”, não é mesmo? Julgo que todos já conhecemos esse discurso, tão em voga na última década;
6. Aquela sobre a existência de inúmeros fóruns na internet que promovem a zoofilia, também como um “estilo de vida”. Afinal, “tudo é amor”, certo? (e “o que importa é o amor”, não é mesmo?) Aliás, hoje está ganhando alguma notoriedade indivíduos que mantêm atividade sexual com .... minhocas (homens colocam seu órgão genital em uma lata cheia delas, enquanto mulheres as inserem em suas vaginas). Nos fóruns essas pessoas sequer discutem a bestialidade da prática mesma, mas apenas se é o caso de exigir consentimento das minhocas. Mas, trata-se de um mero “modo alternativo” de ver o mundo e as relações, certo?;
Obs. Os exemplos 5 e 6 fazem parte da “ladeira escorregadia” pela qual começamos a escorregar quando se passou a considerar que “tudo é amor”, como se meros sentimentos (em alguns casos perversões) pudessem ser classificados como “amor”;
7. A crescente defesa de que a carne humana deverá ser a “comida do futuro” (antropofagia). Dada a preocupação ecológica, “cientistas” como Magnus Soderlund têm defendido que passemos a dar uma utilidade gastronômica aos cadáveres. Tudo, segundo ele, para parar o aquecimento global (????). E ele não está sozinho nessa defesa, a qual certamente avançará nos próximos anos, especialmente desde nossos ambientes acadêmicos, nos quais já tem sido também defendido que passemos a desenvolver carne humana em laboratório para nosso consumo alimentar, bem como que passemos a comer insetos e outras criaturas repulsivas. Aparentemente nossos “intelectuais” possuem “gadofobia”: pode-se comer qualquer coisa (carne humana inclusa no cardápio), menos carne de gado.

Acima selecionei alguns exemplos dos quais lembrei imediatamente. Mas, se pesquisarmos as mídias veremos que há um crescente número de notícias que relativizam a normalidade, validando os mais bizarros e insanos modos de comportamento.

Afinal, se tudo é uma questão de “modos alternativos” de vermos o mundo, então tudo está permitido. Como diria o satanista Aleister Crowley, “tudo é da lei”.

Vejam como sua máxima está mais atuante do que nunca em nossos dias.

Mas quem tem tornado o mundo um grande manicômio? De onde advêm tais ideias que estarrecem o senso comum (bom senso)?

Não vou retornar a outros pontos que já expus aqui no JCO. Deixarei apenas alguns links em que abordo esse problema:

Nos textos acima ofereço diversos exemplos de como certas ideias foram engendradas desde dentro de nossas universidades, inicialmente nas áreas chamadas, ironicamente, “humanidades” (atualmente ‘desumanidades’, eu diria).

Tais áreas iniciaram uma espécie de “ladeira escorregadia” que nos trouxe a modos de comportamentos que no passado demandariam o devido acompanhamento médico (especialmente psiquiátrico).

Os exemplos que citei acima só passaram a ser apresentados como “modos alternativos” de vida porque antes uma cultura acadêmica lhes ofereceu uma, digamos, “justificativa”. Ou seja, a sociedade civil jamais concordaria com tais ideias.

Nem concorda, aliás. Mas, como tais ideias são oriundas de uma “elite” de “ungidos”, como discordar, certo? Afinal, todo aquele que discorda é, segundo os “ungidos”, ignorante, obscurantista, opressor, iletrado, inculto ... não faltam adjetivos para estigmatizar o sensato (e o bom senso mesmo, consequentemente) que, diante do temor de ser acusado com os adjetivos acima, cala e muitas vezes duvida de seu bom senso.

E para quem acredita que tais ideias são acalentadas apenas nas (des) humanidades, lamento dizer que hoje mesmo em áreas outrora ‘exatas’ tais ideologias já se enraizaram.

Recentemente um programa de mestrado e doutorado na área da matemática anunciava, dentre suas áreas de “pesquisa”, “educação em ciências e matemática para a diversidade sexual e de gênero e de justiça social”, bem como “decolonialidade e relações étnico-raciais na educação em matemática e ciências” (cabe destacar que muitas dessas pesquisas são subsidiadas com bolsas de agências estatais de fomento.

Sem falar no custo mesmo desses “pesquisadores” para a universidade e, consequentemente, para os pagadores de impostos). Mas me pergunto se ao longo do curso serão “cancelados” matemáticos e cientistas como Euclides, Arquimedes, Descartes, Newton, Galileu, et al. Afinal, eram todos homens brancos europeus e, até onde lemos em suas biografias, heterossexuais.

Ou seja: representam o que hoje há de mais odiado pela esquerda. Se o que estou sugerindo parece uma possibilidade absurda, um devaneio, lembremos que em 2017 já houve uma iniciativa, na Inglaterra, para “decolonizar” o ensino da filosofia mediante a abolição de autores como Platão, Aristóteles e Kant. Motivo? Ora, eram filósofos europeus brancos.

Algo similar ocorreu nos USA na mesma época, quando estudantes de literatura inglesa reivindicaram o “cancelamento” de autores como Shakespeare, John Milton, Alexander Pope, William Wordsworth, T.S. Eliot, et al. E isso também para “decolonizar” o ambiente acadêmico. Ou seja: “decolonizar” significa extirpar de nossa cultura o que nela há de mais elevado.

Em verdade, trata-se de eliminar a civilização mesma, com todos os seus pilares.

Trata-se de nos reduzir a uma vida similar àquela dos povos primitivos, tão enaltecidos pelo nosso meio acadêmico, pelos mesmos “ungidos” que escrevem desde suas casas confortáveis, em seus sofisticados aparelhos eletrônicos com acesso à internet e a todas as benesses do mundo civilizado.

Desse modo, eu realmente não tenho dúvidas sobre os efeitos perniciosos do meio acadêmico sobre a sociedade civil. Esse mesmo meio tem (de) formado nossos juristas, nossos professores, nossos jornalistas ....

O dano já está feito. O câncer fez metástase. Cabe nos perguntarmos se ainda há esperança para uma excisão bem-sucedida do tumor. Sinceramente, ainda que esperançoso, tenho dúvidas.

Por fim, considerando o atual estado de coisas, encerro com uma dúvida: Quem salvará os sãos???

Foto de Carlos Adriano Ferraz

Carlos Adriano Ferraz

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). É professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), bem como membro do Docentes pela Liberdade (DPL) nacional e diretor do DPL/RS.

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